Jurista defende mobilização popular, participação da juventude e fortalecimento da comunicação independente para enfrentar a extrema direita e ampliar o diálogo com trabalhadores no segundo turno
O jurista e analista político Jorge Folena defendeu a intensificação da mobilização popular, a ampliação do diálogo com trabalhadores e o uso estratégico das redes sociais como caminhos para enfrentar a extrema direita nas eleições de 2026. Em participação no programa Trilhas da Soberania, exibido pelo canal Código Aberto em 8 de outubro, ele analisou o resultado do primeiro turno, criticou a concentração dos meios de comunicação e apontou a organização de base como um fator decisivo para a disputa política.
A conversa foi apresentada por Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, e contou com a participação do pesquisador Reynaldo Aragon, ligado à Universidade Federal Fluminense, ao NEECC e ao INCT-DSI, além do jornalista e advogado Luís Delcides, do canal Satélite de Ideias. Ao longo do debate, os participantes discutiram a conjuntura eleitoral, o crescimento da extrema direita, a atuação dos meios de comunicação e a necessidade de construir estratégias que ultrapassem os públicos já convencidos.
“Nós não temos saída. A saída nossa é lutar”, afirmou Folena ao defender que o campo democrático e popular mantenha a mobilização mesmo diante das dificuldades políticas e eleitorais. Para o jurista, o resultado do primeiro turno deve servir de ponto de partida para uma reorganização da ação política, com mais presença nas ruas e nas redes e maior disposição para conversar com eleitores que ainda não decidiram seu voto ou que apoiam adversários do Presidente Lula.
Juventude ocupa as ruas e desafia o pessimismo
Um dos momentos destacados por Folena foi a participação de estudantes em manifestações realizadas no período posterior ao primeiro turno. Segundo ele, a presença expressiva de jovens nas ruas contrariou a percepção, recorrente em setores progressistas, de que a juventude estaria distante da política ou pouco mobilizada.
O jurista relatou ter participado de uma manifestação estudantil no Rio de Janeiro e descreveu a movimentação de jovens de diferentes idades, incluindo estudantes secundaristas e universitários. Ele também mencionou mobilizações em outras cidades, citando Nova Friburgo, onde, segundo os participantes do programa, houve concentração de manifestantes apesar do perfil conservador atribuído ao município.
Para Folena, a mobilização estudantil demonstrou que a capacidade de organização permanece presente na sociedade e pode impulsionar outras parcelas da população. Em sua avaliação, parte do campo progressista reagiu ao resultado eleitoral com excesso de pessimismo e críticas internas, enquanto estudantes e militantes passaram rapidamente à ação.
O jurista questionou a insistência em procurar responsáveis pela derrota ou em prolongar o debate sobre erros da campanha, sem apresentar propostas concretas para o segundo turno. Ele defendeu que a energia política seja direcionada à construção de iniciativas capazes de ampliar a participação popular e aproximar o debate eleitoral de problemas cotidianos, como renda, trabalho, educação e condições de vida.
A presença de jovens nas manifestações também foi associada por Folena à continuidade histórica das lutas sociais. Ele ressaltou que a participação política das novas gerações pode beneficiar pessoas que ainda não nasceram ou que não têm, no presente, condições de participar diretamente dessas mobilizações.
Comunicação precisa chegar a quem ainda não está convencido
A disputa pela comunicação ocupou parte central do programa. Folena argumentou que os setores progressistas precisam ir além da produção de conteúdo destinado a quem já apoia o Presidente Lula. Para ele, o desafio é alcançar pessoas que circulam em ambientes sociais diferentes e que recebem informações predominantemente de fontes alinhadas à direita.
O jurista destacou uma proposta apresentada pelo comunicador Luiz Portinho: produzir vídeos curtos, de aproximadamente 30 segundos a um minuto, explicando por que votar no Presidente Lula e compartilhá-los diariamente em grupos de WhatsApp da família, de colegas de trabalho, da escola, de clubes e de outras redes de convivência.
A ideia, segundo Folena, é usar relações pessoais para ampliar o alcance de informações e argumentos que dificilmente chegariam a determinados públicos por meio dos canais habituais. Ele defendeu que os vídeos sejam compartilhados com regularidade, inclusive em grupos nos quais haja discordância política, para estimular conversas e apresentar os temas da eleição a pessoas que permanecem fora do debate promovido pelos veículos progressistas.
O jurista também sugeriu ampliar as parcerias entre perfis e canais, por meio de publicações colaborativas, e combinar a atuação nas redes com conversas presenciais. A proposta parte do reconhecimento de que os algoritmos tendem a reforçar a circulação de conteúdos entre públicos semelhantes, o que torna mais difícil alcançar eleitores que já têm posições consolidadas.
A estratégia, portanto, exige identificar canais e interlocutores capazes de romper esse isolamento. Em vez de concentrar esforços apenas em publicações para a própria base, Folena defendeu uma comunicação que leve as mensagens a grupos familiares, ambientes de trabalho e espaços de convivência nos quais as opiniões políticas podem ser discutidas diretamente.
Concentração dos meios e limites das redes sociais
Folena relacionou as dificuldades de alcance da comunicação progressista à concentração dos meios de divulgação e ao poder econômico dos grupos que controlam plataformas digitais. Na avaliação apresentada durante o programa, a diferença de recursos entre os campos políticos não se limita ao período oficial de campanha: ela se manifesta na capacidade de manter estruturas de comunicação em funcionamento ao longo dos anos.
O jurista argumentou que setores da direita mantiveram suas redes de mobilização ativas entre uma eleição e outra, enquanto a esquerda teria concentrado parte significativa de seus esforços comunicacionais nos períodos eleitorais. Ele criticou a ausência de um trabalho contínuo de diálogo com a sociedade durante o governo e defendeu a criação de redes capazes de sustentar a participação política para além das disputas nas urnas.
A discussão também envolveu o papel da mídia corporativa na cobertura dos acontecimentos. Folena citou manifestações estudantis no Rio de Janeiro e questionou a falta de destaque que, segundo ele, os atos receberam nos grandes veículos. Em sua avaliação, a diferença de visibilidade entre manifestações de orientação política distinta interfere na percepção pública sobre a mobilização social.
A crítica se estendeu às plataformas digitais, cujo funcionamento e cujos critérios de distribuição de conteúdo, segundo os participantes, representam um obstáculo para iniciativas independentes. O debate apontou a necessidade de compreender melhor esses mecanismos e de desenvolver alternativas de circulação de informação.
Folena insistiu que a resposta não pode se limitar à denúncia dos problemas. Para ele, é necessário investir na produção independente, fortalecer canais próprios e compartilhar conteúdos de maneira coordenada. Nesse contexto, destacou a importância de iniciativas como o Código Aberto e outros veículos progressistas, que precisam de público e apoio financeiro para manter suas atividades.
Segundo turno exige debate sobre condições de vida
Ao analisar a disputa eleitoral, Folena defendeu que a campanha seja orientada por temas concretos, capazes de dialogar com as necessidades da classe trabalhadora. Ele criticou o que considerou uma despolitização do debate eleitoral, marcado, em sua avaliação, por assuntos institucionais e escândalos que acabaram ocupando espaço superior à discussão sobre os programas dos candidatos.
O jurista questionou a falta de debate público sobre as propostas de Flávio Bolsonaro e sustentou que o eleitor precisa conhecer as consequências práticas de cada projeto político. Em sua avaliação, o campo progressista deve apresentar argumentos claros sobre os efeitos das políticas defendidas pela extrema direita na vida dos trabalhadores, sem depender apenas de discursos dirigidos a quem já compartilha suas posições.
Entre os temas que poderiam ganhar centralidade, Folena mencionou o fim da escala de trabalho 6 por 1 e a regulação das apostas eletrônicas. Durante a conversa, ele defendeu que propostas relacionadas a essas questões sejam colocadas no centro da agenda pública, por envolverem tempo de descanso, saúde financeira das famílias e condições de trabalho.
A discussão incluiu sugestões sobre o uso de medidas governamentais para estimular o debate e pressionar o Congresso a se posicionar. Essas propostas foram apresentadas como opiniões dos participantes, em uma conversa política sobre as alternativas disponíveis para o segundo turno, e não como decisões já tomadas pelo governo.
Folena também argumentou que a eleição do Presidente Lula é importante para preservar um equilíbrio entre as instituições, diante da composição do Congresso Nacional. Na leitura do jurista, uma vitória da extrema direita na Presidência, somada à força parlamentar que ela já possui, poderia ampliar sua capacidade de promover mudanças institucionais e reduzir os espaços de atuação das forças democráticas.
A disputa eleitoral e os interesses econômicos
A análise de Folena situou a eleição de 2026 em uma disputa mais ampla pelo poder político e econômico. O jurista descreveu os setores populares como a maioria social que enfrenta grupos com maior capacidade de influência sobre as instituições, os meios de comunicação e o financiamento da política.
Durante o programa, os participantes também abordaram relatos sobre a atuação de interesses estrangeiros e o uso de estratégias digitais no cenário eleitoral brasileiro. As referências foram apresentadas no contexto da discussão sobre soberania nacional, influência externa e guerra psicológica, temas recorrentes no trabalho de pesquisa de Reynaldo Aragon. As alegações mencionadas na conversa não foram verificadas de forma independente nesta matéria e devem ser compreendidas como parte das análises e preocupações expressas pelos participantes.
Folena ressaltou que a desigualdade de recursos e de alcance não elimina a possibilidade de mobilização popular. Ele lembrou que movimentos sociais e forças políticas populares enfrentam disputas semelhantes há décadas e sustentou que a organização coletiva pode abrir caminhos mesmo em condições desfavoráveis.
O jurista também criticou a postura de setores da burocracia estatal que, segundo sua avaliação, se distanciam das demandas populares ao priorizar uma concepção de Estado apartada dos interesses da população. Em sua análise, os serviços públicos e as instituições precisam manter compromisso com a sociedade que os financia, especialmente com os trabalhadores que sustentam o sistema tributário por meio do consumo e de despesas essenciais.
Conversar sem abrir mão das convicções
Outro ponto importante da entrevista foi a defesa de uma comunicação política capaz de alcançar pessoas que votam na direita sem tratá-las como adversárias irrecuperáveis. Folena argumentou que parte dos trabalhadores que apoia o bolsonarismo compartilha problemas materiais com aqueles que votam no campo progressista e pode ser alcançada por conversas baseadas em experiências concretas.
Ele relatou situações de diálogo com pessoas de posições políticas divergentes e defendeu que o debate sobre a eleição inclua histórias de vida, direitos sociais e oportunidades de acesso à educação. Para o jurista, apresentar resultados e políticas públicas de forma compreensível pode contribuir para questionar preconceitos e informações falsas.
Folena mencionou, como exemplo, famílias cujos filhos ingressaram em universidades públicas por meio de políticas de acesso e ações afirmativas. Na avaliação dele, experiências como essas ajudam a explicar como determinadas políticas podem modificar as perspectivas de vida de trabalhadores e de seus filhos.
Ao tratar do Presidente Lula, o jurista também defendeu uma campanha que apresente propostas e ações concretas, em vez de se restringir a acusações genéricas contra adversários. Ele sustentou que o campo progressista deve falar diretamente sobre as consequências de cada projeto político, com argumentos que possam ser compreendidos fora dos círculos militantes.
A defesa do diálogo, no entanto, veio acompanhada de críticas duras a Flávio Bolsonaro. Folena questionou a trajetória política do senador e suas propostas, além de mencionar suspeitas e relatos relacionados a suas ligações políticas. Essas afirmações integram a avaliação do entrevistado e não substituem a necessidade de distinguir fatos documentados, investigações e opiniões políticas.
Soberania também depende de participação popular
O episódio de Trilhas da Soberania terminou com um apelo à continuidade da mobilização e ao fortalecimento dos canais de comunicação independentes. Ao longo da conversa, Folena sustentou que a disputa eleitoral não pode ser tratada como uma tarefa restrita às direções partidárias ou aos profissionais contratados para campanhas.
Para ele, militantes, estudantes, trabalhadores, comunicadores e cidadãos organizados têm papel decisivo na circulação de informações e na construção de argumentos capazes de alcançar outros públicos. A proposta de produzir vídeos curtos, compartilhar conteúdos em grupos de convivência e estabelecer parcerias entre canais foi apresentada como uma forma prática de transformar a preocupação política em ação cotidiana.
A conversa também reforçou a importância de manter espaços de análise sobre a relação entre poder econômico, comunicação e democracia. Na perspectiva defendida pelos participantes, a soberania nacional depende de instituições democráticas, de uma população informada e da capacidade de a sociedade participar das decisões que afetam seu futuro.
A mensagem central de Folena foi que o resultado do primeiro turno não encerra a disputa e que o enfrentamento à extrema direita exige organização, persistência e diálogo. Ao colocar a mobilização estudantil e a comunicação popular no centro da discussão, o jurista defendeu que a reação política seja construída de baixo para cima, com participação social e presença permanente nos espaços em que a opinião pública se forma.
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