Presidente da Ceasa Ceará afirma que cesta básica caiu 11,16% em 12 meses e apresenta projetos para reduzir desperdício e ampliar a distribuição de comida saudável
O presidente da Centrais de Abastecimento do Ceará, Herbert Lima, afirmou que a redução recente dos preços e a oferta de produtos no estado contradizem o discurso de que o Brasil enfrenta uma inflação generalizada dos alimentos. Historiador e sociólogo, ele defendeu que o tema vem sendo explorado politicamente durante a campanha eleitoral, apesar da queda registrada no valor da cesta básica.
As declarações foram dadas ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes, com comentários de Antonio Ibiapino. Na entrevista, Herbert Lima explicou como são formados os preços comercializados na Ceasa, apresentou dados sobre o abastecimento do Ceará e detalhou projetos destinados ao combate à fome e ao desperdício.
Segundo Herbert, a cesta básica acumulou uma redução de 11,16% nos 12 meses anteriores à entrevista. Embora determinados produtos possam ficar mais caros em períodos específicos, ele explicou que os preços variam conforme a safra, as condições climáticas, os custos de transporte e a quantidade disponível no mercado.
“Não falta alimento, por isso não tem sentido falar em inflação de alimentos. Nós temos aqui na Ceasa e comercializamos, no ano passado, 500 milhões de quilos de produtos”, afirmou.
O presidente da estatal cearense avaliou que a inflação dos alimentos não deverá ter força suficiente para comprometer eleitoralmente os governos federal e estadual. Ele reconheceu que adversários políticos tentarão transformar o assunto em tema de campanha, mas considerou que os dados e a experiência cotidiana dos consumidores dificultam a consolidação desse discurso.
“A realidade não é só dado estatístico. A realidade é o que as pessoas vivem no dia a dia. Por mais que se tente, se algum produto estiver aumentando, você vai ver outro que diminuiu. Isso vai garantir que a população continue se alimentando”, declarou.
Herbert citou as políticas de segurança alimentar desenvolvidas pelo governo federal e pelo governo do Ceará. Entre elas estão a valorização do salário mínimo, as compras públicas de alimentos produzidos pela agricultura familiar e o programa Ceará Sem Fome.
“O Presidente Lula tirou pela segunda vez o país do mapa da fome. Isso é uma coisa concreta, que as pessoas sentem. O nosso governo do Ceará, com o programa Ceará Sem Fome, também contribuiu para retirar milhares de cearenses da fome”, disse.
Ceasa movimentou R$ 2,84 bilhões
A Ceasa Ceará administra três unidades. A maior está localizada em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza. As outras funcionam em Tianguá, na Serra da Ibiapaba, e em Barbalha, no Cariri.
Embora frutas, verduras e legumes representem a maior parte da comercialização, os entrepostos também recebem carnes, pescados, embalagens e outros produtos relacionados ao abastecimento.
De acordo com Herbert, a Ceasa movimentou 500 milhões de quilos de alimentos em 2025, com circulação financeira de R$ 2,84 bilhões. Esse volume teria colocado a central cearense como o segundo maior entreposto do Nordeste em quantidade comercializada e movimentação financeira, atrás apenas da unidade de Juazeiro, na Bahia.
“Isso mostra que nós temos um mercado aquecido”, avaliou.
O gestor também apresentou alguns valores registrados no boletim de comercialização de 31 de agosto. O quilo da carne bovina dianteira custava, em média, R$ 24. O frango abatido era vendido a R$ 11 o quilo, enquanto a carne caprina aparecia por R$ 35.
As bandejas com 30 ovos brancos ou vermelhos custavam R$ 20. Uma caixa de abacate com 20 quilos era comercializada por R$ 110, enquanto o cento da banana-prata saía por R$ 45. A caixa de abóbora-leite com 20 quilos custava R$ 55.
Herbert explicou que os valores divulgados diariamente pela Ceasa são praticados no atacado e podem servir como referência para os consumidores compararem os preços encontrados em supermercados, mercados e feiras livres.
“A tabela de comercialização que a Ceasa disponibiliza todos os dias serve de parâmetro. Na origem e aqui na Ceasa, o produto sai muito mais barato do que o consumidor vai encontrar no supermercado”, explicou.
Safras e clima influenciam os valores
O presidente da Ceasa ressaltou que os alimentos frescos estão sujeitos a variações sazonais. Durante uma safra maior de manga, tomate, banana ou abacate, por exemplo, a oferta cresce e o preço costuma cair. Na entressafra, a quantidade disponível diminui e o valor pode subir.
Problemas climáticos também afetam a produção e o transporte. Uma estiagem prolongada, chuvas intensas ou dificuldades nas estradas podem reduzir a oferta de determinado produto em um período específico. Isso, porém, não significa que todos os alimentos estejam encarecendo ao mesmo tempo.
“A sazonalidade, a pressão inflacionária, a logística e a questão climática acabam influenciando. Em alguns meses há uma grande safra e o preço diminui. Em outros, um problema climático reduz a safra e isso aparece dentro da Ceasa”, explicou.
Para Herbert, campanhas políticas que selecionam apenas os produtos em alta deixam de mostrar aqueles que ficaram mais baratos. A avaliação do custo da alimentação, segundo ele, deve considerar o conjunto da cesta consumida pelas famílias.
Desperdício chega a 600 toneladas mensais
Apesar do elevado volume de comercialização, a Ceasa Ceará enfrenta um problema que se repete há anos. Aproximadamente 600 toneladas de alimentos são desperdiçadas por mês no entreposto.
Os produtos chegam diariamente aos comerciantes, que tentam vendê-los a supermercados, feirantes e pequenos mercados. No fim do dia, uma parcela não encontra comprador. Como novas mercadorias chegam na manhã seguinte, frutas e hortaliças ainda próprias para o consumo perdem espaço e valor comercial.
“A Ceasa tem uma quantidade absurda de desperdício, que chega a aproximadamente 600 toneladas de alimentos por mês. Quando cheguei aqui, deparei-me com isso e pensei que precisávamos encontrar uma solução”, relatou Herbert.
Ele explicou que grande parte desses alimentos não está estragada. Em muitos casos, são frutas e verduras amassadas, com pequenas marcas ou aparência menos atraente. Embora estejam adequadas ao consumo, deixam de atender ao padrão visual exigido por compradores e consumidores.
“Não é alimento estragado ou impróprio para o consumo. Ele apenas não tem mais o mesmo valor comercial. Quando o consumidor vai ao supermercado, escolhe o tomate, a banana, o pimentão ou a laranja pelo aspecto visual. Se o produto está amassado ou tem alguma cicatriz, ele é desprezado”, explicou.
A Ceasa possui um banco de alimentos vinculado ao programa Mais Nutrição. Das 600 toneladas descartadas mensalmente, porém, apenas cerca de 40 toneladas são atualmente recebidas como doação. As outras 560 toneladas acabam no lixo.
Dos aproximadamente 1.200 permissionários que trabalham na central, somente 200 fazem doações regulares, segundo Herbert. A administração pretende ampliar a adesão dos comerciantes e aumentar a capacidade de armazenamento, seleção e distribuição dos alimentos.
Rede conectará bancos de alimentos do Ceará
Uma das principais iniciativas apresentadas durante a entrevista foi a criação da Rede Cearense de Bancos de Alimentos, batizada de Receba. O projeto é desenvolvido pela Ceasa em parceria com as secretarias estaduais da Proteção Social e do Desenvolvimento Agrário.
A proposta é conectar os bancos de alimentos existentes em diferentes municípios. Com isso, o que não puder ser absorvido pela unidade instalada na Ceasa poderá ser encaminhado para equipamentos localizados em Fortaleza, Caucaia, Maracanaú e outras cidades.
“A Receba vai conectar todos os bancos de alimentos do estado. Assim, poderemos distribuir os produtos não apenas para o Mais Nutrição, mas também para outros bancos de alimentos”, informou.
O projeto acompanha a lei estadual de combate à perda e ao desperdício de alimentos, aprovada em 2026. A medida busca estimular comerciantes a doar mercadorias que perderam valor comercial, mas permanecem próprias para o consumo.
Após a doação, equipes de nutricionistas e trabalhadores realizam a seleção e a higienização. Somente os produtos considerados seguros seguem para entidades que atendem crianças, idosos, pessoas em situação de violência e outros grupos em condição de vulnerabilidade.
Os alimentos sem condições para consumo humano podem ser transformados em ração animal. O material restante poderá ser destinado à compostagem, com retorno às propriedades rurais na forma de adubo.
“A gente tem buscado trabalhar com um sistema alimentar circular. O alimento sai do campo, vem para a comercialização e retorna para o campo como adubo”, explicou Herbert.
Qualidade dos produtos será rastreada
A Ceasa Ceará também desenvolve, em parceria com a Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará, o Nutec, um sistema de rastreabilidade dos alimentos.
O objetivo é acompanhar os produtos desde a área de cultivo até a comercialização e verificar a presença de resíduos de agrotóxicos. A administração pretende estabelecer inspeções e exigir que os permissionários apresentem informações sobre a origem dos alimentos.
“Queremos ter um sistema de rastreabilidade que possa garantir que os produtos comercializados dentro da Ceasa estejam nas condições adequadas. Cada permissionário deverá passar por uma inspeção”, afirmou.
A central já realiza fiscalizações relacionadas às embalagens, ao armazenamento e ao estado das mercadorias. Quando um alimento apresenta problemas, os responsáveis podem determinar sua separação ou impedir a comercialização.
Cerca de 30 mil pessoas circulam diariamente pela Ceasa durante os períodos de maior movimentação, entre comerciantes, trabalhadores, fornecedores e compradores. Para Herbert, o tamanho da operação exige políticas permanentes de fiscalização sanitária e organização do espaço.
Compras públicas fortalecem a agricultura familiar
Outro projeto citado pelo presidente da Ceasa envolve a centralização das compras institucionais do governo do Ceará. Órgãos estaduais adquirem alimentos para escolas, hospitais, presídios e outros serviços públicos.
A legislação determina que uma parcela dessas compras seja destinada à agricultura familiar. A Ceasa deverá ajudar a organizar os agricultores e indicar aos órgãos estaduais onde encontrar os produtos necessários.
Herbert explicou que a garantia de compra permite ao agricultor planejar a produção, organizar os investimentos e obter renda com maior segurança. O que não for adquirido pelo Estado poderá ser comercializado nos mercados convencionais.
“A agricultura familiar é quem garante a comida que vem para a Ceasa e chega à casa de cada um de nós. O Estado quer estimular essa produção e fazer com que o agricultor tenha condições de produzir alimentos saudáveis e seguros”, declarou.
Ele ponderou, no entanto, que o governo não deve assumir integralmente o risco comercial dos atacadistas comprando automaticamente todos os alimentos que não foram vendidos. Na sua avaliação, esse modelo poderia incentivar comerciantes a manter preços elevados, sabendo que o poder público compraria as sobras.
“O comerciante demora a doar porque quer utilizar o máximo do tempo para tentar vender. Mas o risco de não vender faz parte da lógica do mercado. Não consigo entender que, em vez de doar, ele prefira jogar o alimento no lixo, a não ser que o Estado compre”, criticou.
Herbert mencionou como referência a legislação francesa que obriga supermercados com mais de 400 metros quadrados a firmar contratos para a doação de alimentos não comercializados. Para ele, o enfrentamento do desperdício depende da responsabilização dos comerciantes e da criação de uma rede capaz de receber e distribuir os produtos.
Alimentação e crise climática fazem parte do mesmo problema
Ao tratar da importância de alimentos seguros e saudáveis, Herbert relacionou o combate à fome à prevenção da obesidade e ao enfrentamento da crise climática.
Ele citou um relatório publicado pela revista científica The Lancet em 2019, que utiliza o conceito de “sindemia global” para descrever a interação entre três crises: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas.
“A gente está vivendo uma sindemia global, que é uma reunião de três pandemias: a fome e a desnutrição, a obesidade e a crise climática. Precisamos tratar isso em conjunto”, afirmou.
Para Herbert, a função da Ceasa não pode ser limitada ao aluguel de espaços e à intermediação comercial. A central deve atuar como parte de uma política estadual de abastecimento, capaz de incentivar a produção familiar, fiscalizar a qualidade e impedir que alimentos em boas condições sejam descartados.
“O nosso desafio é fazer com que a Ceasa não seja apenas um espaço de comercialização. Ela deve promover uma política de abastecimento que garanta alimentos seguros, saudáveis e comida de verdade na casa de cada trabalhador e de cada cidadão cearense”, concluiu.
Referências
The Global Syndemic of Obesity, Undernutrition, and Climate Change: The Lancet Commission Report, Boyd A. Swinburn e outros autores, 2019
Quilos Mortais (My 600-lb Life), série documental de televisão, criada por Jonathan Nowzaradan, 2012
Karl Marx, autor mencionado durante o programa, sem indicação de uma obra específica
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