Da Redação
Dados do Ministério da Saúde mostram melhora expressiva dos indicadores entre 2023 e 2026: mortalidade geral recua 29,5%, mortes por infecção respiratória caem 40,8% e vacinação cresce quase 80%; resultados revelam avanço da reconstrução da assistência, embora crise humanitária ainda exija ação permanente do Estado
Três anos depois de o Brasil encontrar a Terra Indígena Yanomami mergulhada em uma das mais graves crises humanitárias de sua história recente, os principais indicadores de saúde começam a mostrar uma mudança consistente de cenário. As mortes por desnutrição caíram 75,7% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023, enquanto os óbitos provocados por malária foram zerados nos primeiros seis meses deste ano. Os dados são do Ministério da Saúde e foram divulgados neste sábado, 22 de agosto.
O resultado é especialmente significativo porque 2023 foi justamente o ano em que o governo federal decretou emergência em saúde pública no território, após encontrar comunidades atingidas simultaneamente por fome, malária, desnutrição infantil, destruição ambiental, invasão garimpeira e precarização profunda da estrutura de atendimento.
Os novos números não significam que a tragédia Yanomami tenha terminado. A situação permanece complexa e exige presença permanente do Estado. Mas permitem afirmar algo importante: quando se comparam períodos equivalentes, os indicadores mais recentes mostram uma redução substancial das mortes associadas a algumas das principais causas da emergência sanitária.
Além da queda de 75,7% nos óbitos por desnutrição e da ausência de mortes por malária no primeiro semestre, houve redução de 40,8% nas mortes provocadas por infecções respiratórias agudas. Considerando todas as causas, os óbitos passaram de 224 entre janeiro e junho de 2023 para 158 no mesmo período de 2026, uma diminuição de 29,5%.
É uma diferença de 66 vidas em apenas seis meses.
Os números ganham ainda mais importância porque atingem justamente doenças intimamente relacionadas às condições materiais de sobrevivência das comunidades. Desnutrição, malária e infecções respiratórias não podem ser compreendidas isoladamente: elas interagem com disponibilidade de alimentos, condições ambientais, acesso a medicamentos, presença das equipes de saúde, capacidade de diagnóstico e transporte de pacientes em um território gigantesco e de difícil acesso.
Vacinação cresce quase 80%
Outro indicador ajuda a dimensionar a reconstrução da presença sanitária no território.
No primeiro trimestre de 2023 haviam sido aplicadas 11.273 doses de vacinas. No mesmo período de 2026 foram 20.267, um crescimento de 79,8%.
Não se trata simplesmente de transportar vacinas para Roraima e Amazonas. A Terra Indígena Yanomami possui comunidades dispersas por uma área imensa, muitas delas acessíveis apenas por aeronaves, rios ou longos deslocamentos. Ampliar cobertura significa reconstruir logística, equipes, cadeia de conservação dos imunizantes, capacidade de deslocamento e contato regular com comunidades que passaram anos convivendo com enorme precariedade assistencial.
A estrutura humana também foi ampliada. Segundo os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o contingente de profissionais atuando no território passou de aproximadamente 690 em 2023 para 2.100 em 2025 — mais de três vezes o número existente no início da emergência. Atualmente funcionam 37 polos-base, 40 Unidades Básicas de Saúde e o Centro de Referência de Surucucu, destinado principalmente ao atendimento dos casos mais graves.
Essa expansão ajuda a explicar por que os resultados não apareceram de uma vez.
A reconstrução foi progressiva.
Dados oficiais anteriores já mostravam essa trajetória. No fechamento de 2025, em comparação com 2023, as mortes por desnutrição haviam diminuído 53,2%, enquanto os óbitos por malária tinham recuado 80,8%. Agora, comparando especificamente os primeiros semestres de 2023 e 2026, a queda das mortes por desnutrição alcança 75,7% e não houve óbito por malária.
Combate à fome exigiu estrutura especializada
A desnutrição sempre foi um dos símbolos mais dramáticos da emergência Yanomami. As imagens de crianças severamente abaixo do peso chocaram o Brasil quando a dimensão da crise veio à tona no início de 2023.
O enfrentamento do problema exigiu mais do que simplesmente distribuir alimentos.
Uma das medidas adotadas pelo Ministério da Saúde foi a criação, ainda em abril de 2023, de Centros de Reabilitação Nutricional em Surucucu, Auaris e na Casa de Saúde Indígena Yanomami, em Boa Vista. Esses centros permitiram introduzir fórmulas terapêuticas específicas, como F75 e F100, utilizadas nas etapas de tratamento da desnutrição grave.
É justamente a combinação entre atendimento emergencial e reconstrução de uma estrutura permanente que precisa ser observada para compreender os resultados.
O desafio nunca foi apenas salvar uma criança já em situação crítica. É impedir que outra criança chegue à mesma situação.
Isso envolve vigilância nutricional, atenção primária, segurança alimentar, vacinação, combate às doenças infecciosas e capacidade de retirar rapidamente pacientes graves das comunidades mais isoladas.
Garimpo ilegal estava no coração da destruição
A crise sanitária Yanomami também não pode ser separada da invasão garimpeira.
O avanço do garimpo ilegal destruiu áreas de floresta, contaminou rios, comprometeu fontes tradicionais de alimentação, ampliou a circulação de doenças e introduziu violência e profundas rupturas sociais dentro do território.
Por isso, tratar a emergência exclusivamente como um problema hospitalar seria insuficiente.
Não adianta ampliar atendimento médico enquanto os mecanismos que produzem adoecimento continuam funcionando.
A resposta federal precisou envolver simultaneamente saúde, segurança, proteção territorial, combate ao garimpo, assistência alimentar e recuperação das estruturas públicas. Essa característica ajuda a explicar tanto a dificuldade da operação quanto o tempo necessário para que seus efeitos aparecessem de maneira mais clara nos indicadores.
Os números também entraram na disputa eleitoral
A situação Yanomami voltou ao centro da disputa política justamente nesta semana.
Reportagens destacaram que o número acumulado de mortes notificadas entre 2023 e 2025 superou o registrado em determinados recortes do governo Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro utilizou esses números para atacar Lula e chegou a perguntar nas redes sociais se o atual presidente poderia ser chamado de “genocida”.
A comparação exige cautela metodológica.
Os próprios registros oficiais do Ministério da Saúde apontam que, entre 2019 e 2022, ocorreu uma deterioração da assistência no território que comprometeu também os sistemas de vigilância e produziu subnotificação de adoecimentos e mortes. Isso significa que simplesmente somar notificações de períodos diferentes, sem considerar mudanças na capacidade de localizar pacientes, realizar atendimento, investigar mortes e registrar informações, pode produzir conclusões enganosas.
Isso tampouco significa que todas as mortes ocorridas desde 2023 possam ser descartadas como herança automática da administração anterior. Cada óbito importa e a responsabilidade do Estado permanece durante todo o período.
O indicador mais adequado para avaliar a evolução recente é observar períodos comparáveis e causas específicas.
E é justamente aí que os dados de 2026 são particularmente relevantes.
Entre os primeiros semestres de 2023 e 2026, as mortes totais diminuíram 29,5%; as provocadas por desnutrição, 75,7%; as relacionadas às infecções respiratórias agudas, 40,8%; e as mortes por malária chegaram a zero.
Esses números não apagam a tragédia.
Mostram sua trajetória.
A recuperação começou antes de 2026
Também existe uma série histórica que ajuda a afastar a interpretação de que os números atuais seriam um fenômeno isolado.
Dados consolidados pelo Ministério da Saúde mostram que, entre 2023 e 2024, os óbitos por infecção respiratória aguda passaram de 90 para 54, redução de 40%. As mortes por desnutrição diminuíram de 47 para 35 e as provocadas por malária, de 26 para 16.
Entre 2024 e 2025 houve uma piora nas infecções respiratórias, que voltaram a subir para 75 mortes. Por outro lado, a desnutrição continuou recuando, de 35 para 22 óbitos, e a malária caiu de 16 para apenas cinco.
No acumulado de 2023 a 2025, portanto, os óbitos por desnutrição haviam diminuído 53,2% e os provocados por malária, 80,8%.
A série mostra algo fundamental: recuperar um território submetido durante anos a uma crise sanitária, ambiental e social não produz uma linha perfeitamente descendente em todos os indicadores. Existem avanços, retrocessos localizados e oscilações epidemiológicas.
É exatamente por isso que políticas públicas precisam ser avaliadas por séries consistentes e não por um único número escolhido isoladamente.
Uma questão de soberania brasileira
Existe ainda uma dimensão mais profunda na reconstrução da Terra Yanomami.
Proteger os povos indígenas e garantir presença efetiva do Estado brasileiro na Amazônia é também uma questão de soberania nacional.
Territórios abandonados pelo poder público não permanecem vazios. Eles são ocupados por economias ilegais, redes criminosas, garimpeiros, traficantes, contrabandistas e estruturas clandestinas capazes de controlar rotas, recursos minerais e populações.
A presença do SUS, da Funai, das forças de segurança e das demais instituições brasileiras nesses espaços não enfraquece a soberania nacional. Faz exatamente o contrário: materializa a soberania onde ela precisa existir concretamente.
E há uma diferença fundamental entre soberania territorial e mera presença militar.
Um Estado soberano é aquele capaz de proteger sua população, garantir direitos, controlar atividades econômicas ilegais, preservar recursos estratégicos e impedir que organizações criminosas substituam as instituições públicas.
Na Amazônia, essas dimensões são inseparáveis.
O desafio agora é transformar emergência em política permanente
A queda das mortes é uma vitória importante, mas seria um erro interpretar os números como autorização para desmontar a estrutura criada durante a emergência.
O desafio agora é exatamente o inverso.
É transformar aquilo que começou como resposta extraordinária numa presença pública permanente e sustentável.
A história da Terra Yanomami mostrou o preço do abandono. Quando assistência médica desaparece, unidades deixam de funcionar, garimpeiros ocupam rios e pistas clandestinas proliferam, a deterioração pode acontecer rapidamente. Reconstruir depois custa muito mais — em dinheiro público e, sobretudo, em vidas humanas.
Por isso, o resultado de 2026 precisa ser compreendido não como ponto final, mas como demonstração de que políticas públicas conseguem alterar uma realidade aparentemente irreversível.
Em janeiro de 2023, o Brasil encontrou crianças Yanomami em estado gravíssimo de desnutrição e comunidades submetidas simultaneamente à fome, doença, violência e invasão territorial.
Três anos e meio depois, as mortes por desnutrição no primeiro semestre estão 75,7% abaixo daquele período; a mortalidade por infecção respiratória aguda caiu 40,8%; a malária não produziu nenhum óbito nos seis primeiros meses do ano; a vacinação cresceu quase 80%; e a mortalidade geral caiu 29,5%.
Não são números capazes de devolver as vidas perdidas.
Também não autorizam triunfalismo diante de uma população que continua enfrentando enormes vulnerabilidades.
Mas demonstram algo que a própria tragédia Yanomami tornou impossível ignorar: abandono mata, presença pública salva vidas e a proteção da Amazônia começa pela proteção das pessoas que vivem nela.
A reconstrução ainda não terminou. Mas, pela primeira vez, uma comparação ampla dos indicadores permite enxergar com clareza a distância percorrida desde o pior momento da emergência.




