Professor Nelson Campos critica o uso eleitoral das igrejas, defende o Estado laico e alerta para os riscos de transformar crenças religiosas em instrumentos de poder político
Da Redação
A instrumentalização da religião por projetos políticos, o crescimento da influência de lideranças religiosas nas disputas eleitorais e a importância da separação entre Igreja e Estado estiveram no centro da edição do Café com Democracia exibida em 6 de julho. Apresentado por Luiz Regadas, o programa recebeu o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), para discutir o tema “Não se deve misturar religião com política”.
Durante a entrevista ao Café com Democracia, Nelson Campos defendeu o direito individual à crença, mas criticou o uso de templos, lideranças religiosas e discursos de fé como instrumentos de promoção de candidaturas e projetos de poder. Para ele, a liberdade religiosa depende justamente da existência de um Estado que não privilegie uma doutrina específica.
Logo no início da conversa, o professor afirmou que existe uma contradição entre a mensagem atribuída a Jesus Cristo e determinadas práticas políticas adotadas por lideranças que reivindicam falar em seu nome.
“Jesus defendia o amor, defendia amar aos outros, amar ao próximo como a si mesmo. E, com base nisso, algumas dessas pessoas criam o ódio”, afirmou.
Nelson Campos criticou especialmente a transformação de igrejas em espaços de mobilização eleitoral. Segundo ele, a religião pode oferecer conforto espiritual e organizar comunidades em torno de valores compartilhados, mas se torna problemática quando uma liderança utiliza a autoridade religiosa para orientar votos ou apresentar determinado projeto político como expressão da vontade divina.
“As igrejas passam a ser usadas como palanques políticos para favorecer determinados candidatos”, disse.
O professor relacionou essa prática à atuação de setores da extrema direita que recorrem à linguagem religiosa enquanto defendem posições políticas que, em sua avaliação, entram em conflito com valores de solidariedade e fraternidade presentes na tradição cristã.
“É impressionante como essas pessoas pregam o ódio em nome de Jesus. A mensagem de Jesus merece o maior respeito, a mensagem de fraternidade, de igualdade, de irmandade, de solidariedade, mas em nome dele se faz um monte de besteiras”, declarou.
Religião pertence ao campo da crença, política decide a vida coletiva
Ao explicar por que considera inadequada a mistura entre religião e política, Nelson Campos estabeleceu uma distinção entre a experiência pessoal da fé e as decisões que afetam toda a sociedade.
“Religião é uma crença pessoal em que o indivíduo que crê busca na religião um conforto espiritual”, explicou.
A política, por outro lado, interfere diretamente nas condições materiais e nos direitos da população. Políticas públicas, leis, orçamento, educação, saúde e segurança alcançam pessoas de diferentes religiões e também aquelas que não professam nenhuma fé. Por isso, segundo o professor, as decisões do Estado não podem ser subordinadas às doutrinas de uma comunidade religiosa específica.
O entrevistado também abordou a diversidade das religiões e a necessidade de respeito às diferentes crenças. Ao apresentar seu livro Pelos Caminhos da Sociologia, Nelson destacou o capítulo dedicado à relação entre seres humanos e religiões.
Para ele, as sociedades construíram, ao longo do tempo, diferentes explicações religiosas para a existência humana e para fenômenos naturais. Essas explicações fazem parte da cultura de cada sociedade e não podem ser hierarquizadas pelo Estado.
“Eu não posso pegar a minha crença e dizer que a minha crença está certa e a crença dos outros está errada”, afirmou.
O professor citou a reflexão do sociólogo francês Émile Durkheim segundo a qual as religiões devem ser compreendidas a partir da realidade social das comunidades que as praticam. Nelson resumiu essa perspectiva afirmando que não existem religiões certas ou erradas para quem observa sociologicamente o fenômeno religioso, mas diferentes sistemas de crença aos quais os indivíduos atribuem significado.
A religião como instrumento político atravessa diferentes períodos históricos
Durante a entrevista, Nelson Campos recuperou diferentes momentos históricos em que religião e poder político estiveram associados. O professor citou experiências do Egito Antigo, a expansão do cristianismo no Império Romano, a Reforma Protestante e a relação entre autoridades políticas e instituições religiosas em diferentes sociedades.
Ao abordar a história do cristianismo, lembrou que seus seguidores foram perseguidos pelo Império Romano antes da legalização do culto cristão no século IV. Posteriormente, o cristianismo tornou-se religião oficial do Império, aproximando autoridade religiosa e poder estatal.
Nelson também citou a ruptura de Martinho Lutero com a Igreja Católica no século XVI e a crítica à comercialização de indulgências, prática que se tornou um dos elementos do conflito religioso que marcou a Reforma Protestante.
O professor utilizou esses exemplos para argumentar que a associação entre religião, riqueza e poder político não é um fenômeno recente. Em diferentes períodos, autoridades buscaram legitimidade religiosa, enquanto instituições religiosas procuraram influência sobre as decisões do Estado.
Na avaliação do entrevistado, o problema contemporâneo surge quando a autoridade espiritual de uma liderança é utilizada para construir obediência política entre fiéis.
“Há uma relação do poder político com o poder ideológico e o poder religioso”, afirmou.
Crescimento político de grupos religiosos exige atenção ao caráter laico do Estado
Questionado sobre o crescimento da representação política evangélica no Brasil, Nelson reconheceu a ampliação da influência parlamentar desses setores e sua capacidade de pressionar governos e instituições.
A participação de religiosos na política, ressaltou a entrevista, não é incompatível com a democracia. Pastores, padres, sacerdotes de religiões de matriz africana e integrantes de qualquer comunidade de fé possuem direitos políticos como qualquer cidadão. A questão central está na tentativa de transformar uma doutrina religiosa particular em norma obrigatória para toda a sociedade.
Nesse ponto, Nelson fez críticas a lideranças religiosas que acumulam grande poder econômico e político. Também questionou discursos que associam prosperidade financeira, salvação espiritual e contribuições materiais às igrejas.
Para o professor, a concentração de poder econômico nas mãos de determinadas lideranças deve ser observada criticamente, sobretudo quando a relação com os fiéis envolve promessas religiosas e orientação política.
Ele também criticou diretamente o pastor Silas Malafaia, afirmando que seu estilo de intervenção pública privilegia confrontos e ataques.
“Ele não fala, ele não conversa, ele grita, ele ofende, ele esbraveja contra tudo que seja racionalidade, especialmente se essa racionalidade estiver ligada aos interesses das classes trabalhadoras”, afirmou Nelson.
Na sequência, sintetizou uma das principais críticas apresentadas durante o programa:
“Não posso usar o nome de Jesus para justificar uma política que é exatamente o oposto do que Jesus pregava.”
Estado laico protege quem tem religião e quem não tem
Ao responder como garantir simultaneamente liberdade política e liberdade religiosa, Nelson Campos lembrou que o princípio do Estado laico estabelece a separação institucional entre religião e poder público.
“A nossa Constituição estabelece a separação entre a Igreja e o Estado”, afirmou.
O professor recordou que a Constituição de 1891 representou um marco na separação formal entre Estado e religião no Brasil. Para Nelson, a laicidade não deve ser compreendida como hostilidade às religiões. Ao contrário, é a condição que permite a convivência entre diferentes crenças sem que uma delas disponha de privilégios estatais sobre as demais.
“Você pode ter a crença que você quiser. Não quer dizer que a sua crença seja superior ou inferior. Não existem crenças superiores ou inferiores, certas ou erradas. Existem crenças diferentes”, declarou.
Segundo o entrevistado, a convivência democrática exige que as pessoas possam professar suas religiões sem impor suas convicções particulares ao restante da sociedade por meio do poder estatal.
“Eu não me preocupo com o que as outras pessoas creem. Você crê no que você quiser. Eu não dou palpite nem em relação à minha própria família. Você pode crer no que bem entender, eu não vou interferir nas suas crenças”, disse.
Nelson critica intolerância e rejeita generalizações sobre a sociedade brasileira
Nos minutos finais do programa, Luiz Regadas perguntou se a sociedade brasileira estaria preparada para grandes conquistas políticas e sociais. Nelson Campos respondeu questionando a própria formulação generalizante.
“Eu não gosto muito da generalização”, afirmou.
Para o professor, expressões que atribuem características homogêneas a toda a população brasileira desconsideram diferenças sociais, culturais e políticas entre os indivíduos. Ele argumentou que conceitos coletivos precisam ser utilizados com precisão e contextualização.
“Não existe ‘o povo brasileiro’ como uma pessoa que pensa. Existem indivíduos. Quem pensa é o indivíduo, não é um povo”, afirmou, ao explicar que o conceito de povo possui sentidos específicos nos campos político, jurídico e antropológico.
Ao encerrar a entrevista, Luiz Regadas defendeu maior consciência social, acesso à leitura e a documentários, além do debate sobre desigualdade e condições de trabalho. O apresentador também mencionou a mobilização pelo fim da escala 6 por 1 como parte das disputas políticas relacionadas às condições concretas de vida dos trabalhadores.
A entrevista com Nelson Campos apresentou uma defesa da liberdade religiosa associada à necessidade de preservar instituições públicas de imposições doutrinárias. O argumento central do professor foi que uma democracia deve permitir a participação política de pessoas religiosas sem transformar púlpitos em comitês eleitorais nem utilizar o Estado para impor crenças particulares a uma sociedade marcada pela diversidade religiosa.
Referências citadas na entrevista
Livro
Pelos Caminhos da Sociologia, de Nelson Campos
Pensadores e autores mencionados
Émile Durkheim, Max Weber, Xenófanes, Ludwig Feuerbach, Montesquieu, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau
Personalidades históricas mencionadas
Jesus Cristo, Pôncio Pilatos, Constantino, Teodósio, Martinho Lutero, Maomé e Benito Mussolini
Música e compositores
Ivan Lins e Vitor Martins, mencionados durante a referência à canção que contém o verso citado pelo entrevistado: “Eu não lavei as mãos, por isso me sinto limpo”
Assista à entrevista completa:
Entrevista com o professor Nelson Campos
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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