Celso Amorim afirma que as relações entre Brasil e Argentina atravessam seu pior momento histórico, denuncia a quebra de protocolos diplomáticos pelo presidente argentino e manifesta preocupação com a aproximação militar de Buenos Aires aos Estados Unidos. Apesar das tensões, Brasília pretende preservar a cooperação econômica, científica e estratégica entre os dois países.
Da Redação
As relações entre Brasil e Argentina atravessam uma crise diplomática que ultrapassou as divergências ideológicas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei e passou a comprometer os canais políticos tradicionais entre os dois maiores países do Mercosul. Em entrevista publicada neste sábado (31) pela jornalista Janaína Figueiredo, do UOL, o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o relacionamento bilateral vive seu pior momento histórico. Segundo o diplomata, a deterioração resulta principalmente da postura adotada pelo governo argentino, que teria abandonado práticas elementares de respeito institucional entre Estados vizinhos.
A avaliação de Amorim ganhou especial significado depois da reeleição de Lula, no segundo turno presidencial realizado em 25 de outubro. De acordo com o assessor, Milei foi o único presidente sul-americano que não cumprimentou o brasileiro pela vitória. O silêncio contrastou com as manifestações de outros governos da região, inclusive daqueles politicamente identificados com a direita. Para o ex-chanceler, o episódio demonstra que a crise não pode ser explicada simplesmente pelas diferenças ideológicas entre Brasília e Buenos Aires, pois relações diplomáticas pressupõem reconhecimento institucional independentemente das preferências políticas dos governantes.
A ausência de congratulações ocorreu em um ambiente de hostilidade acumulada desde o início do governo Milei, aprofundada por ataques públicos dirigidos a Lula e a instituições brasileiras. A crise alcançou uma dimensão institucional em agosto, quando a representação diplomática brasileira em Buenos Aires foi rebaixada ao nível de encarregado de negócios. A medida, acompanhada por redução equivalente na representação argentina em Brasília, expressou o afastamento político entre os governos sem significar o rompimento formal das relações diplomáticas. Segundo Amorim, não existe expectativa de que a situação seja revertida no curto prazo, embora a normalização permaneça possível mediante o restabelecimento do respeito mútuo.
Ao comentar a perspectiva de uma aproximação entre os dois presidentes, Amorim reconheceu que governos com orientações políticas diferentes não precisam cultivar relações pessoais próximas. O problema, segundo ele, começa quando divergências passam a produzir ofensas ao chefe de Estado, questionamentos às instituições nacionais e atitudes incompatíveis com a convivência diplomática. O assessor ressaltou que a política externa brasileira não pretende transformar a controvérsia em uma sucessão de confrontos públicos. Sua orientação é preservar a capacidade de diálogo institucional e evitar que provocações pessoais determinem as decisões estratégicas do país.
A posição expressa pelo diplomata distingue o relacionamento entre governos dos vínculos permanentes entre as sociedades brasileira e argentina. Os dois países possuem uma história de integração econômica, aproximação política e cooperação científica construída ao longo de décadas. A transição das antigas rivalidades estratégicas para mecanismos de confiança mútua constituiu um dos fundamentos da integração sul-americana contemporânea. Desde os entendimentos estabelecidos entre José Sarney e Raúl Alfonsín, na década de 1980, Brasília e Buenos Aires desenvolveram instrumentos destinados a reduzir desconfianças históricas e estabelecer relações de cooperação em setores considerados sensíveis.
A criação do Mercosul, em 1991, representou uma etapa importante desse processo. O bloco consolidou relações comerciais, fortaleceu cadeias produtivas e estabeleceu mecanismos de negociação conjunta com parceiros internacionais. Brasil e Argentina passaram a compartilhar interesses industriais, agrícolas, energéticos e logísticos, embora suas economias mantenham diferenças estruturais e frequentemente enfrentem divergências sobre políticas comerciais. A indústria automobilística exemplifica essa interdependência: fábricas, fornecedores e mercados dos dois lados da fronteira participam de cadeias produtivas que não podem ser reorganizadas sem custos econômicos.
É por essa razão que Amorim insiste na preservação dos interesses argentinos nas negociações comerciais internacionais. O assessor afirmou que o governo brasileiro não recebeu reclamações de Buenos Aires sobre prejuízos provocados por sua atuação nessas negociações e reiterou a disposição de manter a cooperação bilateral. A declaração procura estabelecer uma distinção entre o conflito político com Milei e a continuidade das responsabilidades assumidas pelo Brasil em relação ao país vizinho. Na avaliação apresentada por Amorim, a preservação das relações econômicas e institucionais não depende de afinidade pessoal entre os presidentes.
Uma das áreas mencionadas pelo diplomata foi a cooperação nuclear, considerada um dos resultados mais importantes da aproximação entre os dois países. Brasil e Argentina construíram mecanismos conjuntos de verificação e transparência sobre seus programas nucleares, especialmente por meio da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares, a ABACC, criada em 1991. A instituição desempenha papel relevante na construção de confiança recíproca e na utilização pacífica da energia nuclear, demonstrando como antigos competidores estratégicos podem estabelecer estruturas permanentes de colaboração.
A continuidade desse patrimônio diplomático interessa aos dois países independentemente das mudanças de governo. A cooperação nuclear envolve conhecimento científico, formação de especialistas, desenvolvimento tecnológico e compromissos internacionais. Sua preservação depende de instituições capazes de resistir às oscilações das relações políticas. Ao destacar esse setor, Amorim sinalizou que a administração brasileira procura manter canais de colaboração em áreas nas quais a integração possui importância estratégica de longo prazo.
A crise bilateral, entretanto, apresenta uma dimensão que ultrapassa as relações comerciais e científicas. Amorim manifestou preocupação com iniciativas de aproximação militar entre a Argentina e os Estados Unidos, mencionando particularmente a possibilidade de instalação de uma base americana em território argentino e a participação do governo Milei no chamado Escudo das Américas. Embora tenha ressaltado que Buenos Aires possui plena autonomia para definir suas parcerias internacionais, o diplomata indicou que esses movimentos são acompanhados com atenção pelo governo brasileiro.
A preocupação está relacionada à configuração estratégica da América do Sul. A presença militar de potências externas, os acordos de defesa e os mecanismos de cooperação em segurança podem influenciar o equilíbrio regional e a autonomia das políticas nacionais. No caso brasileiro, o tema envolve também o Atlântico Sul, a proteção de infraestruturas estratégicas e as relações entre países vizinhos. Isso não significa que qualquer cooperação militar entre Argentina e Estados Unidos represente automaticamente uma ameaça ao Brasil, mas demonstra que decisões adotadas por um governo podem produzir efeitos sobre a percepção de segurança de outros integrantes da região.
O alinhamento internacional de Milei constitui uma das diferenças mais visíveis entre os dois governos. O presidente argentino mantém uma aproximação política e estratégica com Donald Trump, enquanto o governo Lula defende uma política externa de diversificação de parcerias, fortalecimento do multilateralismo e preservação da autonomia brasileira em suas relações internacionais. Essas orientações produzem divergências em temas como integração regional, mecanismos de segurança, comércio internacional e relações com outras grandes potências. A existência dessas diferenças, porém, não elimina a necessidade de cooperação entre países que compartilham uma extensa fronteira e interesses econômicos permanentes.
O quadro tornou-se ainda mais sensível em razão da crise política brasileira relacionada à saída do senador Flávio Bolsonaro do país após as eleições. A entrevista concedida por Amorim abordou questionamentos sobre o envolvimento atribuído ao governo argentino no deslocamento do parlamentar para os Estados Unidos, com passagem por território argentino. As circunstâncias e responsabilidades relacionadas ao episódio exigem apuração específica, não sendo possível concluir, apenas pela existência dessas alegações, que autoridades argentinas tenham praticado irregularidades. O assessor preferiu concentrar sua manifestação na posição diplomática do Brasil e na necessidade de evitar uma escalada de declarações públicas.
Nesse contexto, Amorim também explicou que a resposta de Lula ao reconhecimento do resultado eleitoral pelo ex-presidente argentino Mauricio Macri não representou uma tentativa de explorar politicamente as divisões internas da Argentina. Segundo o diplomata, o gesto procurou demonstrar que o governo brasileiro está disposto a manter relações respeitosas com representantes de diferentes orientações ideológicas. A distinção reforça uma característica importante das relações internacionais: Estados precisam preservar canais de interlocução que ultrapassem a duração dos mandatos e as preferências partidárias de seus governantes.
As tensões entre Brasília e Buenos Aires poderão aparecer nas conversas diplomáticas realizadas durante a reunião de ministros das Relações Exteriores do G20, em Atlanta, nos Estados Unidos. O encontro reúne o chanceler brasileiro Mauro Vieira, o ministro argentino Pablo Quirno e o secretário de Estado americano Marco Rubio. Amorim afirmou desconhecer qualquer instrução específica para que Vieira aborde a crise bilateral, indicando que uma eventual conversa dependerá das circunstâncias e da avaliação do próprio ministro. A ausência de uma orientação pública para promover o encontro demonstra a cautela brasileira diante de uma relação politicamente desgastada.
A situação expõe os limites de uma integração regional excessivamente dependente da convergência entre lideranças presidenciais. Brasil e Argentina possuem interesses econômicos e estratégicos compartilhados que sobrevivem às mudanças eleitorais, mas a execução de projetos conjuntos exige confiança política mínima e funcionamento regular dos canais diplomáticos. Quando esses mecanismos se enfraquecem, decisões sobre comércio, infraestrutura, energia e investimentos podem se tornar mais difíceis, mesmo que não exista uma ruptura formal dos compromissos anteriormente estabelecidos.
A crise também demonstra a importância das instituições permanentes de integração. O Mercosul, os organismos de cooperação científica, as representações diplomáticas e os acordos bilaterais constituem instrumentos destinados justamente a administrar divergências entre governos. Sua função não é eliminar conflitos políticos, mas impedir que eles inviabilizem a colaboração em assuntos de interesse comum. A capacidade dessas estruturas de continuar funcionando será importante para avaliar as consequências práticas do afastamento entre Lula e Milei.
Para as populações brasileira e argentina, a manutenção dessa cooperação possui implicações concretas. Empresas dependem de mercados integrados, trabalhadores participam de cadeias produtivas transfronteiriças e comunidades de regiões fronteiriças utilizam serviços e infraestruturas conectados. Universidades, centros de pesquisa e instituições culturais também mantêm relações consolidadas que não deveriam ser interrompidas por controvérsias presidenciais. A deterioração diplomática pode criar obstáculos adicionais a essas atividades, embora seus efeitos precisem ser examinados em cada setor.
Ao afirmar que o Brasil não pretende responder às provocações de Milei por meio de confrontos públicos, Amorim apresentou uma orientação diplomática baseada na manutenção dos canais institucionais e na separação entre divergências políticas e interesses nacionais. A posição não significa ausência de críticas ao governo argentino. Pelo contrário, o assessor expressou discordâncias explícitas sobre a conduta do presidente vizinho, o tratamento dispensado às autoridades brasileiras e determinadas escolhas estratégicas de Buenos Aires. O ponto central é que essas divergências, segundo ele, não devem eliminar as possibilidades de cooperação.
O futuro imediato das relações bilaterais permanece indefinido. Não há indicação de um encontro presidencial para superar o impasse, tampouco previsão de restabelecimento das representações diplomáticas ao nível anterior. A realização de contatos ministeriais ou técnicos poderá contribuir para manter a comunicação, mas uma normalização política dependerá de decisões dos dois governos. A avaliação de Amorim demonstra que, para Brasília, o reconhecimento institucional e o respeito recíproco constituem condições necessárias para essa aproximação.
A crise entre Brasil e Argentina evidencia a tensão entre a política dos governos e os interesses permanentes dos Estados. Enquanto Celso Amorim atribui à postura de Javier Milei a deterioração do relacionamento bilateral, a continuidade do comércio, da integração produtiva e da cooperação nuclear demonstra a existência de vínculos que ultrapassam os mandatos presidenciais. Preservar esses mecanismos, mesmo em um ambiente de divergências profundas, será uma das questões centrais da relação entre os dois países nos próximos anos.


