Da Redação
Com o maior tempo do horário eleitoral, campanha do presidente pretende combinar trajetória pessoal, realizações de governo e propostas para um novo mandato com ataques ao principal adversário. Estratégia petista prevê apresentar episódios da vida política de Flávio como contraponto à história de Lula
A campanha presidencial entra nesta sexta-feira (28) em uma etapa decisiva com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega a essa fase com uma vantagem importante: terá 5 minutos e 31 segundos por programa, o maior tempo entre os candidatos à Presidência, diante de 4 minutos e 20 segundos destinados a Flávio Bolsonaro (PL). A estratégia preparada pelo núcleo petista pretende utilizar essa diferença para transformar a eleição em um verdadeiro “confronto de biografias”.
A ideia é relativamente simples, mas politicamente agressiva: colocar lado a lado as trajetórias dos dois principais candidatos e fazer da história pessoal de cada um um argumento eleitoral. Lula será apresentado a partir de sua origem operária, da trajetória sindical, da chegada à Presidência e das políticas implementadas durante seus governos. Flávio, por sua vez, deverá enfrentar uma campanha destinada a recuperar episódios controversos de sua vida pública.
A decisão representa uma mudança importante em relação ao modelo tradicional de estreia no horário eleitoral. Normalmente, os primeiros programas são utilizados para apresentar o candidato, contar sua história e estabelecer uma identidade emocional com o eleitor. No caso de Lula, os estrategistas avaliam que essa apresentação básica tem utilidade limitada: depois de aproximadamente cinco décadas de vida pública e três mandatos presidenciais, seu problema não é desconhecimento.
A exceção está nos eleitores mais jovens, que não acompanharam sua trajetória sindical, as grandes campanhas presidenciais das décadas de 1980 e 1990 ou mesmo os primeiros governos petistas. A campanha reconhece a necessidade de apresentar esse Lula histórico às novas gerações, mas avalia que parte considerável desse público consome informação prioritariamente pelas redes sociais, e não pela televisão tradicional.
Por isso, a biografia presidencial deverá aparecer de maneira mais emocional e dinâmica. Segundo informações obtidas pela imprensa, a trajetória de Lula será apresentada inclusive em formato de clipe musical, enquanto a do adversário poderá receber tratamento visual inspirado numa “ficha corrida”, semelhante aos registros policiais.
A escolha revela o grau de confrontação que a campanha pretende imprimir à disputa.
Um dos assuntos preparados para a ofensiva é o chamado caso Dark Horse, envolvendo as conversas de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sobre financiamento de um filme relacionado a Jair Bolsonaro. O episódio já vem sendo explorado politicamente pelo PT e deverá chegar à propaganda eleitoral.
A campanha também avalia recuperar as antigas acusações envolvendo o chamado esquema das “rachadinhas” no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Nesse ponto, será necessário que a propaganda observe os desdobramentos judiciais posteriores do caso e não apresente acusações como condenações que não ocorreram.
A estratégia petista, entretanto, não pretende transformar todo o horário eleitoral em campanha negativa. Integrantes da candidatura afirmam que os ataques deverão ocupar uma parcela do programa, enquanto a maior parte do tempo será dedicada à defesa das realizações do governo, à trajetória presidencial e às propostas para um eventual quarto mandato de Lula. As peças mais curtas, distribuídas ao longo da programação das emissoras, tendem a concentrar parte maior da ofensiva contra Flávio.
Essa distribuição é importante porque Lula também possui vantagem quantitativa nas inserções.
Ao longo dos 35 dias de propaganda eleitoral no primeiro turno, a coligação presidencial terá direito a 433 inserções, enquanto Flávio contará com 339. Ronaldo Caiado terá 159 e Augusto Cury, 47.
O maior tempo de Lula decorre da amplitude de sua coligação, formada por PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede. Flávio disputa a Presidência somente pelo PL, embora o tamanho da bancada da legenda lhe assegure o segundo maior espaço da campanha televisiva.
A televisão será, portanto, uma das poucas arenas da campanha em que Lula começa com uma vantagem estrutural mensurável sobre o principal adversário.
Flávio aposta na economia e na segurança
A campanha de Flávio Bolsonaro prepara uma resposta baseada em dois dos terrenos considerados mais sensíveis para o governo: economia doméstica e segurança pública.
O senador gravou peças em estabelecimentos comerciais e pretende utilizar relatos sobre endividamento, dificuldades empresariais e custo de vida para responsabilizar o governo federal. Comparações de preços de alimentos básicos também deverão integrar a narrativa eleitoral do PL.
A segurança pública será outro eixo central. O objetivo é manter uma das principais bandeiras historicamente associadas ao bolsonarismo e disputar um tema sobre o qual pesquisas vêm mostrando preocupação significativa dos brasileiros.
Flávio também gravou programas com Michelle Bolsonaro. Segundo informações sobre o planejamento da campanha, as conversas abordam dificuldades enfrentadas pelas mulheres, futuro profissional dos jovens, pessoas com deficiência, doenças raras e autismo.
Forma-se, assim, uma disputa narrativa relativamente clara.
Lula quer perguntar ao eleitor: quem são esses dois homens e o que suas histórias dizem sobre aquilo que fariam no poder?
Flávio tentará deslocar a pergunta: como está sua vida hoje depois de mais um governo Lula?
Uma campanha procura transformar a biografia em critério de julgamento. A outra pretende transformar a situação presente em plebiscito sobre o governo.
O peso da história de Lula
O confronto biográfico oferece uma vantagem evidente ao presidente. Poucos políticos brasileiros possuem uma trajetória pública tão conhecida e extensa quanto Lula. Sua origem pobre, a migração nordestina, o trabalho como metalúrgico, a liderança das greves do ABC, a fundação do PT, as derrotas presidenciais, a eleição de 2002 e os três períodos no Palácio do Planalto constituem uma narrativa facilmente reconhecível.
A campanha pretende transformar essa trajetória numa espécie de síntese política: apresentar Lula como alguém cuja própria história se confunde com a ascensão social de parcelas da população brasileira.
Isso permite construir uma propaganda que não dependa exclusivamente de indicadores econômicos ou realizações administrativas. Existe uma dimensão afetiva na memória política de Lula que o PT pretende mobilizar novamente.
Mas essa estratégia também possui riscos.
Uma campanha excessivamente baseada no passado pode ter dificuldade para responder à pergunta sobre o futuro. Lula disputa em 2026 não apenas o julgamento dos governos anteriores, mas autorização para governar o Brasil por mais quatro anos.
Por isso, o equilíbrio entre memória e projeto será fundamental.
O programa precisa lembrar quem Lula foi sem produzir a impressão de que a candidatura vive apenas das realizações de outros períodos. A campanha terá de associar a biografia àquilo que pretende fazer entre 2027 e 2030.
Campanha quer evitar posição defensiva
Existe ainda uma dimensão política particularmente importante na escolha pelo confronto.
Nas últimas semanas, a oposição vem tentando levar Lula para uma posição defensiva por meio das investigações e suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A estratégia do PT é evitar que o presidente passe a campanha respondendo diariamente às acusações dirigidas ao filho.
A orientação já vinha sendo discutida antes do início da propaganda: em vez de permitir que Flávio defina sozinho o terreno moral da eleição, o PT pretende confrontá-lo com sua própria trajetória.
Trata-se de uma regra clássica de campanha eleitoral: um candidato obrigado a responder permanentemente ao enquadramento produzido pelo adversário perde capacidade de estabelecer sua própria agenda.
O “confronto de biografias” funciona justamente como tentativa de inverter essa relação.
Se Flávio pretende fazer da família Lula um problema eleitoral, a campanha petista pretende transformar a trajetória pública do próprio Flávio em objeto de escrutínio.
Caiado e Cury tentam romper a polarização
Enquanto Lula e Flávio se preparam para um confronto direto, os outros dois presidenciáveis com espaço na televisão enfrentam desafios diferentes.
Ronaldo Caiado (PSD) terá 2 minutos e 2 segundos. Sua campanha pretende inicialmente apresentá-lo ao eleitor nacional, destacando sua formação como médico e cirurgião, sua experiência política e sua passagem pelo governo de Goiás. Segurança pública será uma de suas principais bandeiras.
Augusto Cury (Avante) contará com apenas 35 segundos. Diante de um espaço extremamente curto, a prioridade será informar ao público que ele é candidato e tentar construir sua imagem como alternativa à polarização.
Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e os demais candidatos cujos partidos não alcançaram os critérios legais necessários ficarão sem tempo na propaganda televisiva.
A eleição chega à sala dos brasileiros
A estreia do horário eleitoral representa mais do que a abertura de outro canal de propaganda.
Até agora, boa parte da eleição de 2026 foi disputada entre brasileiros que acompanham política, redes sociais, pesquisas e noticiário diariamente. A televisão amplia a campanha para uma parcela do eleitorado que ainda não acompanha o processo com a mesma intensidade.
É quando a disputa começa a entrar repetidamente na programação cotidiana de milhões de pessoas.
E Lula chega a esse momento com uma vantagem objetiva de tempo e uma decisão estratégica tomada: não pretende utilizar seus minutos apenas para falar de si mesmo.
O presidente quer colocar seu principal adversário ao seu lado e pedir ao eleitor que compare os dois.
Trajetória contra trajetória. Experiência contra experiência. Governo contra oposição. Passado contra passado — e, sobretudo, duas versões radicalmente diferentes sobre o futuro do Brasil.
É uma estratégia que pode endurecer rapidamente a campanha presidencial.
A partir desta sexta-feira, a eleição que vinha sendo disputada sobretudo nas redes, nos palanques, nas pesquisas e no noticiário começa a ocupar também a televisão brasileira.
E a campanha de Lula parece ter decidido qual será uma das perguntas centrais que pretende levar até outubro:
antes de escolher quem governará o país, compare a história de quem está pedindo o seu voto.

