Adriana Almeida e Madalena Quilombola defendem educação pública, concursos, participação política e maior presença de mulheres negras nos parlamentos
A ampliação da presença de mulheres negras nos espaços de decisão, a defesa da educação pública e a valorização dos servidores estiveram no centro da edição do programa Eleições 2026 em Debate realizada na sexta-feira, 28 de agosto. Apresentado por Sousa Júnior, o programa recebeu Adriana Almeida, professora e vereadora de Fortaleza pelo PT, e Madalena Quilombola, agricultora, educadora e liderança comunitária de Caucaia.
As declarações foram concedidas ao Eleições 2026 em Debate, uma realização da Atitude Popular e do Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará, com apoio do Sindipetro CE/PI. Durante a entrevista, as convidadas apresentaram suas trajetórias, propostas eleitorais e avaliações sobre a disputa política no Ceará e no Brasil.
Professora das redes municipal de Fortaleza e estadual do Ceará, Adriana Almeida afirmou que decidiu disputar uma vaga na Assembleia Legislativa para ampliar, em todo o estado, pautas que já integram seu trabalho na Câmara Municipal. Ela citou como exemplo a valorização das profissionais da educação infantil e a defesa de melhores condições de trabalho nas escolas públicas.
“Tenho muito orgulho de ser reconhecida por muitas pessoas como a vereadora da educação em Fortaleza, porque nós temos pautado bandeiras importantes da educação no município”, declarou.
Mestra em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Federal do Ceará, Adriana passou por diferentes funções no ambiente escolar. Além de professora, foi coordenadora, diretora de escola durante dez anos, integrante de conselho escolar e representante sindical. Segundo ela, essa experiência permite conhecer de perto as dificuldades enfrentadas pelos profissionais da área.
“A educação é a nossa prioridade, mas nós também temos uma luta muito grande das mulheres”, acrescentou. Na Câmara Municipal, Adriana ocupa a função de procuradora especial da Mulher e atua em pautas relacionadas ao enfrentamento da violência e do feminicídio.
Representatividade com compromisso político
Ao abordar a participação feminina nos parlamentos, Adriana ressaltou que a presença de mulheres precisa estar associada à defesa dos direitos sociais. A vereadora apresentou uma das frases centrais da entrevista: “Não basta ser mulher, tem que ser mulher de luta”.
Segundo a candidata, sua trajetória política não foi construída por vínculos familiares com ocupantes de cargos públicos. Ela recordou sua participação no movimento estudantil, nos centros acadêmicos, no Diretório Central dos Estudantes, na União Nacional dos Estudantes e, posteriormente, no movimento sindical.
“Eu não venho de família de políticos. Toda a minha trajetória vem do movimento de luta”, afirmou.
Adriana também destacou que a Assembleia Legislativa do Ceará ainda não elegeu uma deputada negra em seus 191 anos de existência. Mulheres negras já ocuparam cadeiras como suplentes, mas nenhuma chegou ao cargo por eleição direta, conforme observou a entrevistada.
“Uma das bandeiras que a gente coloca é a questão de termos uma primeira deputada negra eleita na Assembleia Legislativa”, disse. Para ela, essa presença deve estar vinculada à defesa dos trabalhadores, dos servidores públicos, das mulheres e da população negra.
Educação e participação política
A formação política dos estudantes também foi discutida durante o programa. Adriana criticou a perseguição a professores promovida por grupos de extrema direita e rejeitou a tentativa de apresentar o debate sobre cidadania como uma forma de doutrinação partidária.
“A educação pode dar essa formação, uma informação correta, porque hoje em dia a gente sabe que tem muitas notícias falsas, mostrar a verdade dos fatos para que a juventude possa compreender de que lado ela precisa caminhar para avançar nas suas conquistas e nos seus direitos”, declarou.
A professora defendeu que os educadores tenham liberdade para trabalhar sem intimidações. Em sua avaliação, apresentar aos estudantes informações sobre direitos, democracia e participação social não significa direcionar o voto ou impor determinada escolha partidária.
“Isso não é doutrinar, isso é mostrar os caminhos. E aí a juventude segue o caminho que achar que é o mais correto”, afirmou.
Adriana também incentivou os jovens a participar de grêmios estudantis, sindicatos, movimentos sociais, organizações políticas e iniciativas vinculadas às comunidades religiosas. Para ela, a escola tem responsabilidade na formação acadêmica e profissional, mas também pode contribuir para que os estudantes compreendam o papel que desempenham na sociedade.
“Política se faz de forma séria, consciente e livre. A educação contribui muito para isso”, resumiu.
Concursos públicos e liberdade dos servidores
Outro ponto defendido pela vereadora foi a realização de concursos públicos. Adriana afirmou que o crescimento da terceirização e dos contratos temporários deixa os trabalhadores mais sujeitos a pressões políticas e administrativas.
“Não dá mais para a gente ter o serviço público cheio de pessoas terceirizadas. Nada contra elas, pelo contrário, elas estão ali trabalhando e precisam do seu dinheiro, mas a gente precisa cada vez mais ampliar os concursos públicos”, disse.
Segundo Adriana, a estabilidade assegurada pelo concurso permite que o servidor exerça suas funções em atendimento ao interesse público, participe de sindicatos e movimentos reivindicatórios e manifeste suas posições sem depender da indicação de um agente político.
A professora mencionou especialmente a situação das redes de ensino, nas quais há elevada presença de docentes temporários e substitutos. Sua proposta é ampliar o número de profissionais efetivos, incluindo professores, secretários escolares e outros trabalhadores da educação.
“Uma das nossas plataformas de defesa é a realização de concurso público”, afirmou.
A trajetória de Madalena Quilombola
Madalena Quilombola apresentou-se como mulher negra, agricultora, educadora e liderança do Quilombo Boqueirão da Arara, localizado em Caucaia. Com atuação de mais de 16 anos na organização comunitária, ela afirmou que sua candidatura à Câmara dos Deputados tem como objetivo levar ao Congresso as demandas das comunidades quilombolas e de outros segmentos da classe trabalhadora.
“É uma luta de pertencimento, é uma luta de resistência”, declarou. “A questão da minha candidatura foi para realmente levar a voz do povo para o Congresso, as demandas de que nosso povo necessita.”
A liderança explicou que Caucaia reúne comunidades quilombolas, povos indígenas, comunidades de terreiro e grupos ciganos. Também lembrou a diversidade territorial do município, composto por áreas litorâneas, serranas e sertanejas.
“Caucaia é só riqueza”, afirmou Madalena ao falar sobre a composição cultural e ambiental do município.
Segundo ela, uma representação no Congresso poderia ampliar a defesa dos direitos das comunidades tradicionais, da agricultura familiar, dos trabalhadores do serviço público e dos jovens que enfrentam dificuldades para encontrar oportunidades profissionais.
Entre suas propostas, Madalena mencionou a criação de cotas em empresas públicas e privadas. A medida, segundo a candidata, poderia ampliar o acesso ao trabalho para integrantes de comunidades tradicionais e grupos que ainda encontram obstáculos decorrentes da discriminação.
Juventude, identidade e oportunidades
Madalena manifestou preocupação com o afastamento dos jovens da política e com a falta de confiança nas próprias perspectivas de futuro. Para ela, políticas públicas precisam permitir que a juventude reconheça sua identidade e tenha acesso ao trabalho.
“Hoje os jovens não estão mais acreditando no próprio futuro”, afirmou. A candidata defendeu ações voltadas à formação profissional e ao empreendedorismo, sem que os jovens precisem abandonar suas origens culturais.
A liderança também relatou sua experiência como técnica da Secretaria Municipal de Educação de Caucaia. Durante esse período, participou da criação de processos específicos para ampliar o ingresso de quilombolas, indígenas e moradores do campo na educação pública.
“Eu consegui o primeiro concurso para os nossos quilombolas e pessoas do campo. Os indígenas também tiveram”, disse. Conforme Madalena, o processo resultou na contratação de pedagogos para trabalhar no município e foi acompanhado pela criação de uma seleção voltada a professores e profissionais de apoio quilombolas.
Crítica ao preconceito contra povos indígenas
Ao comentar uma declaração de Flávio Bolsonaro sobre indígenas, apresentada no programa como uma comparação de caráter depreciativo, Madalena afirmou que a fala demonstra desconhecimento sobre os povos originários e tradicionais.
“É falta realmente de conhecimento e de cultura. Quem é pobre na cultura não entende uma etnia”, declarou.
Ela ressaltou que os povos indígenas são originários do território brasileiro e que comunidades quilombolas, indígenas, ciganas e de terreiro continuam presentes nos municípios, preservando identidades, conhecimentos e formas próprias de organização.
“O Brasil precisa de uma reeducação cultural”, defendeu Madalena. Para ela, um candidato que trata populações indígenas de maneira depreciativa não está preparado para representar a diversidade brasileira.
Disputa eleitoral e alianças no Ceará
A eleição estadual também ocupou parte importante da conversa. Adriana Almeida defendeu a reeleição do governador Elmano de Freitas e criticou a aproximação de Ciro Gomes com o bolsonarismo. Na avaliação da vereadora, o eleitorado precisa considerar as alianças construídas por cada candidatura e os efeitos delas sobre as políticas públicas.
“Não adianta o Ciro querer se descolar do Bolsonaro, do Flávio Bolsonaro. Nós sabemos que a turma dele é essa”, afirmou Adriana.
Ela associou o bolsonarismo à perseguição de professores, ao enfraquecimento do serviço público e à retirada de direitos trabalhistas. Também criticou declarações de Ciro Gomes contra mulheres do PT e recordou episódios de confronto com servidores e manifestantes.
Adriana ressaltou que o apoio à atual composição eleitoral não impede críticas ao governo nem a defesa de mudanças em políticas específicas. Para ela, contudo, divergências precisam ser avaliadas diante das diferenças entre projetos políticos que disputam o governo estadual.
A vereadora também declarou apoio à candidatura de Luizianne Lins ao Senado. Segundo Adriana, a presença de uma senadora vinculada às pautas progressistas ajudaria o governo do Presidente Lula em votações como a proposta de redução da jornada de trabalho no modelo da escala 6 por 1.
“A gente precisa da Luizianne lá para fazer esse enfrentamento e estar do lado do nosso Presidente Lula”, disse.
Campanha baseada no diálogo
Ao tratar da compra de votos e das pressões exercidas sobre eleitores, Adriana defendeu uma campanha apoiada no contato direto com a população. Ela relatou que tem participado de atividades em escolas, universidades, terminais de ônibus, feiras livres e semáforos.
“A nossa forma de fazer campanha é no diálogo, para as pessoas terem a compreensão de que política é algo sério”, afirmou.
Sousa Júnior destacou que o voto secreto existe para proteger a liberdade de escolha. As entrevistadas também criticaram ameaças de demissão ou retaliações dirigidas a trabalhadores que não apoiem candidatos indicados por empregadores, gestores ou lideranças políticas.
Madalena acrescentou que esse tipo de pressão também pode surgir dentro de organizações e movimentos sociais. “Se não votar no que eles querem, realmente as pessoas são perseguidas”, declarou.
Ao final do programa, Adriana Almeida pediu apoio a uma representação parlamentar ligada à educação e à realidade cotidiana das escolas públicas. “Venham do chão da escola, compreendam as dores de quem está ali na educação, na ponta”, afirmou.
Madalena Quilombola pediu que os eleitores conheçam sua trajetória antes de decidir o voto. A candidata recordou as perdas pessoais que marcaram sua vida, incluindo o assassinato de dois filhos, e afirmou que pretende representar no Congresso as comunidades tradicionais e as famílias atingidas pela violência.
“Não é fácil ser mulher e estar nessa luta, querendo levar a voz do povo para o Congresso”, concluiu.
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