“Nós deficientes temos que ser protagonistas da nossa própria história”, diz escritora cearense

Kátia Vasconcelos relata trajetória marcada por uma doença rara, perdas familiares, superação do câncer e defesa dos direitos das pessoas com deficiência

Da Redação

A escritora cearense Kátia Vasconcelos foi a convidada da edição de 29 de maio do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, na TV Atitude Popular. Durante a entrevista, a autora compartilhou sua trajetória de vida, os desafios enfrentados como pessoa com deficiência e o processo de escrita do livro Sobrevivi para contar nossa história.

Moradora de Fortaleza, Kátia convive desde o nascimento com uma doença genética rara conhecida popularmente como “ossos de vidro”, condição que provoca extrema fragilidade óssea e sucessivas fraturas. Em sua obra autobiográfica, ela narra a história da própria família e transforma experiências de dor, resistência e afeto em uma mensagem de esperança para outras pessoas.

Segundo a escritora, a decisão de registrar sua trajetória surgiu da necessidade de preservar uma memória familiar marcada pela luta. “Comecei a escrever minhas memórias em papéis. Fui construindo aos poucos e tive coragem de colocar para frente. O livro saiu e hoje está aí para inspirar outras pessoas”, afirmou.

A autora explica que a publicação percorre diferentes momentos de sua vida, desde a infância no município de Massapê até os desafios da vida adulta. Entre os capítulos, estão relatos sobre as irmãs que compartilhavam a mesma condição genética. Das três filhas da família afetadas pela doença, apenas Kátia permanece viva.

Ela recordou que, apesar das limitações físicas, a infância foi marcada pelo convívio com amigos e pela ausência de preconceitos explícitos. As dificuldades mais graves estavam relacionadas às constantes fraturas e à falta de acesso a serviços especializados de saúde no interior cearense durante as décadas de 1960 e 1970.

“Nós vivíamos como crianças normais. Participávamos das brincadeiras, convivíamos com os amigos e tínhamos uma vida feliz, apesar das dificuldades”, contou.

A morte da irmã Márcia, aos 15 anos, representou uma mudança profunda em sua trajetória. Até então, as duas permaneciam praticamente inseparáveis. Após a perda, Kátia decidiu retomar os estudos e ingressou na escola pela primeira vez aos 13 anos.

A conquista dos diplomas escolares tornou-se um marco simbólico. Para ela, cada certificado recebido carregava também a memória da irmã, que havia aprendido a ler apesar das limitações impostas pela doença.

“Receber meu diploma foi uma felicidade enorme. Era como se eu estivesse homenageando minha irmã. Ela enfrentou tantas dificuldades e eu consegui continuar essa caminhada”, relembrou.

Durante a entrevista, Kátia destacou que as barreiras mais significativas começaram a surgir quando passou a frequentar espaços urbanos maiores. A mudança para Fortaleza revelou obstáculos relacionados à acessibilidade, mobilidade urbana e cumprimento das legislações voltadas às pessoas com deficiência.

Segundo ela, a falta de infraestrutura adequada continua sendo um dos principais desafios enfrentados diariamente.

“As calçadas são terríveis. Muitas vezes não conseguimos circular pela cidade porque os espaços não foram pensados para todos. Existe legislação, mas ela nem sempre é cumprida”, observou.

Além da deficiência física, Kátia enfrentou outra batalha importante ao ser diagnosticada com câncer de mama. Sem histórico da doença na família, recebeu o diagnóstico como uma surpresa. O tratamento incluiu mastectomia total e um longo período de recuperação.

Mesmo diante das dificuldades, ela atribui a superação à fé, à determinação pessoal e ao apoio recebido da família e dos profissionais de saúde.

“O tratamento não foi fácil, mas consegui vencer. Já se passaram dez anos e estou aqui para contar essa história”, afirmou.

Outra perda marcante foi a morte repentina da tia que cuidou dela e das irmãs durante a infância. Após o falecimento da familiar, Kátia precisou aprender a desenvolver maior autonomia e reconstruir a própria rotina.

Ao longo da conversa, a escritora também destacou a importância da organização coletiva das pessoas com deficiência e do conhecimento sobre os direitos garantidos pela legislação brasileira e pelos tratados internacionais.

“Nós deficientes temos que ser protagonistas da nossa própria história. Temos voz, temos vez e temos direitos. Precisamos conhecer essas leis e lutar para que elas sejam respeitadas”, declarou.

A autora ressaltou ainda que pessoas com deficiência trabalham, constituem famílias, estudam, produzem cultura e participam da vida social, mas frequentemente encontram barreiras físicas e preconceitos que limitam sua plena participação na sociedade.

Ao falar diretamente para pessoas que enfrentam dificuldades, Kátia deixou uma mensagem de perseverança.

“Não desistam jamais. Todos nós temos força e coragem. Os obstáculos existem, mas é possível seguir em frente. Nunca permitam que ninguém diga que vocês não são capazes.”

O livro Sobrevivi para contar nossa história foi lançado em Fortaleza e também em Massapê. Segundo a autora, a primeira tiragem está praticamente esgotada, e uma segunda edição já está sendo preparada diante da boa recepção dos leitores.

Além da literatura, Kátia dedica-se ao artesanato, ao crochê e à pintura. Ela mantém contato com leitores por meio das redes sociais e segue empenhada em ampliar o debate sobre inclusão, acessibilidade e cidadania.

Referências

Livro: Sobrevivi para contar nossa história — Kátia Vasconcelos

https://www.youtube.com/watch?v=c-rOThu0H7A

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