“Não é adivinhação, é método”, afirma Reynaldo Aragon sobre antecipação de cenários políticos

Pesquisador recupera análises publicadas desde 2024 para explicar como pressão externa, plataformas digitais e conflitos institucionais passaram a interferir na disputa eleitoral de 2026

Da Redação

A crise entre integrantes do Supremo Tribunal Federal e da Polícia Federal, a ofensiva de empresas de tecnologia contra regulações nacionais e as pressões do governo dos Estados Unidos sobre o Brasil não devem ser examinadas como episódios isolados. Na avaliação do pesquisador Reynaldo Aragon, esses acontecimentos integram um processo de disputa política, tecnológica e informacional que começou a ser preparado antes da eleição presidencial de 2026.

A análise foi apresentada no domingo (7), durante um programa especial da TV Código Aberto, conduzido por Reynaldo e Heitor Aragon, com a participação do jornalista e advogado Luís Delcides. A transmissão recuperou artigos publicados pelo pesquisador desde junho de 2024 no Código Aberto e em veículos parceiros como Brasil 247, Jornal GGN, Outras Palavras e Viomundo.

O objetivo foi reconstruir uma linha do tempo sobre o avanço da guerra híbrida no Brasil, relacionando operações psicológicas, poder algorítmico, sanções econômicas, conflitos jurídicos e interesses geopolíticos. Segundo Reynaldo, o exame de fatos anteriores permite identificar tendências e formular cenários sem recorrer a previsões intuitivas.

“Não é adivinhação, é método. Você consegue olhar para o futuro e traçar cenários diversos. A partir desses cenários, dá um percentual de chance para que cada um aconteça diante do que vinha ocorrendo”, explicou.

O pesquisador chama esse modelo de “jornalismo estratégico”. A proposta consiste em utilizar grandes volumes de dados, instrumentos de programação e inteligência artificial para comparar acontecimentos, reconhecer padrões e antecipar riscos políticos.

Para Reynaldo, a sociedade brasileira poderia ter chegado mais preparada à crise atual se governos, partidos e movimentos sociais tivessem tratado a guerra informacional como um problema de formação política, e não apenas como uma disputa de memes nas redes sociais.

“Nós poderíamos ter nos preparado muito melhor para este cenário se tivesse existido vontade política e organização de base”, afirmou.

Primeiros alertas apareceram em junho de 2024

O ponto inicial da retrospectiva foi um artigo publicado em 17 de junho de 2024 sobre o conceito de guerra neocortical. O texto analisava como operações psicológicas, centros de pensamento, tecnologias e estratégias de comunicação podem influenciar percepções e comportamentos sem a destruição física do adversário.

“A investigação começou pela guerra neocortical: como modular percepção, comportamento e decisão sem destruir fisicamente o adversário”, explicou Reynaldo.

O artigo não tratava somente de mensagens falsas ou propaganda convencional. Seu foco estava na criação de ambientes capazes de orientar decisões políticas por meio do medo, do ressentimento e da desconfiança nas instituições.

Em 19 de outubro de 2024, o pesquisador publicou A guerra invisível, texto no qual aproximou o debate da realidade brasileira. A análise identificava vulnerabilidades relacionadas à desinformação e à dependência de plataformas estrangeiras, além da atuação conjunta de agentes políticos, financiadores e redes de influência.

Naquele momento, Donald Trump ainda disputava a Presidência dos Estados Unidos. A pergunta proposta pelo artigo era como o Brasil poderia defender sua soberania informacional antes que suas vulnerabilidades fossem utilizadas em larga escala.

“O ponto era compreender a máquina antes de conhecer seus sinais”, resumiu Reynaldo.

Ataques aos Brics e ao Sul Global

Quatro dias depois, em 23 de outubro de 2024, Reynaldo publicou um artigo sobre a atuação de centros de pensamento e fundações ocidentais na construção de narrativas contra os Brics e os países do Sul Global.

O texto examinava a maneira como interpretações produzidas por essas organizações circulam por grandes veículos de comunicação e entram no debate público com aparência de análise técnica e independente.

Reynaldo ressaltou que não se trata de afirmar a existência de um comando central responsável por todos os acontecimentos. O objetivo é identificar como diferentes interesses econômicos e políticos podem convergir e produzir resultados semelhantes.

Segundo ele, a disputa internacional envolve também o Pix, a ampliação das relações comerciais do Brasil com a China e a busca por mecanismos financeiros menos dependentes do dólar.

A soberania brasileira passou, assim, a enfrentar pressões em duas frentes interligadas. Enquanto governos e empresas estrangeiras defendiam seus interesses econômicos, plataformas digitais controladas fora do país ampliavam ou reduziam a circulação das interpretações sobre essa disputa.

Big Techs como infraestrutura de poder

Depois da eleição de Trump, em novembro de 2024, Reynaldo passou a analisar as grandes empresas de tecnologia como parte de um complexo civil e militar ligado aos Estados Unidos.

Dados, serviços de nuvem, publicidade digital, inteligência artificial e sistemas de recomendação passaram a ser considerados infraestruturas estratégicas. A dependência brasileira dessas empresas, portanto, deixou de ser apenas uma questão comercial.

“As Big Techs aparecem como infraestrutura estratégica, não apenas como empresas de tecnologia”, afirmou.

O pesquisador identificou em Elon Musk um exemplo dessa transformação. Proprietário de uma plataforma global e de empresas com contratos públicos, Musk passou a atuar diretamente em conflitos políticos nacionais, inclusive no confronto com o STF e Alexandre de Moraes.

Para Reynaldo, o problema não está somente nas opiniões manifestadas por um empresário. A questão é o poder concentrado por quem controla redes de informação capazes de definir o alcance de autoridades, movimentos políticos, empresas jornalísticas e campanhas eleitorais.

O conflito brasileiro com a plataforma X tornou-se, desse modo, parte de uma disputa internacional sobre limites regulatórios e soberania.

“O recado das Big Techs é guerra”

Em janeiro de 2025, Reynaldo publicou o artigo O recado das Big Techs para o Estado brasileiro é guerra. O texto analisava como decisões tomadas por empresas sediadas nos Estados Unidos produziam efeitos imediatos no ambiente informacional brasileiro.

Mudanças nas políticas de moderação da Meta e as reações do governo brasileiro mostravam que parte relevante do debate público nacional ocorria em espaços administrados por companhias estrangeiras.

“Até onde vai o poder de um Estado quando uma parte relevante de seu espaço público é administrada por empresas estrangeiras capazes de resistir às regulações nacionais?”, questionou.

Reynaldo comparou essas empresas a antigas companhias coloniais porque estabelecem seus próprios termos de uso e tentam colocá-los acima das leis dos países nos quais atuam.

Quando uma pessoa aceita as regras de uma plataforma, passa a produzir dados e conteúdo dentro de condições que não foram debatidas democraticamente. O problema adquire dimensão política quando as mesmas companhias mantêm contratos com órgãos militares, de inteligência e de segurança.

Vigilância privada e dependência tecnológica

Em fevereiro de 2025, o pesquisador publicou uma análise sobre vigilância, Big Techs e imperialismo digital. O texto tratou de empresas como a Palantir e da transferência de capacidades antes concentradas no Estado para corporações privadas.

Essas empresas atuam com inteligência, análise de dados e sistemas utilizados por governos. Para Reynaldo, quando um país depende de companhias estrangeiras para processar dados sensíveis, a dependência tecnológica transforma-se em vulnerabilidade geopolítica.

O pesquisador relacionou essa análise a um memorando assinado posteriormente por Trump, que ampliou a participação de empresas privadas em operações cibernéticas contra países classificados pelo governo norte-americano como adversários.

“O que era extraoficial foi oficializado”, avaliou.

STF entrou na mira antes da eleição de 2026

Também em fevereiro de 2025, Reynaldo publicou A Justiça sob ataque: o risco real da interferência dos Estados Unidos no caso Bolsonaro. O artigo não afirmava que existia naquele momento uma operação norte-americana em andamento. Examinava instrumentos que poderiam ser utilizados para internacionalizar o processo contra Bolsonaro e pressionar o STF.

O foco estava em sanções, medidas econômicas, redes políticas e mecanismos jurídicos com alcance internacional. O texto procurava identificar a capacidade disponível antes que ela fosse utilizada.

“A guerra informacional e a pressão institucional começaram a se encontrar”, afirmou.

Segundo Reynaldo, Alexandre de Moraes ganhou centralidade porque conduzia investigações relacionadas às fake news, aos atos de 8 de janeiro e à desinformação durante a pandemia de Covid-19. Esses procedimentos continham elementos capazes de revelar o papel das plataformas na organização de ataques às instituições.

A atuação de Moraes também permitiu que a extrema direita o transformasse em símbolo de uma suposta censura estatal. Essa narrativa atravessou as fronteiras brasileiras e passou a ser repetida por aliados de Bolsonaro nos Estados Unidos.

Campanha de 2026 começou antes da propaganda eleitoral

Em junho de 2025, Reynaldo publicou o artigo Eles já estão em guerra. E nós? A batalha de 2026 já está em curso. O texto defendia que a eleição havia começado mais de um ano antes da abertura oficial da campanha.

“Eleições não começam quando a propaganda é autorizada. Começam quando se moldam temas, medos e percepções”, afirmou.

Nesse período, redes de comunicação, comunidades digitais e lideranças políticas já preparavam os assuntos que dominariam a campanha. O treinamento de influenciadores e a circulação antecipada de acusações ajudavam a definir o ambiente no qual os candidatos seriam avaliados.

Para o pesquisador, a esquerda cometeu um erro ao tratar esse movimento apenas como comunicação eleitoral. A resposta deveria incluir formação política, produção permanente de conteúdo e ocupação organizada dos territórios digitais.

A disputa se tornou mais explícita depois que Trump passou a intervir publicamente no debate brasileiro e a associar suas declarações à situação de Jair Bolsonaro.

Quando o chefe do governo norte-americano assume uma narrativa, explicou Reynaldo, a mensagem deixa de circular apenas entre influenciadores e aliados partidários. Ela pode preparar sanções, justificar medidas diplomáticas e fortalecer grupos internos.

Cúpula dos Brics ampliou o conflito

Na análise apresentada pelo Código Aberto, a cúpula dos Brics realizada em 2025 marcou uma mudança nas relações entre Brasil e Estados Unidos. A ampliação das parcerias brasileiras com China, Índia, Indonésia, Irã e Malásia contrariou a estratégia de Washington para manter sua influência sobre a América Latina.

Reynaldo avaliou que o Brasil passou a enfrentar ataques mais abertos depois de aprofundar os vínculos com países do Sul Global e defender maior autonomia financeira e comercial.

O pesquisador também recuperou um artigo de julho de 2025 sobre o uso da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes. O texto sustentava que as sanções poderiam servir não apenas para atingir um ministro, mas para desgastar internacionalmente o STF e apresentar o processo eleitoral brasileiro como pouco confiável.

Outro artigo analisou a retomada da Doutrina Monroe durante o segundo governo Trump. Segundo Reynaldo, essa orientação já estava presente no Projeto 2025, elaborado antes da eleição norte-americana.

Narcoterrorismo como justificativa de intervenção

Um dos textos de maior alcance do pesquisador tratou da utilização do discurso sobre narcoterrorismo para justificar políticas de segurança e interferência externa. O artigo analisava o Rio de Janeiro como possível laboratório de uma estratégia mais ampla contra o Brasil.

Reynaldo relacionou o tema à atuação de Jason Miller, J. D. Vance, Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Martin De Luca. Ele descreveu De Luca como advogado ligado a Trump e especializado na utilização internacional de instrumentos jurídicos em disputas políticas.

Na avaliação do pesquisador, a construção de uma imagem de descontrole institucional e territorial pode ser usada para questionar a capacidade do Estado brasileiro e legitimar pressões estrangeiras.

As hipóteses apresentadas durante a transmissão não comprovam a existência de um comando único ou de uma operação específica em execução. Reynaldo insistiu que seu método trabalha com capacidades, interesses e cenários possíveis.

André Mendonça e a crise no STF

A retrospectiva chegou à crise provocada pelas decisões de André Mendonça envolvendo a Polícia Federal. Para Reynaldo, o ministro produziu um resultado que favorece a narrativa internacional de que as instituições brasileiras não conseguem garantir a estabilidade do país nem a segurança das eleições.

Ele evitou afirmar que Mendonça teria agido deliberadamente para atender aos interesses dos Estados Unidos.

“Não posso dizer que ele fez isso propositalmente para ajudar os Estados Unidos a desestabilizar o Brasil. Não tem prova disso”, reconheceu.

Mesmo com essa ressalva, Reynaldo acusou o ministro de agir de forma irregular e de enfraquecer o STF às vésperas da eleição. Segundo ele, a decisão ofereceu argumentos aos grupos que pretendem apresentar o Brasil como um Estado em colapso institucional.

“O momento foi perfeito. Quando tentávamos estabilizar as instituições para garantir uma eleição sob forte ameaça, ele entregou tudo o que os Estados Unidos queriam: a imagem de que as instituições brasileiras não seriam capazes de garantir a democracia”, afirmou.

O pesquisador também destacou que as acusações contra Alexandre de Moraes precisam ser esclarecidas. Para ele, defender a democracia não significa ignorar as suspeitas envolvendo o ministro ou o contrato mantido pelo escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master.

“Alexandre de Moraes precisa explicar muita coisa à sociedade brasileira”, disse.

Impeachment poderia transformar Mendonça em mártir

Apesar das críticas, Reynaldo considerou que a abertura imediata de um processo de impeachment contra Mendonça produziria riscos adicionais. A medida poderia aprofundar a crise do Supremo e permitir que o ministro se apresentasse como vítima de perseguição religiosa.

“Se você tira Mendonça do Supremo neste momento, ele sai como mártir, como herói, como o homem evangélico expulso do tribunal porque denunciou a corrupção”, avaliou.

Na hipótese apresentada pelo pesquisador, Mendonça poderia transformar o afastamento em capital político e apresentar-se futuramente como candidato à Presidência. Por isso, defendeu uma resposta institucional que preserve o STF, esclareça as acusações e evite oferecer à extrema direita uma narrativa pronta.

Reynaldo também considerou prejudicial um processo de impeachment contra Moraes no atual contexto. Segundo ele, a retirada de qualquer um dos ministros poderia fragilizar ainda mais uma instituição já submetida a ataques internos e externos.

Antipetismo esconde preconceitos mais profundos

Luís Delcides relacionou o crescimento da extrema direita a preconceitos sociais, raciais, religiosos e de gênero. Segundo ele, o antipetismo frequentemente funciona como uma justificativa pública para rejeições que possuem raízes mais profundas.

O jornalista e advogado citou sua experiência profissional no atendimento de pessoas endividadas que repetem acusações contra o Presidente Lula, mas não conseguem indicar fatos concretos para sustentá-las.

“Alguém colocou isso na cabeça dele. Alguém colocou essa informação e manipulou esse sujeito”, afirmou.

Luís também chamou atenção para o uso eleitoral de igrejas. Ele relatou ter ouvido um pastor defender a escolha de representantes “fiéis a Deus”, expressão que pode favorecer candidatos que utilizam referências religiosas para construir identificação política.

Para o advogado, essa atuação precisa ser analisada à luz do caráter laico do Estado e dos limites constitucionais da relação entre instituições públicas e organizações religiosas.

Guerra informacional exige presença nas ruas

Na avaliação de Reynaldo, o Brasil vive um cenário grave, mas a visibilidade dos ataques também permite organizar uma reação. Uma campanha silenciosa seria mais difícil de enfrentar porque os movimentos seriam percebidos somente depois de produzirem seus efeitos.

“Pelo menos estamos vendo o que está acontecendo. Estamos preocupados e vamos fazer de tudo para reverter essa situação nas ruas, nas redes e nas urnas”, afirmou.

O pesquisador defendeu que o campo democrático recupere a iniciativa política e mantenha distância de alianças automáticas com autoridades que precisam prestar esclarecimentos.

Para ele, o Presidente Lula compreendeu o risco de vincular sua biografia à defesa incondicional de Alexandre de Moraes. Parlamentares e lideranças progressistas também começaram a separar a preservação do STF do apoio pessoal ao ministro.

“Quanto mais a gente defender o indefensável, mais entregará o poder da narrativa à extrema direita”, alertou.

Reynaldo encerrou a análise afirmando que a crise atual não surgiu no dia em que chegou às manchetes. Ela foi sendo construída por mudanças regulatórias, campanhas digitais, interesses econômicos e decisões institucionais que só aparecem como parte de um mesmo processo quando examinadas ao longo do tempo.

Referências

Cartomante, composição de Ivan Lins e Vitor Martins, mencionada durante o programa

Só o fim, canção da banda Camisa de Vênus citada por um participante da transmissão

Artigos recuperados durante o programa:

  • A guerra neocortical
  • A guerra invisível
  • Como think tanks e fundações ocidentais criminalizam os Brics e o Sul Global
  • Big Techs: complexo civil-militar da guerra híbrida
  • O recado das Big Techs para o Estado brasileiro é guerra
  • Do soft power à vigilância total: as Big Techs e o novo imperialismo digital
  • A Justiça sob ataque: o risco real da interferência dos Estados Unidos no caso Bolsonaro
  • Eles já estão em guerra. E nós? A batalha de 2026 já está em curso
  • Thanks, Trump: o inimigo mostrou o rosto
  • A Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes: o objetivo de isolar o Brasil
  • A farsa do narcoterrorismo: como o Rio virou laboratório da guerra híbrida contra o Brasil
  • Governar é antecipar: a estratégia que decidirá 2026
https://www.youtube.com/watch?v=oLETEWC0HQk

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