“Não existe democracia sem soberania informacional”

Conferência na UVA, em Sobral, reúne pesquisadores, estudantes e sindicalistas para discutir inteligência artificial, democracia, trabalho e direitos sociais

Da Redação

A Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, recebeu mais uma etapa da II Conferência Ceará por IA com Direitos Sociais, iniciativa que reúne universidades, entidades sindicais, pesquisadores e movimentos sociais para debater os impactos da inteligência artificial sobre a sociedade brasileira. O encontro ocorreu no campus da instituição e contou com a participação de representantes do movimento sindical, da comunidade acadêmica e de especialistas em tecnologia, comunicação e soberania digital.

As informações são da transmissão pública realizada pela organização do evento no YouTube. Ao longo da programação, os participantes discutiram os efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho, a educação, a produção de conhecimento, a democracia e a capacidade dos Estados nacionais de proteger seus dados e suas infraestruturas estratégicas.

A abertura contou com a participação da dirigente sindical Gisela Colares, do Sindicato Estadual dos Trabalhadores do IBGE no Ceará. Em sua intervenção, ela alertou para os riscos do uso indiscriminado da inteligência artificial em áreas ligadas ao planejamento do Estado e à formulação de políticas públicas.

Segundo Gisela, a tecnologia já começa a influenciar processos de tomada de decisão em áreas como saúde, educação, desenvolvimento econômico e gestão pública. Por isso, argumentou, não se trata apenas de uma ferramenta técnica, mas de um instrumento capaz de moldar a forma como a sociedade interpreta a si mesma.

“Ela pode mudar a forma como a gente vai enxergar o Estado e o país”, afirmou.

A dirigente destacou ainda que sistemas treinados a partir de bases históricas de dados tendem a reproduzir desigualdades já existentes.

“Se a inteligência artificial foi treinada com os dados do passado, ela vai automaticamente reproduzir os preconceitos que existem nesses dados”, disse.

Para ela, a experiência acumulada pelos servidores públicos e pelos especialistas que trabalham com estatísticas e produção de informações continua sendo indispensável para impedir que algoritmos transformem discriminações históricas em decisões automatizadas.

Ao encerrar sua fala, defendeu a modernização do instituto sem a perda de sua função social.

“Precisamos de um IBGE moderno, mas sem perder sua alma.”

Representando a Universidade Estadual Vale do Acaraú, o professor Fábio destacou que a instituição já está discutindo a elaboração de diretrizes próprias para o uso da inteligência artificial em suas atividades acadêmicas.

Segundo ele, a realização da conferência ocorre em um momento estratégico, quando universidades de todo o país começam a enfrentar desafios relacionados ao uso de ferramentas generativas por estudantes, pesquisadores e docentes.

“Esse debate vai contribuir para a construção coletiva da nossa resolução sobre o uso da inteligência artificial”, afirmou.

A principal conferência do encontro foi conduzida por Reynaldo Aragon, jornalista, pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional e editor do site Código Aberto, projeto criado em parceria comSara Goes, âncora da TV Atitude Popular.

Aragon apresentou uma reflexão sobre os impactos políticos da revolução digital e defendeu que a inteligência artificial deve ser analisada não apenas como uma inovação tecnológica, mas como um fenômeno que reorganiza relações econômicas, culturais e geopolíticas.

“O maior desafio do século talvez seja justamente compreender como essas tecnologias estão transformando a sociedade”, afirmou.

Ao longo da exposição, o pesquisador desenvolveu o conceito de soberania informacional, tema central de sua fala.

Segundo ele, não é mais possível discutir soberania nacional apenas a partir de território, recursos naturais ou capacidade industrial. No século XXI, afirmou, o controle sobre dados, algoritmos, infraestrutura digital, cabos submarinos, satélites e sistemas computacionais tornou-se igualmente estratégico.

“A informação atravessa todas as áreas da vida social. Não existe soberania territorial, econômica ou cultural sem soberania informacional”, explicou.

Para Aragon, países que dependem integralmente de plataformas estrangeiras para armazenar dados, realizar comunicações e operar sistemas críticos acabam submetidos a interesses externos.

Ele argumentou que o Brasil precisa ampliar sua capacidade tecnológica própria, investindo em infraestrutura nacional e em mecanismos de proteção de dados.

Ao mesmo tempo, fez questão de afastar leituras tecnofóbicas.

“Ninguém aqui é contra a tecnologia. Nós gostamos da tecnologia. O problema é quando ela passa a servir apenas aos interesses de grandes corporações.”

Durante sua apresentação, o pesquisador criticou o poder crescente das grandes plataformas digitais e apontou o bloqueio de iniciativas de regulamentação como um dos principais obstáculos para a construção de uma política tecnológica voltada ao interesse público.

Segundo ele, empresas globais passaram a exercer influência direta sobre governos, parlamentos e processos democráticos.

“Essas corporações querem se colocar acima dos Estados e acima das legislações nacionais”, afirmou.

A discussão avançou para o impacto das tecnologias sobre a política contemporânea.

Aragon relacionou o crescimento da desinformação, do negacionismo científico e da polarização política à lógica algorítmica das plataformas digitais.

Em sua avaliação, a economia deixou de ser o principal elemento organizador das decisões políticas, abrindo espaço para processos de manipulação emocional amplificados pelas redes.

“A decisão política passou a ser muito mais modulada pelos sentimentos e pelos afetos do que pela realidade material.”

O pesquisador também abordou a utilização de inteligência artificial em contextos militares, sistemas de vigilância e reconhecimento facial, alertando para riscos relacionados à concentração de poder tecnológico e à utilização de algoritmos sem supervisão pública.

Outra preocupação recorrente ao longo do evento foi o futuro do trabalho.

A organização da conferência apresentou exemplos de empresas que já substituem profissionais iniciantes por ferramentas automatizadas e citou estudos internacionais que apontam impactos significativos da inteligência artificial sobre diversas categorias profissionais.

Para os participantes, o debate não deve se limitar à produtividade, mas considerar também distribuição de renda, proteção social e redução da jornada de trabalho.

Nesse contexto, a conferência defendeu a ideia de que os ganhos gerados pela automação devem beneficiar a sociedade como um todo.

A discussão incluiu temas como renda básica universal, taxação de sistemas automatizados e utilização da tecnologia para melhorar a qualidade de vida da população.

“O objetivo da economia deve ser melhorar a vida das pessoas”, resumiu um dos organizadores.

O encontro também abriu espaço para perguntas de estudantes e dirigentes sindicais.

Um dos questionamentos abordou a possibilidade de a inteligência artificial reduzir a capacidade crítica das novas gerações. Em resposta, Aragon argumentou que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada.

Ele incentivou os estudantes a transformarem suas formações universitárias em experiências de pesquisa e reflexão crítica.

“Nunca desistam de estudar. A universidade continua sendo um espaço fundamental para produzir conhecimento e compreender as transformações do mundo.”

Gisela Colares reforçou esse argumento.

Segundo ela, embora a inteligência artificial seja capaz de processar grandes quantidades de informação, ela não produz conhecimento genuinamente novo nem substitui a capacidade humana de formular perguntas, interpretar a realidade e construir valores.

“O perigo não é a inteligência artificial substituir a gente. O perigo é a gente regredir ao nível dela”, afirmou.

Ao final do encontro, os participantes defenderam a ampliação do debate sobre inteligência artificial em universidades, sindicatos, escolas e organizações da sociedade civil.

A avaliação predominante foi que as transformações tecnológicas em curso são profundas e irreversíveis, exigindo respostas políticas capazes de proteger direitos, ampliar oportunidades e preservar a soberania nacional.

Ao sintetizar o espírito da conferência, Reynaldo Aragon apresentou a frase que se tornou uma das marcas do encontro:

“Não existe democracia sem soberania informacional.”