Da Redação
Presidente abre na terça-feira o Debate Geral da 81ª Assembleia das Nações Unidas, imediatamente antes de Donald Trump. Multilateralismo, negociação de conflitos, reforma do Conselho de Segurança e não interferência estão entre os temas antecipados pelo Itamaraty. A viagem ocorre em um momento de disputa comercial entre Brasília e Washington, guerras prolongadas e questionamento crescente sobre a capacidade das instituições multilaterais de limitar ações unilaterais das grandes potências.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou neste domingo, 20 de setembro, para Nova York deixando explícita a palavra que pretende colocar no centro da participação brasileira na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas: soberania. Antes da viagem, afirmou que representará um país que mantém relações com diferentes nações, mas espera reciprocidade. “Que respeita todo mundo e exige respeito”, escreveu o presidente ao anunciar sua partida. Também mencionou a defesa da paz, do diálogo, da população brasileira e das riquezas nacionais.
A mensagem ganha significado particular porque Lula falará na terça-feira, 22, imediatamente antes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Não se trata de uma ordem criada para o confronto entre os dois governos: o Brasil abre tradicionalmente o Debate Geral desde 1955, e os Estados Unidos falam em seguida na condição de país anfitrião. A própria ONU registra que essa precedência brasileira é uma tradição, não um privilégio formal incorporado às regras da organização.
Neste ano, entretanto, a proximidade física e política dos dois discursos terá uma importância adicional. Brasil e Estados Unidos atravessaram em 2026 novas disputas comerciais, diplomáticas e políticas. Em julho, Brasília acionou o mecanismo de consultas da Organização Mundial do Comércio contra tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros. Em agosto, Lula e Trump conversaram por telefone sobre o tema e concordaram que representantes dos dois governos deveriam prosseguir as negociações.
Não há, até o momento, confirmação de uma reunião bilateral entre Lula e Trump em Nova York. O Itamaraty informou que a agenda presidencial de segunda-feira será dedicada a encontros com outras autoridades, mas não anunciou um encontro com o presidente americano. Como ambos estarão no plenário na manhã de terça, é possível que se cruzem nos corredores ou na área reservada aos chefes de Estado, como ocorreu na Assembleia de 2025, mas isso não deve ser tratado antecipadamente como reunião diplomática.
A viagem ocorre ainda a apenas 14 dias do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral para 4 de outubro. Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. O calendário eleitoral aumenta naturalmente a repercussão doméstica de tudo o que o presidente disser em Nova York, mas a missão é institucional: Lula chefia a representação brasileira na principal reunião anual das Nações Unidas.
O discurso ainda estava em elaboração quando o Itamaraty apresentou a agenda. Por isso, qualquer antecipação detalhada sobre frases, acusações ou países que serão mencionados deve ser tratada como expectativa, não como conteúdo já definido. O que o Ministério das Relações Exteriores confirmou é uma linha de continuidade: defesa do multilateralismo, reforma da ONU, negociação para solucionar conflitos, respeito ao direito internacional humanitário, combate à pobreza e à fome e princípio da não interferência nos assuntos internos dos Estados.
É nessa combinação que a frase sobre respeito recíproco adquire relevância maior que uma declaração de partida.
Soberania deixa de ser apenas conceito diplomático
Na política externa brasileira, soberania não é uma novidade retórica. A Constituição estabelece entre os princípios que regem as relações internacionais do país a independência nacional, a autodeterminação dos povos, a não intervenção, a igualdade entre os Estados, a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos.
O contexto de 2026, porém, dá conteúdo material a esses princípios.
A relação com Washington oferece um exemplo direto. As novas tarifas americanas levaram o governo brasileiro a recorrer à OMC, enquanto os dois presidentes mantiveram uma linha política de negociação. A existência simultânea de contestação jurídica e diálogo bilateral mostra duas dimensões da política externa: defender interesses nacionais dentro de instituições multilaterais e manter canais diretos com a potência envolvida na disputa.
A questão também aparece na disputa por minerais críticos, tecnologia, energia, cadeias industriais e segurança econômica. Os Estados Unidos vêm reorganizando suas políticas para reduzir dependências externas em materiais considerados essenciais para sua indústria tecnológica e militar. Brasil, China, União Europeia e outras economias possuem interesses próprios nessa reorganização. Nesse ambiente, soberania deixa de significar apenas integridade territorial e passa a envolver capacidade regulatória, controle de ativos estratégicos, política industrial e poder de decidir com quem e sob quais condições o país estabelece relações econômicas.
A formulação utilizada por Lula antes da viagem — respeito às outras nações acompanhado da exigência de tratamento equivalente — dialoga diretamente com esse cenário, mas não equivale a um rompimento com os Estados Unidos. Pelo contrário: Brasília continua negociando comercialmente com Washington e mantém uma relação econômica de grande escala. A divergência está na tentativa brasileira de preservar espaço de decisão diante de pressões externas.
Há também uma segunda dimensão. O Brasil chega a Nova York defendendo soberania ao mesmo tempo que insiste na necessidade de instituições internacionais fortes. À primeira vista, as duas posições podem parecer contraditórias: se cada Estado é soberano, por que aceitar organismos multilaterais capazes de criar regras comuns?
A resposta histórica da diplomacia brasileira é que regras multilaterais podem ampliar a autonomia de países que não possuem o mesmo poder militar, financeiro ou tecnológico das grandes potências. Um sistema baseado exclusivamente na força relativa tende a favorecer quem controla mais capital, armamentos, tecnologia, moeda e capacidade de impor sanções. Instituições e normas não eliminam essas desigualdades, mas podem criar limites jurídicos e arenas de contestação.
É justamente por isso que Brasília insiste em reformar, e não abandonar, as Nações Unidas.
Em maio deste ano, o representante permanente do Brasil na ONU, Sérgio França Danese, afirmou no Conselho de Segurança que os problemas internacionais atuais não poderiam ser enfrentados pelo unilateralismo e reiterou a posição brasileira de que o Conselho precisa refletir melhor a distribuição contemporânea de poder e representação.
O Brasil também atua com Alemanha, Índia e Japão no G4, grupo que reivindica expansão tanto das cadeiras permanentes quanto das não permanentes do Conselho. Em abril, o G4 declarou apoio ao modelo apresentado pelos países africanos e voltou a defender uma reforma que amplie a presença de África, Ásia-Pacífico, América Latina e Caribe.
A própria delegação brasileira afirmou em maio que décadas de discussões ainda não produziram uma negociação substantiva capaz de alterar a composição do órgão. O país defende a passagem para uma etapa baseada em modelos concretos.
A dificuldade é estrutural. O Conselho continua concentrando poder especial em Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido, os cinco membros permanentes dotados de poder de veto. Uma mudança profunda depende de alteração da própria Carta da ONU e, consequentemente, do consentimento das potências que já ocupam a posição privilegiada.
É esse paradoxo que Lula encontrará novamente em Nova York: para tornar a ordem multilateral menos dependente das grandes potências, é necessário obter das próprias grandes potências aprovação para redistribuir parte do poder que possuem.
Lula chega a uma ONU pressionada por guerras e pela disputa entre potências
A 81ª Assembleia ocorre em um contexto internacional particularmente difícil para a defesa do multilateralismo. O Debate Geral reunirá os 193 Estados-membros entre 22 e 28 de setembro sob o tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
A escolha do tema traduz uma crise real de confiança.
A guerra na Ucrânia continua sem solução negociada e com o Conselho de Segurança limitado pelo poder de veto russo. No Oriente Médio, a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã entrou em seu sétimo mês, produzindo mortes, deslocamentos, impactos sobre petróleo e energia e novas tensões entre Washington, Teerã e os países do Golfo. A Reuters aponta esses dois conflitos entre os principais temas que deverão dominar os encontros em Nova York.
A questão palestina também permanecerá no centro da Assembleia. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deverá participar por vídeo depois que os Estados Unidos negaram seu visto de entrada, enquanto o governo americano autorizou a presença de uma delegação iraniana submetida a restrições de deslocamento. Washington argumenta agir de acordo com sua legislação; a questão reabriu o debate sobre as obrigações especiais que os Estados Unidos assumem como país-sede das Nações Unidas.
A própria ONU atravessa dificuldades financeiras. Os Estados Unidos pagaram US$ 725 milhões neste mês para reduzir sua dívida com o orçamento regular da organização e evitar consequências sobre seus direitos de voto, mas ainda permaneciam devendo mais de US$ 1,3 bilhão nessa rubrica, segundo informações divulgadas pela Reuters. A administração Trump defende cortes e mudanças no funcionamento da organização.
É nesse ambiente que António Guterres participa de sua última Semana de Alto Nível como secretário-geral. Seu segundo mandato termina em 31 de dezembro. Lula terá encontro com Guterres na terça-feira antes de seu pronunciamento.
Para o governo brasileiro, portanto, defender o multilateralismo não significa afirmar que as instituições existentes funcionam adequadamente. A própria posição oficial do Brasil é crítica ao atual desenho da ONU. Em seu discurso na Cúpula do Futuro de 2024, Lula afirmou que conflitos, corrida armamentista, mudança climática e desigualdades mostravam limitações da governança internacional e que o Sul Global continuava sub-representado.
Essa posição permaneceu nos anos seguintes. Em julho de 2026, Brasil e Coreia do Sul assinaram declaração conjunta defendendo uma reforma abrangente das Nações Unidas, com maior participação de regiões sub-representadas, inclusive América Latina e Caribe.
A mensagem que Lula leva neste domingo possui, dessa forma, duas frentes.
Externamente, o Brasil reivindica autonomia para tomar decisões econômicas, políticas e estratégicas sem aceitar imposições de outros governos. Institucionalmente, defende uma ordem internacional em que essa autonomia seja protegida por regras aplicáveis também às grandes potências.
O desafio é que o sistema atual frequentemente separa essas duas coisas.
Estados com grande poder econômico e militar dispõem de instrumentos que países menores não possuem: sanções financeiras, tarifas, controle de tecnologias, domínio de sistemas de pagamento, capacidade militar global, inteligência, poder sobre cadeias produtivas e assentos permanentes no Conselho de Segurança. A igualdade jurídica inscrita na Carta da ONU convive, portanto, com uma profunda desigualdade material entre os integrantes da organização.
A diplomacia brasileira procura há décadas administrar essa contradição por meio da diversificação das relações internacionais. O país mantém parceria econômica profunda com Estados Unidos, China e União Europeia, participa do BRICS, integra o G20, atua no G77 e procura preservar diálogo com países envolvidos em lados opostos de crises internacionais.
Essa estratégia não elimina dependências nem impede pressões. Sua lógica é aumentar o número de opções disponíveis ao Estado brasileiro.
A agenda da delegação em Nova York traduz essa diversidade. Depois do retorno de Lula, o chanceler Mauro Vieira permanecerá nos Estados Unidos e participará de reuniões envolvendo BRICS, IBAS, G77, G4, L.69 e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, além de presidir encontros da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. A Aliança, criada durante a presidência brasileira do G20, reúne atualmente mais de 215 integrantes, incluindo mais de cem países.
Lula terá a segunda-feira reservada principalmente para encontros bilaterais e, na terça, se reunirá com Guterres antes de subir à tribuna. A previsão oficial é que retorne ao Brasil ainda no mesmo dia.
Há também expectativa sobre um possível encontro com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. O Itamaraty confirmou ter recebido o pedido, mas informou que a reunião ainda não estava oficialmente fechada quando apresentou a programação.
O acontecimento central, contudo, será a sequência de discursos de terça-feira.
Lula falará primeiro. Trump falará em seguida.
A proximidade não significa que os pronunciamentos serão uma réplica direta um do outro. O presidente brasileiro deverá abordar uma agenda internacional mais ampla, e o conteúdo final de seu texto ainda não é público. Mas o fato de os chefes de Estado de Brasil e Estados Unidos ocuparem sucessivamente a mesma tribuna, num momento de divergências comerciais e discussões sobre soberania, dará às duas falas uma leitura bilateral inevitável.
É também nesse ponto que a frase pronunciada antes do embarque merece ser compreendida com precisão.
“Exigir respeito” não possui, por si só, conteúdo jurídico ou econômico. Seu significado dependerá daquilo que Lula transformar em propostas concretas: que regras internacionais pretende defender, como o Brasil responderá a medidas unilaterais, quais reformas exigirá da ONU, que soluções proporá para os conflitos e como conciliará relações com potências que competem entre si.
A Assembleia Geral não tem capacidade para eliminar essas disputas. Grande parte de suas resoluções possui peso político, e não caráter juridicamente vinculante. Cada um dos 193 Estados tem um voto, mas o poder decisório internacional não está distribuído de maneira igualmente horizontal.
É justamente essa diferença entre igualdade formal e poder real que está por trás da insistência brasileira na reforma do sistema.
Ao embarcar para Nova York, Lula apresenta soberania, paz e multilateralismo como partes de uma mesma posição internacional. O teste dessa formulação começa na terça-feira, diante de uma Assembleia que reúne praticamente todos os Estados do planeta, mas continua submetida às assimetrias de poder que o Brasil afirma querer modificar.
E, desta vez, o presidente dos Estados Unidos estará esperando imediatamente depois para ocupar a mesma tribuna.


