Jornalista aponta permanência de oligarquias, critica personalismo partidário e vê cenário aberto para eleições no estado
No programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 29 de abril e apresentado por Luiz Regadas, o jornalista Cláudio Teran fez uma análise aprofundada do cenário político cearense, destacando os movimentos recentes, disputas de poder e a permanência de estruturas tradicionais na política. A entrevista integra a cobertura política da Atitude Popular e pode ser assistida na íntegra ao final desta matéria.
Logo no início da conversa, ao ser provocado sobre a suposta superação das oligarquias no estado, Teran foi direto: “Não existe amor em política”, afirmando que, embora o coronelismo clássico tenha perdido forma, ele segue vivo em novas roupagens.
Segundo o jornalista, a política brasileira, e especialmente a cearense, continua marcada por dinastias familiares. “Sempre tem um filho surgindo, uma esposa sendo lançada do nada. Isso é oligarquia e não deixa de ser um coronelismo disfarçado”, afirmou. Para ele, o poder permanece concentrado em grupos que tratam o mandato como carreira e não como função pública.
Coronelismo moderno e herança familiar
Teran destacou que a lógica de transmissão de poder “de pai para filho”, tão comum na história política brasileira, permanece atualizada. Ele observou que candidaturas frequentemente são decididas dentro de núcleos familiares, o que limita a renovação política e mantém estruturas fechadas.
Ao comentar episódios recentes no Ceará, como o embate envolvendo Cid Gomes e aliados da extrema direita, o jornalista apontou o acirramento do discurso político e a dificuldade de diálogo. Para ele, o silêncio de lideranças diante de acusações graves também revela tensões internas e fragilidades estratégicas.
Janela partidária e fragilidade ideológica
Outro ponto central da análise foi a crítica à chamada “janela partidária”. Teran classificou o mecanismo como uma das maiores distorções do sistema político brasileiro.
“Você fica num partido enquanto é conveniente e depois sai. Bobos são aqueles que brigam por ideologia”, afirmou, sugerindo que partidos muitas vezes funcionam apenas como instrumentos eleitorais, sem compromisso programático consistente.
Ele comparou esse fenômeno à lógica de fragmentação em outros espaços sociais, indicando que a busca por poder individual frequentemente supera qualquer projeto coletivo.
O papel de Ciro Gomes e o jogo nacional
A possível candidatura de Ciro Gomes foi um dos temas mais debatidos. Para Teran, há sinais claros de que o ex-ministro pode priorizar uma disputa nacional em detrimento da eleição estadual.
“O pretexto para ele desistir da disputa no Ceará está colocado”, avaliou, citando movimentações recentes do PSDB e encontros políticos que, segundo ele, indicam articulações mais amplas.
Teran também criticou o estilo político de Ciro, apontando uma recorrente postura de isolamento: “O discurso dele é de que todo mundo está errado e só ele sabe como consertar. Isso já custou eleições”.
Reconfiguração partidária e disputa legislativa
No cenário estadual, o jornalista destacou o crescimento do PSDB na Assembleia Legislativa, impulsionado pela expectativa de uma candidatura competitiva ao governo. No entanto, alertou que essa estratégia depende diretamente da definição de nomes fortes.
Já no plano federal, Teran apontou uma tendência de domínio por três forças principais: PT, PSB e PL. Segundo ele, a extrema direita segue com presença relevante e deve garantir uma bancada expressiva.
Senado e risco de polarização
A disputa pelo Senado também foi analisada como um ponto crítico. Teran alertou para o risco de fortalecimento de candidaturas alinhadas a posições mais radicais, especialmente com o apoio de figuras emergentes da extrema direita.
Ele destacou que a formação de alianças será decisiva e que erros estratégicos podem resultar na eleição de nomes com pouca capacidade de articulação institucional.
Novas lideranças e limites da renovação
Sobre a renovação política, o jornalista reconheceu o surgimento de novos nomes, como jovens lideranças com base ideológica, mas ponderou que o sistema ainda favorece quem já possui mandato e acesso a recursos.
“Os que já têm mandato são mais favorecidos. O processo não é fácil para quem está chegando”, afirmou.
Religião e política: uma mistura perigosa
Na parte final da entrevista, Teran fez um alerta contundente sobre o uso da religião na política. Para ele, essa combinação tem servido mais a interesses pessoais do que ao bem coletivo.
“A mistura de religião com política não resolve nada. É embuste, é enganação”, declarou, defendendo que o eleitor precisa amadurecer sua compreensão sobre o papel das instituições e dos representantes eleitos.
Um cenário em aberto
Ao analisar a possibilidade de reeleição do atual governador, Teran afirmou que o resultado dependerá diretamente da configuração da oposição e da presença ou não de candidaturas fortes.
Ele concluiu que o Ceará vive um momento de transição, com disputas intensas e indefinições que tornam o cenário político altamente dinâmico.
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