Eleição redesenha as duas Casas do Congresso, amplia a bancada do PL e promove uma renovação expressiva no Senado. Comparação com 2022 mostra mudança na distribuição das forças partidárias que condicionará o próximo governo, independentemente de quem vencer a Presidência
Da Redação
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro iniciam uma nova campanha para decidir quem ocupará o Palácio do Planalto, uma parte fundamental das eleições de 2026 já está resolvida. O Brasil escolheu no domingo os 513 deputados federais e renovou 54 das 81 cadeiras do Senado. O resultado produziu um Congresso diferente daquele eleito quatro anos atrás, com alterações importantes na distribuição das forças partidárias e, principalmente no Senado, uma substituição significativa de nomes. A mudança mais evidente foi o crescimento do PL, que terá a maior bancada da Câmara e, pela projeção atual, também a maior bancada do Senado a partir de fevereiro de 2027.
É uma transformação que provavelmente terá consequências mais duradouras do que sugere a atenção quase exclusiva dedicada à corrida presidencial. O próximo presidente governará durante quatro anos. Os senadores escolhidos agora permanecerão no Congresso durante oito, até 2035. Quando o Brasil realizar outra eleição presidencial, em 2030, os 54 senadores eleitos neste domingo estarão apenas na metade de seus mandatos. Por isso, compreender o resultado legislativo é fundamental para entender não apenas o governo que começará em 2027, mas parte da estrutura política brasileira da próxima década.
Na Câmara, o dado mais visível é o avanço do PL. O partido elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Casa. Em 2022, havia elegido 99. Embora diferentes bases institucionais apresentem pequenas variações na comparação histórica devido à maneira como contabilizam partidos e federações, a tendência é inequívoca: o PL ampliou consideravelmente sua presença. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, aparece como segunda força, com 82 deputados eleitos. A diferença entre os dois principais agrupamentos será, portanto, de 39 cadeiras.
O crescimento do PL, entretanto, não significa que o partido tenha conquistado o controle da Câmara. Esse é um ponto essencial para interpretar corretamente o resultado. São 513 deputados federais, e a maioria absoluta exige 257 votos. Com 121 parlamentares, o PL ocupará menos de um quarto das cadeiras. A Federação Brasil da Esperança também estará muito distante de uma maioria. Entre os dois polos continuará existindo um conjunto numeroso de partidos — União Brasil, MDB, PSD, Republicanos, PP e outras legendas — capaz de determinar o resultado de grande parte das votações.
É justamente aí que aparece uma característica de continuidade em meio à mudança. O eleitor alterou a correlação de forças, mas não acabou com a fragmentação partidária brasileira. O próximo presidente, seja Lula ou Flávio Bolsonaro, continuará precisando construir coalizões no Congresso para aprovar orçamento, projetos econômicos, mudanças tributárias, políticas sociais, reformas e, sobretudo, propostas de emenda à Constituição, que exigem três quintos dos votos em dois turnos em cada Casa.
Se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, encontrará seu próprio partido ocupando a maior bancada da Câmara e uma posição especialmente forte no Senado, mas isso não lhe dará votos suficientes para governar sozinho. Se Lula for reeleito, encontrará uma situação diferente daquela enfrentada no início do atual mandato: o principal partido de oposição chegará a 2027 com representação parlamentar maior. Em ambos os cenários, partidos intermediários continuarão tendo peso decisivo.
Uma Câmara que combina continuidade e mudança
O resultado também mostra que renovação parlamentar não significa necessariamente substituição generalizada de pessoas. Dos 513 deputados da próxima legislatura, 301 conseguiram a reeleição, segundo os números divulgados pela Câmara. Isso representa 58,6% dos parlamentares considerados nessa comparação. Em outras palavras, aproximadamente seis em cada dez permanecerão.
Ao mesmo tempo, mais de 200 cadeiras serão ocupadas por deputados que não integram esse grupo de reeleitos. É uma renovação relevante, mas muito distante de uma ruptura completa com a legislatura atual. A Câmara que tomará posse em fevereiro combinará uma grande quantidade de parlamentares experientes com novos deputados e, sobretudo, uma distribuição partidária diferente.
Essa distinção é importante porque uma legislatura pode mudar politicamente mesmo quando muitos de seus integrantes permanecem. Parlamentares trocam de partido, bancadas aumentam ou diminuem, federações modificam a organização das forças políticas e determinadas legendas passam a exercer um peso que não possuíam quatro anos antes. Foi exatamente isso que aconteceu agora.
Alguns nomes conhecidos também ficaram pelo caminho. Em São Paulo, José Dirceu tentou retornar à Câmara, mas terminou na suplência. O ex-presidente nacional do PT Rui Falcão também não conseguiu uma cadeira, assim como Paulo Teixeira e Vicentinho, figuras com longa trajetória parlamentar. Esses resultados não significam necessariamente o encerramento da atividade política dessas lideranças, mas mostram que a renovação atingiu personagens historicamente associados ao Congresso.
Ainda assim, é no Senado que a dimensão da mudança fica muito mais evidente.
O Senado que começa em 2027 será profundamente diferente
A eleição de 2026 renovou dois terços do Senado. Das 81 cadeiras da Casa, 54 estavam em disputa, enquanto os outros 27 senadores, eleitos em 2022, possuem mandato até 2031. Dos 32 senadores que tentaram diretamente conquistar mais oito anos no cargo, apenas 14 foram reeleitos. Dezoito foram derrotados.
Considerando o conjunto das vagas disputadas, 40 das 54 cadeiras terão ocupantes que não estavam sendo reeleitos para aqueles postos. Isso corresponde a aproximadamente 74% das vagas submetidas às urnas. É uma renovação muito grande, embora ainda inferior à registrada em 2018, quando 46 das 54 cadeiras em disputa trocaram de ocupante.
Entre aqueles que conseguiram permanecer estão políticos conhecidos de diferentes partidos, como Jaques Wagner e Humberto Costa, do PT; Carlos Portinho, Eduardo Gomes e Marcio Bittar, do PL; Eduardo Braga, Marcelo Castro e Veneziano Vital do Rêgo, do MDB; Cid Gomes, do PSB; e Alessandro Vieira, do MDB. Mas o aspecto mais importante da eleição não é simplesmente a permanência ou saída de indivíduos. É a reorganização partidária produzida pela votação.
O PL elegeu 19 dos 54 senadores escolhidos neste domingo. Somados aos integrantes da legenda que ainda possuem mandato, o partido deverá começar 2027 com uma bancada de 28 senadores. Segundo o levantamento histórico da própria Agência Senado, se essa composição permanecer até a posse, será a maior bancada de um único partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.
O recorde anterior pertencia ao então PMDB, que iniciou a legislatura de 1999 com 27 senadores. O PL deverá ultrapassá-lo por uma cadeira. O partido também estabeleceu outra marca ao eleger 19 senadores numa única eleição, superando o recorde anterior de 14 cadeiras conquistadas pelo PMDB em 1994 e 2010 e pelo antigo PFL em 2002.
É uma concentração expressiva. Mais de um terço das 54 cadeiras colocadas em disputa neste domingo foi conquistado pelo PL. Em cinco unidades da Federação — Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina — o partido conseguiu eleger simultaneamente os dois senadores.
O contraste com os demais partidos ajuda a dimensionar o resultado. A projeção para o início de 2027 coloca o PT com nove senadores e o MDB com oito. Entre o PL e a segunda maior bancada haverá, portanto, uma distância de 19 cadeiras. O PSD percorreu o caminho inverso: iniciou a atual legislatura com 15 senadores, chegou ao começo de 2026 com 13 e, pela composição projetada depois da eleição, deverá começar 2027 com cinco.
Isso altera substancialmente o equilíbrio interno do Senado. A Casa continuará plural — a projeção indica 13 bancadas partidárias —, mas terá uma legenda muito maior do que as demais. Ainda assim, os 28 senadores do PL não constituem maioria numa Casa de 81 integrantes. Assim como ocorrerá na Câmara, negociações com outras bancadas continuarão necessárias para aprovar matérias importantes.
A diferença é que o Senado possui atribuições institucionais que dão à nova configuração um peso particular. É a Casa responsável por analisar indicações presidenciais ao Supremo Tribunal Federal e a outras instituições, autorizar determinadas operações financeiras, julgar processos de impeachment e participar, em igualdade legislativa com a Câmara, da aprovação de leis e emendas constitucionais. Como os mandatos duram oito anos, a correlação de forças criada agora poderá atravessar mais de um governo.
A eleição também modificou a representação feminina. Doze mulheres foram eleitas senadoras, o maior número registrado numa única eleição para a Casa. Somadas às parlamentares que ainda possuem mandato, a bancada feminina deverá alcançar 18 integrantes em 2027. O caso mais emblemático ocorreu no Distrito Federal, onde Michelle Bolsonaro e Bia Kicis conquistaram as duas vagas em disputa. Como Damares Alves tem mandato até 2031, a representação do Distrito Federal no Senado será formada inteiramente por mulheres, uma configuração inédita.
A mudança mostra também que renovação social e orientação política são dimensões diferentes. O crescimento da presença feminina no Senado ocorreu simultaneamente ao fortalecimento de candidaturas conservadoras em diversas regiões. No Distrito Federal, por exemplo, a inédita bancada exclusivamente feminina será formada por três políticas identificadas com o campo bolsonarista. A eleição, portanto, produziu maior representação feminina sem que isso significasse automaticamente uma mudança ideológica numa única direção.
O que realmente mudou em relação a 2022
Quando se coloca a eleição atual ao lado daquela realizada quatro anos atrás, a mudança de escala fica mais clara. Em 2022, o PL já havia saído das urnas como uma das maiores forças do Congresso, elegendo 99 deputados federais. Agora chega a 121. A Federação Brasil da Esperança permanece como o segundo grande agrupamento da Câmara, enquanto partidos intermediários continuam ocupando o espaço indispensável à formação de maiorias.
No Senado, a comparação é ainda mais significativa porque dois terços da Casa foram renovados. A eleição não apenas substituiu dezenas de senadores, mas modificou fortemente o tamanho relativo das bancadas. O PL entra no próximo período legislativo muito maior, o PSD perde espaço e PT e MDB permanecem como forças relevantes, porém numericamente distantes da primeira bancada.
É possível, portanto, falar numa mudança do centro de gravidade parlamentar sem concluir que o Congresso tenha se tornado politicamente homogêneo. Não se tornou. A Câmara continuará altamente fragmentada e o Senado continuará exigindo alianças. O que mudou foi a posição inicial a partir da qual cada partido negociará.
Esse detalhe será fundamental depois do segundo turno presidencial.
O Brasil ainda não sabe quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de janeiro, mas já sabe em grande medida com qual Congresso essa pessoa terá de governar. E esse Congresso é diferente daquele que Lula encontrou ao assumir seu atual mandato em 2023.
Se Flávio Bolsonaro vencer, terá a vantagem institucional de ver seu partido ocupando as maiores bancadas das duas Casas, embora continue dependendo de aliados para construir maioria. Se Lula vencer, enfrentará um Legislativo no qual seu principal adversário partidário terá uma representação ampliada e especialmente forte no Senado. Não é possível antecipar como essas relações funcionarão na prática, porque coalizões parlamentares brasileiras não obedecem mecanicamente à divisão entre governo e oposição. Partidos que disputam eleições em campos adversários frequentemente negociam votações específicas depois da posse.
Essa é justamente uma das razões pelas quais MDB, União Brasil, PSD, Republicanos, PP e outras bancadas intermediárias continuarão importantes. Em muitas votações, serão elas que determinarão se governo ou oposição conseguirá alcançar maioria.
O resultado de domingo, portanto, não produziu um Congresso controlado por um único partido. Produziu um Congresso com uma força partidária claramente ampliada e um conjunto de legendas intermediárias que continuará ocupando posição estratégica.
Essa talvez seja a leitura mais precisa do Legislativo escolhido em 2026.
A eleição presidencial ainda está aberta. Lula e Flávio Bolsonaro voltarão às urnas em 25 de outubro, e somente então o país saberá quem governará pelos próximos quatro anos. Mas uma parte igualmente importante da estrutura de poder já foi definida. Os 513 deputados estão escolhidos. Dois terços do Senado foram renovados. As novas bancadas estão praticamente desenhadas.
E existe uma diferença fundamental entre essas duas eleições.
O presidente escolhido no segundo turno terá mandato até o final de 2030. Os deputados eleitos agora também atravessarão esse período. Mas os 54 senadores escolhidos neste domingo continuarão no Congresso até 2035. Eles participarão do próximo governo, atravessarão a eleição presidencial de 2030 e ainda permanecerão durante boa parte do mandato presidencial seguinte.
Por isso, enquanto o país acompanha a nova batalha pelo Palácio do Planalto, talvez a transformação política mais duradoura produzida pelas urnas de domingo já tenha acontecido.
Em 2022, o eleitor escolheu um Congresso no qual o PL já surgia fortalecido. Em 2026, ampliou essa presença, especialmente no Senado. Ao mesmo tempo, manteve a fragmentação que obriga qualquer governo brasileiro a negociar com diferentes partidos para construir maioria.
O próximo presidente ainda não foi escolhido.
O Congresso com o qual ele terá de governar, praticamente sim.
E esse Congresso chega a 2027 com um PL maior, um Senado profundamente renovado, mais mulheres entre os senadores, antigas lideranças fora das cadeiras que disputaram e uma correlação partidária diferente daquela produzida quatro anos atrás.
Essa configuração não determina antecipadamente o que o Legislativo fará.
Mas estabelece o terreno político sobre o qual o próximo governo terá de caminhar.
E esse terreno mudou.

