Entregadores de aplicativos percorreram vias centrais da capital em defesa da democracia e de direitos trabalhistas; mobilização também reivindicou remuneração mínima por corrida, transparência nos algoritmos e melhores condições de trabalho
Da Redação
Motoboys e entregadores de aplicativos realizaram na manhã de quarta-feira (21) uma motociata em São Paulo em apoio à reeleição do Presidente Lula. A manifestação reuniu trabalhadores e movimentos populares, com concentração na Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, e percurso por avenidas e ruas centrais até a Praça Franklin Roosevelt.
A mobilização passou pelas avenidas Pacaembu, Heitor Penteado e Paulista, além da rua Augusta. Os participantes utilizaram motocicletas de trabalho, mochilas de entrega, bandeiras e adesivos políticos para defender a democracia e expressar oposição à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Organizada por entidades ligadas aos entregadores e por movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e a Frente Povo Sem Medo, a iniciativa também procurou dar visibilidade às reivindicações de uma categoria marcada pela informalidade, pela dependência das plataformas digitais e pela falta de canais efetivos de negociação com as empresas.
Motociata ressignifica símbolo político
O formato da manifestação foi escolhido também pelo significado que as motociatas adquiriram na política brasileira. Associadas às mobilizações de Jair Bolsonaro nas eleições anteriores, elas foram retomadas pelos entregadores como forma de demonstrar que trabalhadores de aplicativo também ocupam esse espaço de mobilização política.
JR Freitas, uma das lideranças do movimento e integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos, afirmou que a iniciativa busca contestar a ideia de que os motociclistas formam um grupo politicamente homogêneo. Para ele, a presença de entregadores nas ruas permite destacar a realidade de quem utiliza a moto como instrumento de trabalho e depende das entregas para garantir renda.
Os participantes também exibiram mensagens críticas a Flávio Bolsonaro e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A manifestação relacionou a disputa eleitoral às propostas para o mercado de trabalho e às condições enfrentadas por quem trabalha por meio de aplicativos.
Entregadores rejeitam negociação individual com plataformas e cobram garantias
Os organizadores afirmam que a categoria precisa de canais efetivos de negociação com as empresas de aplicativos. JR Freitas criticou a proposta de permitir que trabalhadores negociem individualmente com as plataformas, argumentando que esse modelo não resolve problemas como bloqueios de contas, redução das taxas e ausência de transparência nas regras de distribuição das entregas.
“A livre negociação com as empresas de aplicativo já existe e não nos trouxe nada”, afirmou Freitas, ao defender mecanismos coletivos de representação e garantias mínimas para os profissionais.
Entre as reivindicações apresentadas estão uma tarifa mínima de R$ 10 por entrega, adicional de R$ 2,50 por quilômetro rodado, transparência nos algoritmos utilizados pelas plataformas, pontos de apoio para os trabalhadores e acesso à proteção previdenciária e à saúde. Os valores e as propostas fazem parte da pauta defendida pelas organizações da categoria.
Os entregadores também demonstraram preocupação com a proposta de Flávio Bolsonaro de ampliar o trabalho remunerado por hora. Na avaliação das lideranças presentes, o modelo pode aumentar a flexibilidade sem resolver a falta de garantias sobre remuneração e condições de trabalho. A crítica foi apresentada pelos participantes do ato e reflete a posição das entidades organizadoras.
Apoio eleitoral acompanhado de cobrança ao governo
Embora a manifestação tenha defendido a reeleição do Presidente Lula, os organizadores também apontaram limites na política do atual governo para os trabalhadores de aplicativos. Freitas afirmou que as demandas da categoria ainda não foram plenamente atendidas e cobrou avanços na regulamentação do setor.
O governo federal já apresentou propostas para estabelecer regras para o trabalho por aplicativos, incluindo mecanismos de remuneração mínima, mas a discussão não avançou até a aprovação de uma legislação abrangente no Congresso Nacional.
A entregadora Cristany Indiara, de 23 anos, declarou apoio a Lula por considerar importantes suas posições em defesa dos trabalhadores e das minorias. Outros participantes defenderam a continuidade do diálogo com o governo federal, acompanhada da pressão para que as reivindicações sejam transformadas em medidas concretas.
A motociata ocorreu cinco dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Para os organizadores, a mobilização buscou tornar visível a participação política dos entregadores e reforçar que a categoria pretende acompanhar as decisões do próximo governo, independentemente do resultado eleitoral.

