Da Redação
Presidente defende retomada de ativo estratégico vendido no governo Bolsonaro e sinaliza mudança no papel da Petrobras diante da crise global do petróleo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar no centro do debate econômico a soberania energética brasileira ao afirmar que a Petrobras estuda recomprar a Refinaria de Mataripe, um dos ativos mais emblemáticos do processo de privatização do setor de refino no país.
A declaração foi feita no fim de março de 2026, durante evento oficial, e representa um movimento político e estratégico relevante. Lula foi direto ao afirmar que o governo pretende retomar o controle da refinaria: “Pode demorar um pouco, mas nós vamos comprar”, disse o presidente, sinalizando uma diretriz clara de reconfiguração da política energética nacional .
A refinaria, também conhecida como Landulpho Alves, foi privatizada em 2021 durante o governo de Jair Bolsonaro e vendida ao fundo soberano Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos. Desde então, passou a ser operada pela empresa Acelen. Com capacidade de refino de cerca de 300 mil barris por dia, o ativo representa aproximadamente 14% da capacidade nacional, sendo estratégico para o abastecimento do Nordeste .
A movimentação do governo ocorre em um contexto de forte pressão sobre os preços dos combustíveis, impulsionada pela guerra no Oriente Médio e pela instabilidade no mercado internacional de petróleo. Para Lula, a perda de ativos de refino reduziu a capacidade do Estado de intervir nos preços e proteger o mercado interno.
Esse ponto é central. Ao defender a recompra da refinaria, o presidente não está apenas questionando uma decisão passada, mas propondo uma mudança estrutural no papel da Petrobras. A ideia é reconstruir instrumentos de regulação que permitam ao país enfrentar choques externos com maior autonomia.
A própria Petrobras confirmou oficialmente que analisa a possibilidade de aquisição como parte de suas estratégias de investimento, embora ainda não haja decisão final ou negociação concluída. Em comunicado ao mercado, a estatal afirmou que avalia continuamente oportunidades, incluindo a eventual compra da refinaria baiana .
Do ponto de vista econômico, a operação é complexa. A recompra dependerá de fatores como viabilidade financeira, negociação com o atual controlador e condições de mercado. Especialistas apontam que o valor do ativo pode ser significativamente maior do que o pago na privatização, o que exigiria uma operação robusta e bem estruturada.
Mas o debate vai além dos números. Ele se insere em uma disputa mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento do país. De um lado, a lógica de desestatização e abertura do mercado de refino. De outro, a defesa de um Estado com capacidade de atuação direta em setores estratégicos.
No atual cenário global, essa discussão ganha ainda mais relevância. A volatilidade do petróleo, a guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel e a pressão sobre combustíveis reforçam a importância de infraestrutura energética nacional sob controle doméstico.
A eventual recompra da refinaria também dialoga com a política industrial do governo, que busca reverter o processo de desindustrialização e fortalecer cadeias produtivas estratégicas no país .
No fim, a fala de Lula sintetiza um movimento maior: a tentativa de reposicionar o Brasil em um contexto internacional turbulento, recuperando instrumentos de soberania econômica e energética. A refinaria de Mataripe, nesse cenário, deixa de ser apenas um ativo industrial e se transforma em símbolo de um projeto de país em disputa.






