Finalista do Prêmio Jabuti de 2018, escritora cearense fala sobre o livro Quando eu descobri que poetas mentem, a relação entre ficção e realidade e o compromisso da escrita com a experiência feminina
A escritora cearense Íris Cavalcante, finalista do Prêmio Jabuti de 2018, participou do programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, para falar sobre seu mais recente livro, Quando eu descobri que poetas mentem. Durante a entrevista conduzida por Luiz Regadas, a autora refletiu sobre literatura, memória, identidade e o papel da poesia na elaboração das experiências humanas.
Ao longo da conversa, Íris explicou que o título da obra nasce justamente da provocação contida em seus próprios poemas. Segundo ela, a ideia não é afirmar que o poeta engana o leitor, mas mostrar que a literatura transforma vivências em ficção, reorganizando sentimentos e experiências para alcançar uma verdade mais profunda.
“A gente mente, a gente ficciona, a gente fabula o tempo todo. A gente cria novos significados para as nossas experiências. Esse é o verdadeiro sentido da literatura.”
Para a escritora, o autor contemporâneo deixou de ocupar um lugar distante e quase mítico. Hoje, o leitor encontra escritores em feiras literárias, eventos culturais e redes sociais, aproximando-se de quem produz os livros. Com isso, uma pergunta se tornou frequente: “Quem é você dentro da obra?”. A resposta, segundo ela, nunca é simples.
Íris afirma que toda criação literária nasce das experiências do autor, mas ganha novas formas por meio da imaginação. A literatura não reproduz a realidade de maneira documental. Ela a reinventa.
“Onde termina a autora e começa a personagem é uma linha praticamente invisível”, afirmou.
Escrever para compreender o mundo
A autora contou que descobriu muito cedo o poder da escrita. Ainda na escola, percebeu que seus textos despertavam atenção dos professores e produziam impacto em quem os lia. Foi naquele momento que compreendeu a escrita como uma forma legítima de expressão.
Segundo ela, escrever tornou-se uma maneira de lidar com situações que escapam ao controle, transformando indignação, inquietação e sofrimento em criação literária.
“É a forma que encontrei de lidar com a absurdidade do mundo.”
Essa elaboração não busca oferecer respostas prontas, mas provocar reconhecimento entre leitores que vivem experiências semelhantes.
“Quando alguém lê um poema e percebe que não está sozinho, a literatura cumpriu seu papel.”
A experiência do Jabuti mudou sua escrita
Íris também relembrou a indicação ao Prêmio Jabuti de 2018 com o livro Vento do oitavo andar. Ela afirmou que a conquista foi inesperada e provocou um período de intensa reflexão sobre sua própria produção.
Ao reler o livro após o reconhecimento nacional, percebeu que desejava assumir de maneira mais explícita sua condição de mulher dentro da literatura.
A partir daquele momento, decidiu que suas obras passariam a carregar de forma mais evidente a perspectiva feminina.
“Quero que minha trajetória como mulher esteja como impressão digital nas páginas dos meus livros.”
Segundo ela, a literatura escrita por mulheres também exerce um papel de representação para leitoras que enfrentam violência, discriminação e desigualdades.
A literatura como denúncia da misoginia
Um dos momentos mais marcantes da entrevista ocorreu quando Íris leu um trecho do poema que dá nome ao livro.
“Não há outra versão para o ódio contra a mulher, para a mulher que foi morta ou mutilada, nem para a mãe que ficou sem os filhos.”
A autora explicou que o poema denuncia a permanência de práticas machistas transmitidas entre gerações e chama atenção para a necessidade de romper padrões históricos de violência.
Ela também destacou que a transformação depende tanto das mulheres quanto dos homens.
“Quando vemos um comentário sexista ou uma violência sendo naturalizada, é preciso interromper esse ciclo.”
“Filhas da mãe” e a continuidade entre gerações
Outro poema comentado durante a entrevista foi Filhas da mãe. Nele, Íris apresenta uma reflexão sobre a continuidade entre mulheres de diferentes gerações.
Segundo ela, mães, filhas, avós e bisavós compartilham experiências históricas que ajudam a compreender a condição feminina na sociedade.
Ao ler parte do poema, definiu as mulheres como:
“Substantivas, superlativas, vozes ativas… Somos mulheres.”
Para a escritora, fortalecer essa consciência coletiva é parte fundamental da luta contra as desigualdades de gênero.
Romper a bolha pela leitura
Encerrando a conversa, Íris comentou outro texto presente na obra, Telhado de vidro. Nele, utiliza a metáfora da bolha para defender que a leitura amplia horizontes e permite enxergar outras realidades.
Ela convidou os leitores a buscar autores diferentes daqueles com os quais já estão acostumados, especialmente escritoras que apresentam perspectivas ainda pouco conhecidas pelo grande público.
“Romper a bolha é ter coragem de conhecer outras experiências. E essa coragem nasce da leitura.”
Ao final da entrevista, a autora reforçou que encara a escrita como um ofício diário, baseado em estudo, leitura e prática constante.
“Todo dia eu escrevo alguma coisa. Depois eu decido se vai para a lixeira ou permanece. Mas escrever faz parte da minha vida.”
Referências
- Quando eu descobri que poetas mentem
- Dias de Fotografias
- Por quem elas se curvam
- Vento do oitavo andar
- Íris Cavalcante
- Fernando Pessoa
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