Governo federal estuda recuperar programa criado durante a gestão Dilma Rousseff, agora com bolsas internacionais também para estudantes do ensino médio. Proposta pretende financiar a participação de medalhistas de olimpíadas científicas em competições no exterior e priorizar inteligência artificial, engenharias, defesa nacional e minerais estratégicos na formação universitária. Iniciativa pode integrar educação, ciência e desenvolvimento industrial, mas ainda depende de orçamento, critérios de seleção e definição do calendário.
Da Redação
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma nova versão do Ciência sem Fronteiras, programa de internacionalização acadêmica criado em 2011 que permitiu a mais de 100 mil brasileiros estudar e desenvolver atividades científicas no exterior. A proposta em elaboração no Ministério da Educação (MEC) introduz uma mudança importante: a inclusão de estudantes do ensino médio entre os beneficiários, com apoio financeiro para jovens premiados em olimpíadas nacionais do conhecimento participarem de competições internacionais. O novo modelo também pretende concentrar bolsas de graduação e pós-graduação em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico e a soberania brasileira, como inteligência artificial, engenharia, eficiência energética, defesa e processamento de minerais críticos. A iniciativa representa uma das promessas apresentadas por Lula durante a campanha presidencial de 2026 e poderá se tornar parte da política científica de seu quarto mandato.
As informações foram divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, confirmadas por O Globo e repercutidas neste sábado (31) pelo Brasil 247.
Segundo as reportagens, técnicos do Ministério da Educação trabalham na definição de um formato que aproveite a experiência acumulada pelo programa original, mas estabeleça prioridades mais diretamente relacionadas às necessidades econômicas e tecnológicas do país.
Até agora, entretanto, não existe anúncio de lançamento definitivo.
O governo não estabeleceu o orçamento total, a quantidade de bolsas, os países participantes ou a data de abertura dos processos seletivos.
Também não há confirmação de que os primeiros estudantes viajarão em 2027.
Essas informações ainda dependerão da conclusão dos estudos técnicos e financeiros, da definição das instituições responsáveis e da publicação dos instrumentos administrativos necessários à execução da política.
A diferença entre uma proposta em elaboração e um programa oficialmente lançado é fundamental, especialmente para estudantes e famílias interessados nas futuras oportunidades.
O principal elemento novo está na educação básica.
Pelo desenho divulgado, jovens que conquistarem medalhas em olimpíadas nacionais de matemática e de outras áreas do conhecimento poderão receber apoio financeiro do governo federal para participar das etapas internacionais dessas competições.
A medida pretende reconhecer talentos científicos ainda durante a formação escolar e ampliar as oportunidades de contato com instituições e estudantes de outros países.
A proposta não corresponde, pelo menos nas informações conhecidas até agora, à oferta generalizada de intercâmbios de longa duração em escolas estrangeiras para qualquer aluno do ensino médio.
O benefício inicialmente estudado está relacionado à participação internacional de estudantes com desempenho destacado em competições científicas.
Essa distinção possui importância prática.
O financiamento de viagens para olimpíadas internacionais envolve necessidades diferentes das bolsas destinadas a cursar semestres acadêmicos ou desenvolver pesquisas em universidades estrangeiras.
Despesas de transporte, hospedagem, alimentação, documentação, seguro e acompanhamento de estudantes menores de idade precisarão ser consideradas na construção do programa.
Também será necessário estabelecer procedimentos de seleção e critérios capazes de assegurar transparência e igualdade de oportunidades.
A inclusão de adolescentes representa uma ampliação do alcance da política em relação à execução histórica do Ciência sem Fronteiras, cuja atuação concentrou-se principalmente na graduação e na pós-graduação.
A proposta também poderá aproximar duas etapas da formação científica que frequentemente são tratadas separadamente: a identificação de talentos na escola e sua preparação para a pesquisa universitária.
O Brasil já possui uma importante infraestrutura educacional relacionada às olimpíadas científicas.
A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, a OBMEP, organizada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), mobiliza anualmente milhões de estudantes de diferentes regiões.
Em 2026, sua 21ª edição reuniu mais de 18,3 milhões de participantes de 58.238 escolas públicas e privadas, distribuídas por 99,93% dos municípios brasileiros.
A abrangência territorial demonstra que o interesse pela ciência e pela matemática não está restrito às grandes capitais ou aos centros universitários mais tradicionais.
Estudantes de pequenas cidades, áreas rurais e municípios afastados dos principais polos econômicos participam das mesmas competições nacionais.
O desempenho desses jovens pode revelar capacidades que nem sempre encontram condições adequadas de desenvolvimento dentro de suas escolas.
Entretanto, a participação em uma olimpíada e a conquista de uma medalha não dependem exclusivamente de habilidades individuais.
A disponibilidade de professores especializados, materiais didáticos, laboratórios, tempo de preparação e acompanhamento pedagógico também influencia os resultados.
Por isso, uma política baseada na premiação de medalhistas precisará considerar as desigualdades existentes entre redes de ensino e regiões brasileiras.
O risco é que oportunidades de formação internacional acabem concentradas em estudantes que já possuem acesso a melhores condições educacionais.
Para enfrentar essa possibilidade, o desenho do programa poderá incorporar mecanismos de apoio à preparação científica, atenção à diversidade regional e critérios de seleção que reconheçam as diferenças entre os contextos escolares.
Essas são questões de implementação ainda não resolvidas, não regras já anunciadas pelo MEC.
A política poderá beneficiar diretamente um número relativamente pequeno de jovens, caso se concentre exclusivamente em participantes das etapas internacionais.
Mesmo assim, sua articulação com iniciativas mais amplas de formação científica poderá produzir efeitos educacionais que ultrapassem os estudantes contemplados.
O fortalecimento das olimpíadas também pode estimular escolas a desenvolver atividades de matemática, física, química, informática e outras áreas.
Entretanto, esses efeitos dependerão da integração do programa com políticas de formação docente, distribuição de materiais e apoio às instituições de ensino.
A internacionalização não substitui o investimento na qualidade da educação básica brasileira.
Pode funcionar como instrumento complementar, desde que associada a condições adequadas de aprendizagem dentro do país.
A proposta de Lula também contempla estudantes universitários.
Na graduação, o governo pretende priorizar bolsas na modalidade conhecida como graduação-sanduíche.
Nesse modelo, o estudante permanece vinculado a uma instituição brasileira e realiza parte de sua formação em uma universidade ou centro acadêmico estrangeiro, retornando posteriormente ao curso de origem.
A experiência permite contato com laboratórios, métodos de ensino, equipamentos e linhas de pesquisa que podem complementar a formação oferecida no Brasil.
Segundo as informações divulgadas, o novo Ciência sem Fronteiras deverá concentrar essa modalidade em áreas como engenharia, matemática aplicada, inteligência artificial e eficiência energética.
A seleção de prioridades revela uma preocupação com setores que passaram a ocupar posição relevante na transformação produtiva mundial.
A inteligência artificial, por exemplo, está relacionada ao desenvolvimento de sistemas capazes de analisar dados, identificar padrões e executar diferentes tarefas.
Suas aplicações alcançam saúde, educação, transporte, agricultura, indústria, pesquisa científica e administração pública.
Entretanto, o desenvolvimento dessas tecnologias depende de infraestrutura computacional, profissionais especializados, disponibilidade de dados e capacidade de pesquisa.
Países que dominam componentes essenciais das cadeias tecnológicas possuem possibilidades diferentes de desenvolver soluções próprias e de definir as condições de utilização de sistemas digitais.
Para o Brasil, a formação de profissionais em inteligência artificial pode contribuir para ampliar sua capacidade de pesquisa e inovação.
Mas a capacitação de estudantes no exterior não garante automaticamente a criação de tecnologias nacionais.
É necessário que os conhecimentos adquiridos encontrem condições de aplicação em universidades, centros de pesquisa, empresas e instituições públicas brasileiras.
Isso envolve laboratórios, financiamento, carreiras científicas e oportunidades profissionais.
A mesma lógica se aplica às engenharias.
A modernização industrial depende de conhecimentos em materiais, eletrônica, automação, energia, produção, infraestrutura e sistemas computacionais.
A formação internacional poderá oferecer contato com tecnologias e métodos avançados, mas sua incorporação à economia brasileira exigirá projetos produtivos e investimentos internos.
A ligação entre formação científica e transformação econômica representa, portanto, uma questão central para o novo programa.
A proposta surge em um momento no qual o Brasil procura ampliar políticas de desenvolvimento tecnológico.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 prevê aproximadamente R$ 23 bilhões em investimentos, destinados a infraestrutura, capacitação, desenvolvimento tecnológico, aplicações produtivas e melhoria de serviços públicos.
O plano inclui iniciativas para ampliar a capacidade computacional e apoiar a utilização de inteligência artificial em diferentes setores.
O novo Ciência sem Fronteiras poderá contribuir para a formação de profissionais capazes de participar dessas atividades.
Entretanto, sua integração formal ao plano ainda não foi anunciada.
A existência de objetivos semelhantes não significa que os programas já possuam orçamento conjunto ou mecanismos definidos de coordenação.
A prioridade atribuída à eficiência energética também apresenta importância estratégica.
A modernização de equipamentos, processos industriais e sistemas de transporte pode reduzir a quantidade de energia necessária para produzir determinados bens e serviços.
Isso pode contribuir para diminuir custos e emissões, dependendo das tecnologias utilizadas e da estrutura energética envolvida.
Engenheiros e pesquisadores especializados nessa área participam do desenvolvimento de equipamentos, materiais, redes elétricas e processos produtivos.
A formação avançada desses profissionais possui relação direta com a competitividade industrial e com os compromissos de transição energética.
Na pós-graduação, a proposta assume um perfil ainda mais relacionado às prioridades do Estado brasileiro.
As bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado deverão privilegiar pesquisas aplicadas em temas como defesa nacional, soberania, minerais críticos e terras raras.
O conceito de pesquisa aplicada envolve a produção de conhecimento orientado à solução de problemas concretos, embora mantenha relação com investigações científicas fundamentais.
Essa orientação pode contribuir para aproximar universidades, instituições públicas e setores produtivos.
Entretanto, também exige critérios transparentes para selecionar projetos e avaliar resultados.
A formação científica precisa preservar autonomia acadêmica e qualidade metodológica, mesmo quando está relacionada a necessidades estratégicas definidas por políticas governamentais.
O interesse em minerais críticos e terras raras demonstra como a proposta dialoga com mudanças recentes da economia internacional.
Esses materiais participam da fabricação de equipamentos eletrônicos, motores elétricos, sistemas de geração de energia, componentes industriais e tecnologias de defesa.
Sua importância não decorre apenas da disponibilidade dos depósitos minerais.
Também depende da capacidade de desenvolver processos de separação, beneficiamento, transformação química e produção de componentes de maior valor agregado.
Um país pode possuir jazidas relevantes e continuar dependendo de outros mercados para obter materiais processados ou produtos industriais.
O Brasil procura modificar essa condição por meio de políticas que estimulem a pesquisa, a produção e a transformação mineral dentro de seu território.
Em setembro deste ano, o governo federal sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, destinada a ampliar a agregação de valor, a inovação e a capacidade industrial relacionada a esses recursos.
A legislação prevê mecanismos de coordenação e incentivos para diferentes etapas da cadeia produtiva.
Os dados da Agência Nacional de Mineração ajudam a compreender a importância do tema.
Em 2025, o Brasil produziu 326 toneladas de terras raras na forma de concentrado de óxidos, enquanto exportou aproximadamente US$ 14,9 milhões desses concentrados e importou US$ 30,6 milhões em determinados produtos transformados da cadeia.
Os valores não representam todo o mercado brasileiro de minerais críticos, mas demonstram a diferença entre produzir matérias-primas e dominar etapas industriais posteriores.
A formação de pesquisadores em áreas como metalurgia, química, física de materiais e engenharia poderá contribuir para ampliar a capacidade nacional.
Entretanto, os resultados dependerão de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, instalações industriais e mecanismos de transferência tecnológica.
Enviar especialistas ao exterior não significa automaticamente obter domínio sobre processos protegidos por patentes ou conhecimentos empresariais.
Será necessário construir parcerias e desenvolver capacidades próprias.
Esse é um dos desafios centrais de uma política de internacionalização científica associada à soberania tecnológica.
A proposta também procura recuperar a experiência do Ciência sem Fronteiras original.
Lançado em 26 de julho de 2011, durante o governo Dilma Rousseff, o programa surgiu como uma iniciativa conjunta dos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, executada principalmente pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A meta ampliada previa a concessão de aproximadamente 101 mil bolsas internacionais.
Segundo balanço oficial apresentado pela Capes e pelo CNPq em julho de 2015, o programa havia atingido 101.446 bolsas concedidas.
O balanço final frequentemente citado na imprensa situa o total de beneficiários em aproximadamente 104 mil durante o período de execução, encerrado em 2017.
A maior parte das bolsas concentrou-se na graduação.
No levantamento de 2015, aproximadamente 78% das concessões correspondiam a essa modalidade.
Os Estados Unidos receberam o maior contingente de bolsistas brasileiros, seguidos por Reino Unido, Canadá, França e Austrália.
As engenharias, ciências biológicas e áreas biomédicas estavam entre as principais formações contempladas.
O objetivo era ampliar o contato de estudantes e pesquisadores com centros acadêmicos internacionais, estimulando a formação de profissionais e a circulação de conhecimentos.
O programa também incentivou o aperfeiçoamento em idiomas estrangeiros.
A necessidade de preparar estudantes para acompanhar cursos internacionais contribuiu para a criação do Inglês sem Fronteiras, posteriormente ampliado para o Idiomas sem Fronteiras.
A experiência demonstrou que o conhecimento de uma língua estrangeira constitui uma condição prática importante para aproveitar oportunidades acadêmicas internacionais.
Entretanto, a política também passou a receber críticas relacionadas aos custos, à distribuição de bolsas e aos mecanismos de avaliação.
A discussão ganhou força à medida que aumentaram as despesas com mensalidades, manutenção dos estudantes e serviços associados aos intercâmbios.
Os custos dependiam dos países, das modalidades de bolsa e das condições contratuais.
Durante o governo Michel Temer, a administração do Ministério da Educação decidiu não abrir novas seleções de graduação no modelo anterior e manteve o pagamento das bolsas já concedidas até sua conclusão.
A descontinuidade ocorreu em um contexto de restrições orçamentárias e questionamentos sobre os resultados do programa.
O debate público passou a envolver uma questão central: como demonstrar que o investimento na formação internacional produziu benefícios científicos, profissionais e econômicos duradouros para o Brasil?
As avaliações disponíveis apresentam resultados diferentes conforme os indicadores utilizados.
Uma pesquisa realizada pelo DataSenado em 2015, com 14.627 bolsistas e ex-bolsistas, identificou elevada satisfação com a experiência.
Entre os entrevistados, 92% declararam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com o programa.
Também houve avaliação positiva da qualidade das instituições estrangeiras e relatos de aperfeiçoamento linguístico.
Essas informações mostram que a experiência foi considerada relevante por grande parte dos participantes da pesquisa.
Entretanto, satisfação individual não equivale automaticamente à demonstração de resultados sistêmicos em ciência e tecnologia.
Uma política pública precisa ser examinada também segundo sua contribuição para a formação de pesquisadores, a produção científica, a inovação e o desenvolvimento das instituições nacionais.
A mesma avaliação do DataSenado encontrou fragilidades no acompanhamento dos participantes.
Entre os ex-bolsistas, 76% afirmaram não ter recebido retorno das agências de fomento sobre a avaliação de sua experiência internacional.
O levantamento também identificou dificuldades relacionadas à orientação para apresentação de relatórios finais.
Esses resultados não demonstram que o programa tenha fracassado em seus objetivos, mas apontam limitações relevantes nos mecanismos de monitoramento e avaliação.
Uma nova versão poderá incorporar instrumentos capazes de acompanhar o percurso dos bolsistas depois do retorno ao Brasil.
Isso permitiria examinar quantos concluíram seus cursos, quais pesquisas desenvolveram, se permaneceram na atividade científica e de que maneira contribuíram para universidades ou empresas nacionais.
Também será importante avaliar os resultados por área do conhecimento, região de origem, instituição de ensino e perfil socioeconômico.
Sem essas informações, torna-se difícil estabelecer se a política está alcançando seus objetivos ou se os recursos poderiam produzir resultados melhores mediante ajustes.
Outro desafio está relacionado à capacidade de garantir continuidade orçamentária.
Intercâmbios acadêmicos envolvem compromissos financeiros que podem ultrapassar um único exercício fiscal.
Uma bolsa de doutorado-sanduíche, por exemplo, exige planejamento sobre duração da pesquisa, permanência no exterior e obrigações das instituições participantes.
Interrupções inesperadas no financiamento podem prejudicar estudantes, pesquisas e acordos internacionais.
Por isso, o lançamento de um programa dessa natureza precisa considerar a previsão de recursos para todo o período de execução dos benefícios concedidos.
O financiamento também deverá ser conciliado com outras prioridades educacionais.
Durante a campanha de 2026, Lula prometeu ampliar o Pé-de-Meia e estender mecanismos de apoio financeiro a estudantes universitários de baixa renda.
A proposta do novo Ciência sem Fronteiras surge, portanto, em um contexto de competição por recursos orçamentários entre diferentes políticas de educação e formação.
Essas iniciativas atendem necessidades distintas.
O Pé-de-Meia procura estimular a permanência estudantil e reduzir dificuldades econômicas que levam jovens a abandonar seus estudos.
O Ciência sem Fronteiras está relacionado à mobilidade internacional e ao aperfeiçoamento acadêmico.
A expansão simultânea dos programas dependerá de decisões fiscais e administrativas que ainda precisam ser detalhadas.
O governo também deverá definir quais instituições executarão as seleções.
No programa original, Capes e CNPq desempenharam funções centrais.
Ambas continuam atuando na concessão de bolsas e no financiamento da pesquisa científica.
A Capes, por exemplo, mantém programas de doutorado-sanduíche no exterior e abriu, em outubro de 2026, inscrições para uma nova etapa de mobilidade internacional.
Entretanto, esses editais já existentes não devem ser confundidos com inscrições para o novo Ciência sem Fronteiras.
A proposta de recriação ainda não possui edital próprio divulgado.
Os estudantes interessados deverão acompanhar as futuras decisões do Ministério da Educação e das agências eventualmente envolvidas.
Também permanece em aberto a definição de como as bolsas serão distribuídas entre educação básica, graduação e pós-graduação.
A concentração de recursos em áreas consideradas estratégicas poderá ampliar a coerência entre formação acadêmica e necessidades nacionais.
Entretanto, o governo precisará explicar os critérios utilizados para escolher as prioridades e como elas serão atualizadas ao longo do tempo.
Tecnologias e demandas produtivas passam por transformações rápidas.
Uma política de formação científica precisa combinar objetivos de longo prazo com capacidade de adaptação.
A inteligência artificial, por exemplo, envolve campos de conhecimento que vão da matemática à ciência da computação, passando por estatística, linguística e diferentes aplicações industriais.
A formação de especialistas exige interação entre disciplinas e instituições.
O mesmo ocorre nas pesquisas sobre energia, defesa e minerais estratégicos.
Essas áreas combinam conhecimentos científicos fundamentais com aplicações tecnológicas.
Uma definição excessivamente restrita de prioridades poderá excluir pesquisas relevantes para alcançar os objetivos anunciados.
Por isso, a avaliação dos projetos deverá considerar tanto sua qualidade científica quanto sua contribuição potencial para o desenvolvimento nacional.
Outro fator será a capacidade de manter vínculos duradouros entre os estudantes brasileiros e as instituições estrangeiras.
A realização de um intercâmbio pode abrir contatos acadêmicos, mas a continuidade das pesquisas depende de acordos entre universidades, laboratórios e equipes.
A cooperação internacional pode envolver projetos conjuntos, acesso a equipamentos, intercâmbio de professores e produção compartilhada de conhecimento.
Esses instrumentos permitem que os benefícios da mobilidade alcancem mais pessoas do que os bolsistas diretamente contemplados.
Universidades brasileiras poderão incorporar experiências, metodologias e parcerias construídas durante a permanência dos estudantes no exterior.
Entretanto, esses resultados dependerão de mecanismos institucionais que estimulem a continuidade da cooperação.
A experiência internacional não deveria terminar necessariamente com o retorno do bolsista.
Sua relação com o sistema nacional de pesquisa poderá ser um dos principais indicadores do alcance da política.
A discussão também possui uma dimensão de desenvolvimento regional.
O Brasil apresenta grandes diferenças na distribuição de universidades, laboratórios, infraestrutura científica e oportunidades de formação.
Instituições localizadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste enfrentam condições diferentes daquelas encontradas nos principais polos acadêmicos do Sudeste e do Sul.
A distribuição territorial das bolsas poderá influenciar a capacidade de reduzir ou reproduzir essas desigualdades.
O mesmo vale para estudantes de famílias de menor renda.
A possibilidade de realizar uma experiência internacional pode representar uma oportunidade importante para jovens que dificilmente conseguiriam financiar viagens e cursos no exterior com recursos próprios.
Entretanto, a seleção precisa ser organizada de maneira que os custos indiretos e as exigências acadêmicas não se tornem barreiras insuperáveis.
A preparação linguística, a documentação, as avaliações e o acesso à informação sobre os editais são elementos relevantes.
No caso dos estudantes do ensino médio, essas condições precisam ser consideradas também em relação às responsabilidades das escolas e das famílias.
A inclusão de jovens em olimpíadas internacionais exige planejamento de segurança, acompanhamento pedagógico e apoio adequado aos participantes.
O governo ainda deverá esclarecer como pretende estruturar essas responsabilidades.
A proposta de recriar o Ciência sem Fronteiras retoma, assim, uma experiência marcada por resultados expressivos de mobilidade e por questionamentos importantes sobre planejamento e avaliação.
O novo formato procura estabelecer uma relação mais direta entre formação acadêmica e prioridades econômicas do país.
A inclusão do ensino médio amplia a atenção aos talentos científicos identificados antes do ingresso na universidade.
A concentração de bolsas de graduação e pós-graduação em tecnologias estratégicas poderá aproximar a internacionalização acadêmica das políticas de inovação e desenvolvimento industrial.
Esses objetivos, entretanto, dependerão da execução concreta.
A existência de uma proposta não assegura recursos disponíveis, seleção transparente ou resultados científicos futuros.
Será necessário definir como os estudantes serão escolhidos, quais atividades receberão financiamento e como os benefícios serão avaliados.
Também será importante estabelecer de que maneira as experiências internacionais poderão contribuir para fortalecer instituições brasileiras.
O programa original demonstrou a possibilidade de mobilizar milhares de estudantes para centros acadêmicos estrangeiros.
A nova etapa terá o desafio de aproveitar essa experiência e responder às críticas sobre custos, acompanhamento e transferência de conhecimento.
A iniciativa também poderá oferecer uma resposta às transformações da economia mundial, na qual pesquisa científica e domínio tecnológico possuem importância crescente para a produção, a defesa, a energia e os serviços públicos.
A participação brasileira nessas cadeias depende de investimentos em infraestrutura, educação, pesquisa e desenvolvimento produtivo.
A mobilidade internacional constitui um dos instrumentos possíveis dessa estratégia, mas não substitui os demais.
A formação de profissionais no exterior pode ampliar o conhecimento disponível, enquanto a capacidade de utilizá-lo depende das condições construídas dentro do próprio Brasil.
É nesse ponto que a recriação do Ciência sem Fronteiras poderá adquirir significado econômico e institucional mais amplo.
A política terá maior alcance se estabelecer conexões duradouras entre escolas, universidades, centros de pesquisa, empresas e programas de desenvolvimento tecnológico.
Por enquanto, o Ministério da Educação permanece na fase de elaboração.
Não existe número de bolsas anunciado, orçamento aprovado especificamente para a nova iniciativa ou calendário de inscrição confirmado.
O governo deverá transformar as diretrizes discutidas em uma proposta com financiamento, critérios públicos e responsabilidades institucionais definidas.
A promessa de Lula recoloca a internacionalização científica na agenda do próximo mandato.
Sua novidade mais visível é reconhecer que o desenvolvimento de pesquisadores pode começar antes da universidade, com estudantes do ensino médio que já demonstram interesse e capacidade em diferentes áreas do conhecimento.
O desafio será assegurar que essas oportunidades alcancem jovens de diferentes origens e contribuam para o fortalecimento da ciência brasileira.
O Ciência sem Fronteiras poderá voltar com uma nova configuração. Seu alcance efetivo dependerá de como a proposta será financiada, executada e integrada às necessidades educacionais, científicas e produtivas do país.


