Por Sylvio Sousa
Sylvio Souza se define como um observador do cenário geopolítico mundial vivendo nos EUA
A resposta ao tarifaço de Trump não é tarifa. É emancipação. Donald Trump fez o que nenhum manual de economia recomendaria: sobretaxou em 50% o único grande parceiro comercial com quem os Estados Unidos ganham dinheiro. Em 2024, o Brasil comprou dos americanos mais do que vendeu a eles.
Em 2025, depois do tarifaço, esse déficit brasileiro explodiu para US$ 7,5 bilhões. E a carta que anunciou a punição nem fingia falar de comércio: falava de Jair Bolsonaro, do Supremo Tribunal Federal, dos assuntos internos de um país soberano. Que fique claro desde já, portanto, o que o tarifaço é — e o que ele não é. Não é política comercial. É instrumento de tutela. É a versão século XXI de uma prática que os Estados Unidos exercem sobre o Brasil há mais de setenta anos, com esquadras, embargos, dólares da CIA e, agora, alíquotas.
E é exatamente por isso que a resposta não pode ser o olho por olho. A armadilha do revide Retaliar tarifa com tarifa é jogar no tabuleiro do adversário, com as peças dele e as regras dele. Sobretaxar produtos americanos encarece bens que o Brasil ainda não produz — máquinas, equipamentos, insumos de alta tecnologia —, alimenta a inflação doméstica e entrega a Trump, de bandeja, o pretexto para a escalada que ele mesmo prometeu: quem retaliar, avisou, será retaliado em dobro. O olho por olho, aqui, deixa um país cego e o outro apenas irritado. Há uma resposta melhor.
Ela não é nova, não é teórica e já funcionou uma vez — em condições muito piores que as atuais. Chama-se substituição de importações. Mas para entender por que ela é a resposta certa, é preciso primeiro entender o tamanho e a idade do problema. Setenta anos de tutela documentada Não se trata de teoria conspiratória. Trata-se de arquivo. Vargas. Quando o Brasil ousou criar a Petrobras, em 1953, enfrentou a pressão aberta das grandes petroleiras internacionais e de Washington, que patrocinavam os “entreguistas” contra a campanha “O petróleo é nosso”.
Um ano depois, cercado por uma conspiração civil-militar alimentada por essa mesma engrenagem, Getúlio Vargas estava morto — e já em 1963 se denunciava, da tribuna da Câmara, que os inimigos do monopólio do petróleo o haviam empurrado ao suicídio. JK. Juscelino tomou posse por milagre — foi preciso o contragolpe do general Lott, em novembro de 1955, para garantir a posse do presidente eleito. Ainda assim enfrentou dois levantes militares, Jacareacanga e Aragarças.
E no plano econômico, a pesquisa em documentos diplomáticos americanos desclassificados revelou o método: Washington negava empréstimos ao Brasil nos momentos de aperto cambial e empurrava as demandas brasileiras para o FMI, que fazia as exigências que interessavam aos americanos — inclusive, adivinhem, a abertura do mercado de petróleo. JK preferiu romper com o Fundo, em 1959, sob aplauso popular nas portas do Catete. Jango.
Aqui nem é preciso inferir: está confessado. O próprio embaixador Lincoln Gordon admitiu que a CIA despejou o equivalente a dezenas de milhões de dólares atuais para desestabilizar o governo constitucional brasileiro, irrigando os institutos IPES e IBAD, que financiaram metade da Câmara dos Deputados nas eleições de 1962 — com dinheiro de gigantes como Texaco, Standard Oil, General Motors e IBM. E quando o golpe veio, em 1964, uma força-tarefa naval americana, com porta-aviões, navios-tanque e munição, já navegava rumo à costa brasileira: a Operação Brother Sam, hoje documentada nos arquivos desclassificados do próprio governo dos EUA.
O motivo, registrado nos papéis de Kennedy e Johnson, tampouco era ideológico no fundo: era a lei de remessa de lucros, eram os interesses das empresas americanas. Geisel. E aqui a história ensina sua lição mais preciosa — precisamente porque envolve os militares que os americanos ajudaram a colocar no poder. Nos anos 70, o Brasil comprou da Westinghouse a usina de Angra I num pacote que proibia transferência de tecnologia e obrigava o país a comprar combustível exclusivamente dos EUA.
Consolidada a dependência, veio o garrote: no início de 1974, a agência atômica americana simplesmente recusou-se a assinar o contrato de fornecimento de urânio enriquecido para a Usina Nuclear de Angra I, e cortou o suprimento até dos laboratórios de pesquisa nuclear brasileiros.
O boicote veio primeiro; o acordo nuclear com a Alemanha, em 1975, foi a resposta brasileira — não o contrário. E mesmo depois, Washington não desistiu: pressionou a Holanda para impedir a venda da tecnologia de enriquecimento da Urenco ao Brasil, sabotando na prática a transferência tecnológica, e mandou emissários a Bonn e Brasília para desmontar o acordo.
Não conseguiu. Em março de 1977, o Brasil denunciou o Acordo Militar de 1952 e devolveu o relatório americano sobre seus assuntos internos. Setenta anos, quatro governos de matizes opostos, um único padrão: toda vez que o Brasil buscou autonomia produtiva, energética ou tecnológica, a reação americana veio — por embargo, por empréstimo negado, por financiamento da oposição, por canhoneira ou por tarifa. Trump não inventou nada. Apenas tirou as luvas.
O precedente: quando o Brasil respondeu com política industrial Uma ressalva antes, para que não reste ambiguidade: recordar o acerto de uma política econômica do governo Geisel não é absolver o ditador. O mesmo regime que enfrentou Washington na questão nuclear torturava e assassinava opositores nos porões. O que este artigo separa — cirurgicamente — é a política soberana do regime sanguinário que a executou.
E há até uma ironia a extrair daí: se até uma ditadura instalada com apoio americano concluiu que precisava se emancipar dos Estados Unidos, o que dizer de uma democracia? O exemplo vale apesar de Geisel, jamais por causa dele. Aliás, nem a súbita preocupação de Washington com os direitos humanos brasileiros, na era Carter, era sincera: os documentos mostram que o alvo real da ofensiva era o programa nuclear. Pois bem: diante do boicote, o Brasil de 1974 não retaliou com tarifas simbólicas.
Lançou o II Plano Nacional de Desenvolvimento — a mais ambiciosa política de substituição de importações da nossa história. Priorizou bens de capital, insumos básicos e energia; rejeitou o ajuste recessivo que o FMI receitava; apostou na indústria nacional. Resultados: crescimento médio de quase 7% ao ano entre 1974 e 1979, dependência do petróleo importado reduzida, pauta de exportações de manufaturados diversificada, etapas inteiras da industrialização concluídas. E tudo isso num mundo em que os Estados Unidos eram praticamente o único fornecedor de tecnologia e capital do bloco capitalista. Geisel fez substituição de importações sem alternativa de fornecedor. Nós temos uma — e das grandes. Já chegaremos lá. “Mas e a dívida?” — o torpedo que não explode mais
Os críticos dirão, corretamente, que o II PND cobrou seu preço: a dívida externa saltou de US$ 20 bilhões para US$ 56 bilhões entre 1974 e 1979, e a conta estourou na década perdida. Verdade. Mas quem usa esse argumento contra a substituição de importações em 2026 está debatendo com um fantasma. O Brasil de Geisel devia em dólar e não tinha reservas. O Brasil de hoje é o oposto simétrico: cerca de 96% da dívida pública federal é interna, denominada em reais; as reservas internacionais superam os US$ 300 bilhões, dos quais mais de US$ 200 bilhões aplicados em títulos do Tesouro americano — o Brasil está entre os maiores credores dos Estados Unidos no mundo.
O próprio Tesouro Nacional reconhece que a dívida cambial deixou de ser vulnerabilidade: como o país é credor líquido em moeda estrangeira, uma desvalorização do real aumenta o valor das reservas e reduz a dívida líquida do setor público. O risco que matou o II PND simplesmente não existe mais. O torpedo está desarmado. A vantagem que Geisel não tinha: a China Em 2025, enquanto as exportações brasileiras aos EUA despencavam 6,6% sob o tarifaço, as vendas à China cresciam 6% e ultrapassavam US$ 100 bilhões, com superávit de US$ 29 bilhões para o Brasil.
De um lado, um sócio que nos tarifa e com quem temos déficit; do outro, um parceiro que nos compra e com quem temos superávit. A aritmética dispensaria comentário — mas o preconceito não dispensa. Antecipemos, então, a segunda objeção: “sair do imperialismo americano para cair no chinês”. A resposta tem três camadas. Primeira: o currículo. A China não financiou golpes no Brasil. Não mandou esquadras à nossa costa. Não derrubou presidentes latino-americanos, não cortou fornecimento de tecnologia como retaliação política, não condicionou empréstimos à abertura do nosso petróleo. Tudo isso que acabamos de documentar em setenta anos de relação com os Estados Unidos não tem equivalente na relação com Pequim.
A assimetria com a China é comercial; a assimetria com Washington sempre foi tutelar. São coisas diferentes, e fingir que não são é desonestidade intelectual. Segunda: a proposta não é trocar de patrão — é deixar de ter patrão. O problema histórico do Brasil nunca foi comprar dos americanos; foi comprar só deles, sem alternativa, o que transformava cada compra em corrente. Com dois grandes fornecedores mundiais disputando o mercado brasileiro, quem passa a ditar condições é o Brasil. Foi exatamente esse o papel da Alemanha para Geisel em 1975. A China de hoje é uma Alemanha muito maior — e muito menos suscetível aos telefonemas de Washington. Terceira, e aqui a honestidade exige clareza: a pauta com a China também reproduz, hoje, o velho padrão — exportamos soja, minério e petróleo; importamos manufaturados.
Por isso a importação chinesa é o meio, não o fim. Importar da China bens de capital, máquinas e equipamentos serve para reindustrializar o Brasil, do mesmo modo que o acordo com a Alemanha visava transferência de tecnologia, não compra eterna de reatores. A meta final continua sendo a substituição nacional. A chinesa é a alavanca tática que Geisel não teve. O inimigo interno E aqui chegamos ao obstáculo verdadeiro — que não está em Washington, mas em Brasília e na Faria Lima. Qualquer proposta de política industrial ativa no Brasil esbarra num tribunal ideológico que a condena antes do julgamento: a ortodoxia financista herdada do Consenso de Washington, para a qual o Estado só serve para garantir o serviço da dívida e qualquer estratégia nacional de desenvolvimento é heresia populista.
É uma doutrina que trata como lei natural aquilo que é, na origem, o programa de interesses de quem a batizou — o consenso é de Washington, afinal, não de Brasília. A ironia histórica merece registro: o FMI que JK expulsou pela porta do Catete em 1959, sob aplauso popular, voltou pela janela nos anos 90 — não mais como credor externo, mas como doutrina interna, instalada nas cabeças, nos ministérios e nos editoriais.
O boicote que Geisel sofreu de fora, nós hoje nos aplicamos por dentro. Nenhuma tarifa de Trump é tão eficaz contra a indústria brasileira quanto essa camisa de força mental que veste de “responsabilidade” a renúncia a qualquer projeto de país. Uma nova política de substituição de importações exigirá, portanto, vencer primeiro essa batalha doméstica: crédito direcionado, compras governamentais, exigência de conteúdo local e transferência de tecnologia, BNDES cumprindo a função para a qual existe. Nada disso é invenção — é o que fizeram os Estados Unidos, a Alemanha, o Japão, a Coreia e a própria China quando industrializaram. Só ao Brasil se receita o contrário.
O judô comercial Fechemos com a ironia final, que é também a beleza tática da proposta. Trump justifica seu tarifaço com o discurso do “reequilíbrio comercial”. Pois a substituição de importações entrega a ele exatamente o que pede — o déficit brasileiro com os EUA diminui, a relação caminha ao equilíbrio — só que nos termos do Brasil: sem escalada, sem guerra tarifária, sem inflação importada, e com a indústria nacional saindo mais forte do outro lado. É judô: usar a força do golpe do adversário para projetá-lo ao chão.
O olho por olho é o reflexo dos fracos. A substituição é a estratégia dos que aprenderam. Vargas pagou com a vida, JK com o cerco, Jango com o golpe, e até os generais pagaram com o boicote o preço de querer um Brasil dono de si. A diferença é que, pela primeira vez em setenta anos, o Brasil tem as reservas, tem a dívida em sua própria moeda, tem o parceiro alternativo e tem a democracia. Falta só uma coisa — e não é dinheiro, nem tecnologia, nem sócio. É decisão.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>


