“Nós somos o sistema”

No Bancos da Democracia, Leonora Mol, Genauto França Filho e Barbara Schmidt defendem o Sistema Nacional de Finanças Solidárias como política pública para fortalecer bancos comunitários, fundos rotativos e cooperativas de crédito solidário

Da Redação

A criação do Sistema Nacional de Finanças Solidárias foi tema do programa Bancos da Democracia exibido em 6 de julho, com apresentação de Sara Goes. A edição reuniu Leonora Mol, da Coordenação da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais, Genauto França Filho, coordenador da Incubadora Tecnológica de Economia Solidária e Gestão do Desenvolvimento Territorial da UFBA, e Barbara Schmidt, da Coordenação da Rede Brasileira de Fundos Solidários.

O programa, realizado pelo Banco Palmas e pela Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento, discutiu a necessidade de estruturar nacionalmente experiências que já existem em várias regiões do país, como bancos comunitários, fundos rotativos solidários e cooperativas de crédito solidário. A proposta do SINAFIS é integrar, fortalecer e ampliar essas práticas como parte de uma política pública voltada ao desenvolvimento territorial.

Barbara Schmidt afirmou que o Sistema Nacional de Finanças Solidárias é “um sonho já de décadas”. Segundo ela, as experiências de finanças solidárias têm longa trajetória no Brasil, com destaque para fundos rotativos surgidos nos anos 1980, muitas vezes vinculados a organizações de base, especialmente em regiões rurais. Ela também destacou o papel pioneiro do Banco Palmas e lembrou que o país já conta com quase 200 bancos comunitários.

A convidada explicou que a construção de uma política pública para o setor ganhou força a partir de 2003, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, e passou por programas de apoio, mapeamentos, conferências e articulações entre sociedade civil, universidades e governo. Para Barbara, o novo momento exige um esforço mais sistemático de escuta, pesquisa e formulação institucional.

Genauto França Filho chamou atenção para a invisibilidade histórica dessas práticas. Para ele, muitas iniciativas não apenas surgem e desaparecem, mas também existem há anos sem reconhecimento público suficiente.

“Sobre o universo das práticas de finança solidária reside uma espécie de invisibilidade histórica”, afirmou.

Segundo Genauto, construir um sistema nacional é uma forma de dar um “salto institucional” a experiências que já demonstram capacidade de organizar outra relação com o dinheiro. Para ele, as finanças solidárias se diferenciam das finanças tradicionais por trabalharem com solidariedade, democracia, autogestão e relações de proximidade.

“As finanças solidárias se distinguem fundamentalmente das finanças convencionais pelo fato de trabalhar com dois princípios que são fundamentais: a solidariedade e a democracia”, explicou.

O professor ressaltou que esses princípios não são valores abstratos, mas práticas cotidianas. A gestão coletiva dos recursos, segundo ele, produz aprendizado político, participação e vínculos comunitários. Nesse sentido, o dinheiro deixa de ser apenas instrumento de mercado e pode ser tratado como bem comum.

“Imagine a capacidade que temos de transformar até mesmo aquele grande ícone do capitalismo, o dinheiro, em um bem comum”, afirmou.

Leonora Mol destacou que bancos comunitários, fundos rotativos e cooperativas de crédito solidário são experiências diferentes, mas complementares. Para ela, o SINAFIS deve reconhecer essa diversidade e criar condições para que os territórios sejam protagonistas da política de finanças solidárias.

“Nós somos diversos e nós nos complementamos”, afirmou.

Ao discutir o endividamento das famílias e os limites do crédito tradicional, Leonora defendeu que o crédito solidário não pode ser reduzido ao empréstimo financeiro. Para ela, trata-se de uma prática coletiva, ligada ao planejamento comunitário e à transformação da vida nos territórios.

“Não é crédito por crédito. É um crédito que vai transformar não só a vida dessa família, mas a vida de uma comunidade”, disse.

Barbara Schmidt também diferenciou os fundos rotativos solidários do crédito bancário convencional. Segundo ela, essas experiências costumam incluir acompanhamento, formação, autogestão, prazos flexíveis e, em muitos casos, ausência de juros. Em comunidades rurais, afirmou, há fundos que sequer trabalham com dinheiro, mas com sementes, animais ou outros bens compartilhados.

Para Barbara, uma das tarefas do SINAFIS é articular melhor essas práticas e evitar que os recursos produzidos nos territórios sejam capturados pelo sistema financeiro convencional. Ela defendeu mecanismos capazes de manter a riqueza circulando nas comunidades, além de uma coordenação nacional descentralizada, com representação das experiências de base.

A necessidade de transformar o SINAFIS em política de Estado também foi debatida. Genauto afirmou que a própria construção do sistema já é parte dessa estratégia, pois busca criar ambiente institucional, marco legal e reconhecimento público para formas econômicas que não se submetem integralmente à lógica do mercado financeiro tradicional.

“Alguém conhece algum setor produtivo privado de mercado que tenha nascido, crescido e se desenvolvido sem apoio público?”, questionou.

Para ele, a economia solidária precisa disputar reconhecimento institucional e mostrar seus resultados concretos. A construção do sistema, disse, passa por diálogo, articulação legislativa e convencimento social.

Leonora Mol reforçou essa perspectiva ao lembrar a ida de representantes dos bancos comunitários ao Congresso Nacional. Segundo ela, quando as experiências dos territórios são apresentadas, despertam interesse mesmo entre pessoas de diferentes partidos.

Ao final, a coordenadora da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais resumiu a disputa em torno do SINAFIS com uma frase que sintetiza a posição das finanças solidárias diante do sistema financeiro tradicional.

“Nós não vamos estar na lacuna. Nós somos o sistema”, afirmou.

A estreia do Bancos da Democracia na Rádio Ceará FM 87,1 também foi destacada durante o programa. A transmissão amplia o alcance do debate sobre economia solidária e leva a discussão sobre bancos comunitários, moedas sociais, fundos rotativos e cooperativas de crédito solidário a novos públicos.

A edição mostrou que o Sistema Nacional de Finanças Solidárias não é apenas uma proposta técnica. É uma tentativa de organizar, dar escala e proteger práticas que já sustentam territórios, fortalecem vínculos comunitários e oferecem alternativas ao endividamento produzido pelo crédito tradicional.

Referências

Livro citado
Solidariedade e Organizações: pensar uma outra gestão, de Genauto França Filho

Instituições e iniciativas citadas
Banco Palmas
Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais
Rede Brasileira de Fundos Solidários
Incubadora Tecnológica de Economia Solidária e Gestão do Desenvolvimento Territorial da UFBA
Secretaria Nacional de Economia Solidária
Banco do Nordeste
BNDES
Programa de Apoio a Projetos Produtivos Solidários
Sistema Nacional de Finanças Solidárias
Lei Paul Singer de Economia Solidária

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