Da Redação
O novo acordo de defesa firmado por Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia amplia significativamente a presença militar americana no território e reabre uma discussão que remete diretamente à Guerra Fria. Assinado em 22 de setembro, o pacto permite aos Estados Unidos modernizar e ampliar suas atividades na Base Espacial de Pituffik e estabelecer novas áreas de defesa em Narsarsuaq, no sul da ilha, e Mestersvig, no leste. O texto também prevê a possibilidade de criação de outras áreas militares mediante acordo entre as partes.
O acordo amplia ainda o acesso de aeronaves americanas ao território groenlandês e estabelece condições para a movimentação de embarcações públicas dos Estados Unidos nas águas territoriais. A justificativa apresentada pelas partes é reforçar a defesa da Groenlândia, do Atlântico Norte e do continente americano diante da mudança no ambiente de segurança do Ártico. O documento menciona também a participação americana na construção do sistema de defesa antimísseis Golden Dome.
A novidade, porém, não está apenas na dimensão militar do pacto. A Groenlândia já foi uma das principais plataformas avançadas dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. A região abrigou dezenas de instalações e projetos militares, entre eles uma base subterrânea movida por energia nuclear e um plano secreto para instalar centenas de mísseis nucleares sob o gelo.
Parte dos resíduos deixados por esse período continua no território.
A cidade construída sob o gelo
Um dos episódios mais singulares dessa história foi Camp Century, uma instalação militar construída pelo Exército americano no noroeste da Groenlândia no fim dos anos 1950.
O complexo foi instalado sob a camada de gelo e recebeu alojamentos, laboratórios, oficinas e outras estruturas para abrigar militares e pesquisadores. A eletricidade e o aquecimento eram fornecidos por um pequeno reator nuclear, o PM-2A, que operou durante os primeiros anos da década de 1960. Documentos técnicos americanos descrevem Camp Century como um experimento para avaliar a construção e a manutenção de instalações militares no interior da calota de gelo.
Havia, entretanto, um objetivo militar que permaneceu secreto por décadas.
Camp Century serviu como laboratório para o Project Iceworm, um plano do Exército americano para instalar sob o gelo da Groenlândia uma extensa rede de túneis e posições de lançamento de mísseis nucleares. A proposta previa até 600 mísseis distribuídos por uma rede subterrânea de milhares de quilômetros, com posições que poderiam ser alteradas para dificultar sua localização pela União Soviética.
O projeto não chegou a ser implementado. Estudos militares concluíram que a movimentação da camada de gelo tornaria a manutenção das estruturas muito mais difícil do que inicialmente previsto. O Iceworm acabou abandonado, e Camp Century foi desativado posteriormente.
O reator também foi retirado.
Mas parte dos resíduos produzidos durante a operação permaneceu no local. Um relatório apresentado pela Dinamarca à Agência Internacional de Energia Atômica registra que resíduos radioativos líquidos foram descartados em uma estrutura aberta no gelo durante o funcionamento do reator. O documento também descreve o funcionamento do sistema de descarte e os limites estabelecidos para essas operações na época.
O problema ganhou uma dimensão adicional com as mudanças ambientais na Groenlândia. A instalação foi construída partindo da premissa de que permaneceria permanentemente coberta pelo gelo. O comportamento futuro da camada glacial é, por isso, relevante para estudos sobre o destino dos materiais abandonados no local.
A história de Camp Century não ficou restrita aos arquivos da Guerra Fria. Parte do material associado àquela experiência continua fisicamente sob o gelo groenlandês.
O acidente nuclear de Thule
A presença militar americana na Groenlândia também esteve ligada a operações nucleares muito mais diretas.
Em 21 de janeiro de 1968, um bombardeiro B-52 americano que transportava quatro armas nucleares caiu sobre o gelo próximo à Base Aérea de Thule, hoje conhecida como Pituffik Space Base. O acidente ocorreu depois de um incêndio a bordo da aeronave.
As armas não produziram uma explosão nuclear. Os explosivos convencionais presentes nas bombas, contudo, foram detonados pelo impacto e espalharam material radioativo, incluindo plutônio, pela região. Estados Unidos e Dinamarca realizaram posteriormente uma grande operação de remoção de gelo e destroços contaminados.
Documentos oficiais americanos e estudos dinamarqueses registram a dispersão de plutônio e outros materiais radioativos no ambiente após o acidente. O episódio ficou conhecido como acidente de Thule ou Project Crested Ice.
O caso tornou-se também um dos capítulos mais controversos da relação entre a população groenlandesa, a Dinamarca e os Estados Unidos durante a Guerra Fria. A presença militar americana era parte de uma estratégia que colocava a ilha em posição central na defesa do Atlântico Norte, enquanto decisões sobre as instalações eram tomadas em grande medida por Copenhague e Washington.
O retorno a antigos pontos militares
O novo acordo recupera locais que já tiveram importância para as operações americanas.
Narsarsuaq, no sul da Groenlândia, abrigou uma instalação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial. Mestersvig, no leste, também possui histórico de presença e infraestrutura militar. Pelo novo pacto, ambos passam a integrar as áreas que poderão receber presença americana.
Pituffik continua sendo a principal instalação militar americana no território. A base, que durante décadas foi conhecida como Thule Air Base, tem importância para sistemas de alerta e monitoramento no extremo norte.
A diferença é que a expansão atual ocorre dentro de um acordo que envolve diretamente Estados Unidos, Dinamarca e governo da Groenlândia e que incorpora a atuação da Otan no Ártico. O texto prevê planejamento conjunto, exercícios, presença militar e compartilhamento de inteligência entre os países da aliança.
O acordo também reconhece expressamente a soberania e a integridade territorial do Reino da Dinamarca e o direito do povo groenlandês à autodeterminação. Caso a Groenlândia se torne independente, o documento prevê que o novo Estado deverá permanecer na Otan e assumir as obrigações previstas no acordo de defesa.
O pacto ainda precisa cumprir procedimentos parlamentares na Dinamarca e na Groenlândia para entrar em vigor. O texto não estabelece prazo de encerramento e prevê que alterações dependam de consentimento mútuo.
Por que a Groenlândia voltou a ser estratégica?
A importância militar da Groenlândia está ligada, em primeiro lugar, à geografia.
A ilha ocupa uma posição entre a América do Norte, o Atlântico Norte e as rotas que conectam o Ártico à Europa. Durante a Guerra Fria, essa localização foi fundamental para sistemas de alerta, aviação estratégica e monitoramento das atividades soviéticas.
O contexto mudou, mas a localização permaneceu.
O derretimento do gelo e a transformação das condições de navegação também aumentaram a atenção de Estados Unidos, Rússia, Dinamarca, China e outros países sobre o Ártico. A região passou a ser observada simultaneamente como espaço de segurança militar, circulação marítima, exploração econômica e disputa por influência. A Dinamarca afirmou recentemente que espera uma presença permanente da Otan no Ártico após o novo acordo.
Mestersvig tem importância adicional por sua posição no leste da Groenlândia. Segundo a Reuters, o local pode ser utilizado para presença americana e tem infraestrutura capaz de receber aeronaves de transporte militar. A posição também é relevante para o monitoramento das rotas marítimas do Atlântico Norte.
O novo pacto, portanto, não representa simplesmente a reabertura de bases abandonadas.
Ele amplia a capacidade de atuação americana na Groenlândia e insere essa presença em uma estratégia mais ampla da Otan para o Ártico.
Uma nova fase depois da crise sobre a soberania
O acordo também encerra, ao menos no plano formal, uma fase de forte tensão entre Washington, Copenhague e Nuuk.
Durante seu segundo mandato, Donald Trump retomou a ideia de que os Estados Unidos deveriam adquirir a Groenlândia. A proposta foi rejeitada por autoridades dinamarquesas e groenlandesas e provocou preocupação sobre as intenções americanas em relação ao território.
O pacto firmado agora segue outro caminho.
A Groenlândia continua sob soberania dinamarquesa, enquanto os Estados Unidos ampliam seus direitos militares por meio de um acordo negociado com os governos dinamarquês e groenlandês. A documentação também estabelece que as atividades americanas devem respeitar a sociedade groenlandesa e seu modo de vida, incluindo caça, pesca e outras atividades tradicionais.
Na prática, isso significa uma ampliação importante da presença militar americana sem transferência de soberania.
O governo americano apresenta o acordo como um reforço permanente da segurança do Ártico e da defesa da América do Norte. A Dinamarca o enquadra no fortalecimento da Otan na região. Na Groenlândia, autoridades destacaram possíveis benefícios econômicos, mas também permanecem preocupações sobre os efeitos de uma maior presença militar sobre comunidades locais e atividades tradicionais.
O que permanece sob o gelo
A dimensão histórica do novo acordo está justamente naquilo que ele não menciona diretamente: a experiência anterior da militarização americana da Groenlândia deixou consequências materiais que ainda são estudadas.
Camp Century permanece como um caso emblemático. O local foi apresentado publicamente como uma instalação científica e tecnológica, enquanto documentos posteriormente desclassificados revelaram sua ligação com o Project Iceworm e com os planos americanos de instalar mísseis nucleares sob a calota de gelo.
O acidente de Thule deixou outra marca. Em 1968, uma aeronave americana carregando quatro armas nucleares caiu sobre o gelo e espalhou plutônio e outros materiais radioativos na região. A operação de limpeza envolveu autoridades americanas e dinamarquesas e gerou décadas de estudos e controvérsias.
O novo acordo não significa que esses episódios estejam sendo repetidos. As circunstâncias militares e políticas são diferentes, e o pacto atual inclui disposições específicas sobre proteção ambiental e respeito às atividades tradicionais da população groenlandesa.
Durante a Guerra Fria, a justificativa era conter a União Soviética. Hoje, o argumento oficial envolve uma combinação de defesa do Atlântico Norte, atuação da Otan, monitoramento do Ártico e proteção do continente americano diante de uma região considerada cada vez mais estratégica.
A posição geográfica da Groenlândia, entretanto, continua a mesma. E, sob o gelo, permanecem vestígios de uma fase anterior em que a disputa entre grandes potências transformou a ilha em uma das áreas militares mais sensíveis do planeta.


