Convenção do PT confirma chapa com Geraldo Alckmin e apresenta educação, proteção aos idosos, soberania e tecnologia como temas da campanha
Da Redação
O Partido dos Trabalhadores oficializou neste domingo, 2 de agosto, em São Paulo, a candidatura do Presidente Lula à reeleição, novamente com Geraldo Alckmin, do PSB, como candidato a vice. O encontro reuniu dirigentes partidários, ministros, governadores, parlamentares, representantes de movimentos sociais e lideranças dos partidos que integram a aliança eleitoral.
As declarações reproduzidas nesta matéria foram feitas durante a transmissão da Convenção Nacional do PT, exibida integralmente pelo canal do partido no YouTube. No discurso mais longo do evento, o Presidente Lula apresentou a eleição como uma avaliação do atual governo, antecipou temas de sua campanha e afirmou que pretende usar um novo mandato para alterar a relação entre o Executivo e o Congresso Nacional.
Ao falar sobre o crescimento das emendas parlamentares e sobre propostas aprovadas pelo Legislativo, Lula declarou que pretende abrir uma discussão sobre os limites de atuação de cada Poder.
“Eu quero que vocês saibam que a minha quarta presidência é para mudar muita coisa nesse país. E vai ter briga, vai ter briga com emenda parlamentar, vai ter briga com o papel que hoje tem o Poder Legislativo”, afirmou.
Lula disse que o debate deverá ocorrer por meios institucionais e dependerá da eleição de uma bancada governista numerosa no Congresso.
“Vai ter que ter brigas democráticas para a gente dar uma mudança nesse país. Eu não quero ser mais o presidente só do Bolsa Família. É preciso mais”, declarou.
A fala introduziu um dos principais desafios políticos de uma eventual nova gestão: recuperar capacidade de decisão do Executivo em um cenário no qual deputados e senadores ampliaram o controle sobre parcelas do Orçamento da União.
Governo será apresentado como principal argumento eleitoral
Ao orientar candidatos, dirigentes e militantes, o Presidente Lula afirmou que a campanha não deve se apoiar em promessas desconectadas das ações realizadas desde 2023. Para ele, a continuidade do governo precisa ser defendida com base nos programas implantados e nos resultados obtidos.
“Nós não temos que contar uma mentira. Nós não temos que contar uma inverdade nessa campanha. Nós não temos que inventar nada para dizer para o povo”, afirmou.
Segundo Lula, um governo que busca a reeleição precisa apresentar o próprio legado antes de propor novos compromissos.
“Quem é governo não pode fazer um programa dizendo um monte de coisa que ainda não fez. Porque vão perguntar: se vai fazer, por que não fez? O que motiva um governo a ganhar as eleições é se o legado dele for merecedor de confiança e de respeito. Quem fez pode prometer mais. Quem não fez não tem o que prometer”, declarou.
O presidente também pediu que ministros, candidatos e apoiadores se refiram às realizações como resultado de uma administração coletiva.
“É importante não falar ‘o governo do Lula’. Fala ‘o nosso governo’, porque o governo não é só meu e eu sozinho não faria o que está sendo feito”, disse.
A estratégia anunciada procura transformar cada candidatura estadual e proporcional em uma extensão da campanha nacional. Lula cobrou que os apoiadores conheçam as políticas públicas, os investimentos e os dados da gestão para responder às críticas durante conversas cotidianas.
“O debate não é da televisão. O debate é com você. Quando estiver na feira, no escritório, no comércio, e uma pessoa falar mal, você tem que saber argumentar. O argumento perdeu força. A mentira ganhou força”, afirmou.
Educação aparece como compromisso de longo prazo
Entre as prioridades apresentadas, Lula deu destaque à educação. Ele defendeu uma política de financiamento que ultrapasse os limites de um mandato e permita investimentos contínuos durante pelo menos uma década.
“Eu sou candidato pela quarta vez para resolver definitivamente o papel da educação nesse país”, declarou.
O presidente afirmou que pretende discutir uma medida específica para garantir recursos e continuidade às políticas educacionais.
“Nós vamos ter que aprovar uma coisa especial para garantir que em dez anos a gente resolva o problema da educação nesse país. Porque sem educação a gente não chegará aonde nós temos o direito de chegar”, disse.
Lula relacionou educação, pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico. Segundo ele, o Brasil não conseguirá diminuir a dependência externa sem ampliar a formação de pesquisadores e especialistas.
“Se a tecnologia é importante, a gente tem que tomar a decisão de investir mais. Porque, se a gente não investir em pesquisa e em formar cientistas, a gente não vai chegar lá”, afirmou.
O presidente citou o Programa Pé de Meia, os institutos federais e o investimento nas universidades como exemplos de políticas que deverão ser ampliadas.
Geraldo Alckmin também concentrou parte de seu discurso na comparação entre o atual governo e a gestão anterior. O vice mencionou a expansão das creches, das escolas de tempo integral, dos institutos federais e do Pé de Meia.
“Os nossos adversários, na educação, só tinham homeschooling. Com o Presidente Lula, foi ampliação de creche, escola de tempo integral, institutos federais, Pé de Meia”, declarou.
Lula propõe programa nacional para idosos
A situação dos idosos apareceu como uma das novidades do discurso. Lula afirmou que pretende criar um programa nacional para pessoas idosas que ultrapasse o pagamento de benefícios previdenciários e ofereça atividades físicas, culturais, educativas e de convivência.
“Nós temos muitos velhos abandonados hoje, muitas pessoas que a família não quer porque têm algum tipo de doença. Se tiver Parkinson, Alzheimer ou qualquer coisa, as pessoas não querem. Aí o velhinho fica escondido numa sala, na frente de uma televisão”, afirmou.
O presidente disse que a proposta deverá oferecer espaços onde os idosos possam manter uma vida ativa.
“Nós precisamos criar um programa para o idoso, não para ele ficar trancado. Queremos que ele tenha um lugar em que possa nadar, possa dançar, possa ler, possa ter formação”, declarou.
Lula relacionou o tema à própria idade e disse que pretende enfrentar a velhice com atividade física e participação social.
“A Terra gira, os anos passam e o ano que vem eu já tenho 81. Com o que eu quero brigar? Eu quero brigar com a velhice. Por isso eu levanto às cinco e meia todo dia. Por isso eu faço perna, faço braço e ando uma hora”, disse.
Defesa, drones e soberania entram na campanha
Outro eixo desenvolvido por Lula foi a defesa nacional. O presidente pediu que setores da esquerda abandonem a resistência ao investimento nas Forças Armadas e na indústria de defesa.
“Eu quero pedir para a esquerda, para mulheres e homens, parar com essa bobagem de achar que a gente não tem que ter preocupação com a defesa”, afirmou.
Lula citou a extensão das fronteiras terrestres e marítimas do Brasil para defender a produção nacional de equipamentos militares e sistemas de vigilância.
“Esse país tem 16.800 quilômetros de fronteira seca. Esse país tem 8 mil quilômetros de fronteira marítima. Nós precisamos estar preparados para ninguém ousar se fazer de besta conosco”, declarou.
O presidente sustentou que a política de defesa deve ser acompanhada por investimento em pesquisa, inovação e produção industrial.
“Por que um país do tamanho do Brasil não tem uma fábrica de drones? Como é que a gente vai controlar 16 mil quilômetros de fronteira a pé?”, questionou.
Lula também defendeu que o país controle a exploração e a transformação de minerais estratégicos, como as terras raras, e invista na produção de baterias, equipamentos tecnológicos e componentes associados à transição energética.
“Nós temos que utilizar a nossa capacidade de investimento, de conhecimento científico e tecnológico para sermos donos de explorar, transformar e usar”, disse.
Falta de mulheres no roteiro provoca intervenção de Lula
Antes de iniciar o próprio discurso, Lula interrompeu a programação para criticar a ausência de mulheres entre as pessoas escaladas para falar no principal momento da convenção.
“Eu quero fazer uma crítica, porque não é possível que a gente tenha esquecido, no principal evento da nossa campanha, de colocar uma mulher para falar”, afirmou.
O presidente convidou Janja a se pronunciar em nome das participantes do Pacto Brasil contra o Feminicídio. A primeira dama reconheceu o problema e afirmou que as mulheres precisam reafirmar diariamente o direito de ocupar espaços políticos.
“É difícil porque a gente precisa estar todo dia se reafirmando, não é, mulherada? Todo dia”, disse.
Janja também destacou o trabalho de combate à violência contra as mulheres e afirmou que Lula levou o tema para encontros internacionais.
“Eu tenho muito orgulho de você ter abraçado uma causa pela qual nós, mulheres, já trabalhamos, lutamos e sofremos há muito tempo, que é o combate à violência contra as mulheres. Não só a questão do feminicídio, mas toda forma de violência contra as mulheres”, declarou.
Ao retomar a palavra, Lula afirmou que homens que agridem mulheres não devem apoiar sua candidatura.
“O cara vai ter que escolher: ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se bater na mulher, não precisa votar em mim. Pega a sua mão e vota em quem você quiser”, disse.
O presidente defendeu que as mulheres denunciem os agressores e afirmou que o governo ampliou a legislação e as medidas de proteção desde a criação do pacto contra o feminicídio.
“As mulheres não têm que ter medo de denunciar. Está crescendo o número de denúncias porque agora as mulheres têm garantia, estão denunciando e vão ter proteção”, declarou.
A intervenção expôs uma contradição interna do próprio ato. Embora a campanha tenha colocado o enfrentamento à violência de gênero entre suas bandeiras, a programação principal havia sido organizada sem reservar uma fala a uma mulher.
Haddad destaca disputa internacional e defesa da democracia
Escolhido para representar os candidatos aos governos estaduais, Fernando Haddad apresentou Lula como uma liderança necessária diante das guerras, da instabilidade internacional e do avanço da extrema direita.
“O mundo está muito turbulento. Hoje você tem guerras, você tem a ascensão da extrema direita”, afirmou.
Haddad disse que Lula possui capacidade de interlocução com diferentes governos e comparou o atual cenário internacional a um período de travessia política.
“Não tem ninguém no mundo hoje que consiga fazer isso melhor do que o Presidente Lula. As pessoas gostariam de ter um Lula à sua disposição. Só que o Lula é brasileiro”, declarou.
O candidato ao Governo de São Paulo também defendeu a aliança entre Lula e Alckmin. Segundo Haddad, a chapa formada em 2022 representou um compromisso com a democracia e com o respeito ao resultado das eleições.
“A ética com a verdade, o respeito ao resultado eleitoral, o desejo de sorte para quem ganhou a eleição e a colaboração com a construção de uma nação uniram Lula e Alckmin em 2022 e unem agora outra vez em 2026”, disse.
Alckmin reivindica resultados econômicos e industriais
Geraldo Alckmin concentrou sua fala em indicadores econômicos, na reforma tributária e na recuperação industrial. O vice afirmou que a estratégia apresentada pela chapa quatro anos antes foi cumprida com estabilidade, inclusão e sustentabilidade.
Segundo Alckmin, a indústria brasileira voltou a crescer entre 2023 e 2025 depois de um período de retração e fechamento de fábricas.
“De 2015 a 2022, a indústria brasileira regrediu, diminuiu 1,6%. Fechou a Ford na Bahia, a Mercedes em Iracemápolis, a Sony em Manaus e a Troller no Ceará. No governo do Presidente Lula, de 2023 a 2025, a indústria cresceu 3,2%”, afirmou.
Alckmin também defendeu a reforma tributária aprovada durante o atual governo.
“O que os nossos adversários queriam era criar mais um imposto, a CPMF, que encarecia o empréstimo e o crédito. O que o Presidente Lula fez foi uma reforma tributária que simplifica e traz eficiência econômica”, declarou.
Ao mencionar os ataques às urnas eletrônicas e a tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022, o vice afirmou que políticos que rejeitam o voto não deveriam disputar cargos eletivos.
“Quem não acredita no voto popular não devia nem ser candidato a presidente”, disse.
Campanha tenta ampliar diferença e vencer no primeiro turno
Benedita da Silva e Márcio França defenderam a mobilização dos movimentos sociais e dos partidos aliados desde o início da campanha.
Benedita apresentou a candidatura como uma representação de mulheres negras, moradores de favelas, trabalhadores da cultura, profissionais da comunicação e pessoas desempregadas.
“Nós, mulheres negras, queremos Lula de novo. Nós, favelados das periferias, queremos Lula de novo. Nós, desempregadas e desempregados, queremos Lula de novo”, declarou.
Márcio França pediu esforço para ampliar a votação da chapa e mencionou diretamente a possibilidade de uma vitória no primeiro turno.
“Aquela diferença pequenininha que a gente está tentando buscar pode gerar uma eleição de primeiro turno, o que facilitaria muito a nossa vida e mandaria um recado muito importante para o mundo”, afirmou.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, convocou os partidos e movimentos sociais a atuarem de forma coordenada nos estados. Ele afirmou que a eleição brasileira terá repercussão na América Latina e em outros países.
“A eleição no Brasil terá impacto no mundo. Terá impacto na América Latina e na América do Sul. Nós temos que ter essa clareza”, declarou.
O dirigente apresentou a disputa como uma escolha entre projetos divergentes sobre soberania, meio ambiente, direitos sociais e desenvolvimento econômico.
“É hora de unidade, de capacidade de organização e de luta para que a gente possa, com a vitória do Presidente Lula, construir um Brasil soberano”, disse.
Lula convoca mobilização fora dos grupos já organizados
No encerramento, Lula pediu que os apoiadores não restrinjam a campanha aos eleitores que já estão convencidos. Segundo ele, a vitória dependerá da capacidade de conversar com pessoas que não possuem preferência partidária consolidada.
“Tem cara que é bolsonarista porque é bolsonarista, mas tem um monte de gente que não é e que nós precisamos convencer. Para que serve a nossa boca, a nossa língua? Para que serve o dom da palavra? Não é para a gente criar slogan”, afirmou.
O presidente também demonstrou insatisfação com o afastamento do PT de práticas tradicionais de organização comunitária.
“Eu preferia o meu partido quando a gente tinha que vender uma camiseta para arrumar dinheiro para colocar gasolina”, disse.
Lula atribuiu suas vitórias eleitorais ao trabalho de base e pediu a retomada da presença permanente nos bairros, locais de trabalho, sindicatos, escolas e comunidades.
A chapa Lula e Alckmin chega à campanha defendendo a continuidade dos programas sociais e dos investimentos realizados desde 2023, mas o discurso da convenção indicou que o projeto eleitoral não pretende se limitar à preservação do atual governo. Lula prometeu mudanças na educação, na política para idosos, na defesa nacional, no desenvolvimento tecnológico e na relação entre os Poderes.
“Governar é decidir. E toda vez que você toma decisão, você tem que escolher um lado”, afirmou.
Ao concluir, o Presidente Lula estabeleceu como limite político impedir o retorno da extrema direita ao Governo Federal.
“Nós não temos o direito de permitir que a extrema direita volte a governar esse país”, declarou.
A convenção confirmou formalmente a chapa Lula e Alckmin para a eleição presidencial de 4 de outubro de 2026. O calendário oficial prevê que mais de 158 milhões de eleitores estejam aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados.

