Especialista alerta que armas produzidas no exterior fortalecem facções criminosas e defende política nacional integrada de segurança pública
Da Redação
A origem internacional das armas que abastecem organizações criminosas no Brasil esteve no centro da edição do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, exibida nesta terça-feira (15). Com base em dados recentes e em uma análise geopolítica do tráfico internacional de armamentos, o programa discutiu como a circulação de armas produzidas no exterior, especialmente nos Estados Unidos, alimenta o poder de fogo das facções criminosas e amplia os desafios da segurança pública brasileira.
Durante a entrevista, o especialista em Relações Globais e Direito Penal Internacional Fauzi Hassan Choukr analisou os fatores que sustentam esse mercado clandestino e defendeu que o enfrentamento ao crime organizado exige cooperação internacional, fortalecimento do controle de fronteiras e uma política nacional de segurança pública articulada entre União e estados. As informações debatidas partiram de estudos e reportagens mencionados ao longo da entrevista, incluindo dados divulgados pela BBC e por veículos nacionais sobre o fluxo internacional de armamentos.
Segundo Choukr, uma das maiores fragilidades do debate público está justamente na pouca atenção dada à origem das armas utilizadas pelas organizações criminosas.
“No assunto do crime organizado, o crime organizado vai muito bem, obrigado.”
Para o jurista, a violência praticada pelas facções costuma ser discutida apenas sob a perspectiva da repressão policial, enquanto a cadeia internacional que abastece esses grupos permanece relativamente invisível no debate público.
A maioria das armas apreendidas vem do exterior
Ao comentar operações recentes de segurança pública no Rio de Janeiro, Fauzi Hassan Choukr destacou que a maior parte dos armamentos apreendidos possui fabricação estrangeira.
Segundo ele, aproximadamente 94,6% das armas apreendidas em uma grande operação realizada em 2025 tinham procedência internacional, sendo cerca de 60% fabricadas nos Estados Unidos.
Na avaliação do especialista, esses números revelam que o fortalecimento das facções depende de uma estrutura transnacional muito mais ampla do que normalmente aparece nas discussões sobre segurança pública.
O crescimento das “armas fantasmas”
Outro ponto abordado durante a entrevista foi a expansão das chamadas ghost guns, conhecidas como “armas fantasmas”.
Em vez de atravessarem as fronteiras completamente montadas, esses armamentos chegam ao Brasil na forma de componentes separados, adquiridos principalmente pela internet. Como as peças individualmente não são classificadas como armas completas, conseguem escapar de parte dos controles alfandegários.
Depois de montadas em território brasileiro, essas armas passam a abastecer organizações criminosas.
Segundo Choukr, o lucro obtido nesse mercado clandestino é extremamente elevado, podendo transformar componentes comprados por alguns milhares de reais em armamentos revendidos por cerca de R$ 50 mil.
Paraguai permanece como principal corredor do contrabando
Durante a entrevista, o especialista também chamou atenção para o papel estratégico do Paraguai nas rotas internacionais de armas destinadas ao Brasil.
Segundo ele, o país continua funcionando como um dos principais corredores logísticos utilizados pelo crime organizado.
Choukr afirmou ainda que acordos recentes entre Estados Unidos e Paraguai merecem atenção por ampliarem a presença norte-americana na região, o que, em sua avaliação, produz novos elementos geopolíticos que precisam ser acompanhados por pesquisadores e autoridades brasileiras.
Terrorismo e organizações criminosas não são a mesma coisa
A entrevista também abordou a recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas.
Para Choukr, embora o impacto da violência seja semelhante para a população atingida, existe uma diferença jurídica importante entre terrorismo e organizações criminosas.
O terrorismo possui características específicas ligadas, em geral, a motivações políticas, ideológicas, religiosas ou étnicas, enquanto as facções brasileiras estão enquadradas no conceito jurídico de organizações criminosas.
Segundo ele, a utilização política desses conceitos acaba desviando a atenção de um problema mais concreto: a circulação internacional de armas que abastece esses grupos.
Segurança pública exige coordenação nacional
Ao longo da conversa, Fauzi Hassan Choukr defendeu a criação de mecanismos permanentes de integração entre União, estados e órgãos responsáveis pela fiscalização das fronteiras.
Na avaliação do especialista, o Brasil ainda não possui uma política nacional suficientemente coordenada para enfrentar o tráfico internacional de armas.
Ele também afirmou que o controle das fronteiras permanece insuficiente diante da sofisticação das redes criminosas responsáveis pela importação clandestina de armamentos.
Relações internacionais e enfraquecimento da diplomacia
A entrevista ampliou a discussão para o cenário internacional.
Choukr criticou decisões recentes da política externa norte-americana e afirmou que o fortalecimento de soluções militares em detrimento da diplomacia contribui para ampliar tensões internacionais.
O especialista também demonstrou preocupação com ataques dirigidos a organismos multilaterais e ao Tribunal Penal Internacional, defendendo que instituições internacionais continuam sendo instrumentos importantes para a resolução de conflitos, apesar de suas limitações.
Debate relaciona segurança pública, geopolítica e circulação global de armas
Durante o programa, os participantes defenderam que a violência enfrentada diariamente pela população brasileira não pode ser analisada apenas como um problema policial.
Na avaliação apresentada ao longo da entrevista, compreender as rotas internacionais de armas, o comércio global de armamentos, a cooperação entre países e os interesses econômicos envolvidos tornou-se indispensável para formular políticas públicas capazes de reduzir o poder das organizações criminosas.
Ao final do debate, Fauzi Hassan Choukr reiterou que o enfrentamento ao crime organizado depende tanto do fortalecimento das instituições brasileiras quanto de uma atuação internacional mais efetiva no combate ao tráfico de armas.
Referências
Relatório e reportagem sobre armas no Brasil
BBC News Brasil, 2025
Operação Contenção
Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, 2025
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