Em entrevista ao Democracia no Ar, Marcio Ayer detalha a mobilização dos comerciários, alerta para tentativas de barrar a redução da jornada e defende que a pressão popular continue para garantir a conquista
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 estão no centro de uma disputa que envolve trabalhadores, sindicatos, empresários e diferentes forças políticas. Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Atitude Popular, exibido em 22 de outubro de 2026, Marcio Ayer, presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, analisou os bastidores da mobilização pela mudança, os interesses em conflito e os desafios para transformar a conquista legislativa em melhoria efetiva das condições de trabalho.
A conversa, conduzida por Sara Goes, com comentários de Pádua Araújo, do movimento Mova-se, ocorreu em meio à reta final da campanha presidencial. Durante o programa, Ayer afirmou que o resultado eleitoral teria impacto direto sobre o futuro da redução da jornada e sobre a preservação de direitos trabalhistas. O dirigente também relatou a participação dos comerciários na construção da pauta e advertiu que a aprovação de uma medida não encerra a disputa política e econômica em torno de sua implementação.
“O fim da escala 6 por 1 é apenas o início do primeiro round”, afirmou Pádua Araújo ao comentar os desafios que ainda cercam a redução da jornada. A avaliação sintetiza um dos principais pontos do debate: a mobilização que levou a pauta ao centro da discussão nacional precisará continuar diante das resistências de setores empresariais e políticos.
A mobilização dos trabalhadores e os bastidores da disputa
Marcio Ayer destacou que o Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro participou desde o início da articulação em torno do fim da escala 6×1, em diálogo com o movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Segundo ele, a proposta ganhou força com o trabalho de divulgação, a mobilização nas redes sociais e a pressão exercida por trabalhadores e trabalhadoras sobre representantes políticos.
O dirigente lembrou que a campanha não se limitou à atuação parlamentar. A construção da pauta envolveu pesquisas, debates e iniciativas para demonstrar os efeitos da escala sobre a vida de quem trabalha no comércio e nos serviços.
“Foi um processo bem bacana de construção, de diálogo e de pressão nas redes”, afirmou Ayer, ao relatar a elaboração de um levantamento nacional sobre as consequências da jornada para os trabalhadores.
De acordo com o dirigente, a pesquisa reuniu respostas de cerca de quatro mil trabalhadores em mais de 400 municípios. O material foi organizado em um atlas sobre os impactos da escala 6×1 na vida dos profissionais do comércio e dos serviços.
Ayer também ressaltou que a mobilização sindical contribuiu para ampliar o debate público e pressionar parlamentares a se posicionarem sobre a pauta. Na avaliação dele, o envolvimento popular foi decisivo para que a redução da jornada avançasse no Congresso.
A disputa política em torno do fim da escala 6×1
Durante o programa, os participantes discutiram o posicionamento de setores da direita e da extrema direita diante da redução da jornada, além dos possíveis efeitos de uma mudança de governo sobre a continuidade da medida.
Ayer alertou que a conquista poderia enfrentar novos obstáculos caso forças contrárias à proposta assumissem o comando do Executivo. Ele também apontou a existência de iniciativas legislativas que, segundo sua avaliação, poderiam representar ameaças aos direitos trabalhistas e à organização sindical.
O dirigente citou a pressão exercida sobre senadores durante a tramitação da proposta e afirmou que alguns parlamentares chegaram a manifestar intenção de retirar apoio depois de terem assinado o requerimento para iniciar a tramitação. Segundo ele, a mobilização dos trabalhadores contribuiu para que parte desses senadores reafirmasse sua posição favorável.
A entrevista também abordou as declarações e os posicionamentos relacionados à candidatura de Flávio Bolsonaro. Os participantes criticaram a possibilidade de reversão de medidas favoráveis à redução da jornada e apontaram contradições entre o discurso de campanha e os compromissos assumidos publicamente.
As avaliações políticas feitas durante o programa expressam a posição dos entrevistados sobre a disputa eleitoral e os possíveis efeitos de seus resultados para a classe trabalhadora.
Empresários ainda resistem à implementação
Mesmo diante do avanço da pauta, Ayer afirmou que a resistência empresarial continua sendo um fator de preocupação. Segundo ele, representantes patronais ainda discutem alternativas para contestar a medida, inclusive pela via judicial.
O dirigente relatou ter acompanhado manifestações de representantes do setor empresarial que considerariam a possibilidade de questionar juridicamente a mudança. Para ele, esse tipo de iniciativa demonstra que a aprovação legislativa não elimina o conflito em torno da reorganização do trabalho.
Ayer defendeu que empresários e sindicatos concentrem esforços na negociação de mecanismos concretos para implementar a nova jornada, em vez de buscar formas de impedir sua entrada em vigor.
“Contra a maioria do povo, você não tem como ir contrário”, afirmou, ao recordar uma declaração empresarial mencionada durante a entrevista. Para o dirigente, o caminho deveria ser a negociação sobre a adaptação das empresas à nova realidade, com respeito aos direitos dos trabalhadores.
Ele também criticou os setores empresariais que, em sua avaliação, resistem à redistribuição dos ganhos econômicos e mantêm uma lógica de exploração intensiva da mão de obra.
A redução da jornada, argumentou, exige reorganização do trabalho e negociação coletiva. O processo deve considerar as condições específicas de cada categoria, sem transformar a adaptação das empresas em justificativa para retirar direitos.
Como ficará a jornada dos trabalhadores?
Um dos pontos centrais da conversa foi a necessidade de esclarecer como a mudança será aplicada na rotina dos trabalhadores. Ayer disse que ainda existem dúvidas entre os comerciários sobre a distribuição das horas de trabalho e as regras que deverão orientar a transição.
Ao tratar da proposta discutida no programa, ele mencionou uma jornada semanal de 42 horas, distribuída ao longo de cinco dias, o que corresponderia a oito horas e 24 minutos diários. Segundo sua explicação, os 24 minutos adicionais em relação a uma jornada diária de oito horas precisariam ser objeto de negociação por meio de acordos ou convenções coletivas.
Ayer afirmou que, até a data da entrevista, ainda não havia sido procurado pelo setor patronal do Rio de Janeiro para discutir os procedimentos de implementação. Ele citou movimentações de representantes empresariais em outros estados como sinal de que o debate sobre a adaptação das empresas já começava a ganhar espaço.
As regras mencionadas pelo entrevistado refletem a discussão apresentada durante o programa. A situação jurídica da proposta, seu calendário de vigência e as condições efetivas de aplicação precisam ser conferidos nos textos oficiais e nos atos legislativos correspondentes.
Para o dirigente sindical, a comunicação com os trabalhadores será fundamental para evitar desinformação e garantir que a categoria compreenda seus direitos. Ele defendeu que sindicatos e organizações populares acompanhem de perto as negociações e respondam às dúvidas que surgirem durante a transição.
Uma conquista construída ao longo de décadas
A redução da jornada foi apresentada na entrevista como resultado de uma trajetória histórica de organização dos trabalhadores. Pádua Araújo lembrou que a proposta teve origem na experiência de trabalhadores do comércio e ressaltou a contribuição de diferentes lideranças e parlamentares para a consolidação da pauta.
Os participantes destacaram nomes ligados à luta histórica por direitos trabalhistas, entre eles Paulo Paim, Erika Hilton, Inácio Arruda e Teresa Leitão, além de Rick Azevedo, associado à mobilização pelo fim da escala 6×1.
O debate recuperou a ideia de que direitos trabalhistas foram conquistados por meio de mobilizações sucessivas, enfrentamentos políticos e pressão social. Para os participantes, a redução da jornada deve ser entendida como parte de uma luta mais ampla pela melhoria das condições de trabalho e pela ampliação do tempo disponível para a vida pessoal e familiar.
Ayer enfatizou que a conquista não encerra o conflito entre capital e trabalho. Ao contrário, a implementação da medida exigirá organização sindical permanente, negociação coletiva e vigilância diante de possíveis tentativas de limitar seus efeitos.
A mensagem do dirigente foi direta: os trabalhadores precisam acompanhar o processo e continuar mobilizados para que a mudança se converta em uma melhoria real na vida cotidiana.
O papel dos sindicatos e a resistência no Rio de Janeiro
Ao falar sobre a realidade dos comerciários no Rio de Janeiro, Ayer descreveu um cenário de desafios políticos e sociais. Ele afirmou que a atuação sindical ocorre em um ambiente no qual grupos conservadores e forças ligadas à extrema direita mantêm presença expressiva.
Apesar das dificuldades, o dirigente destacou manifestações e atividades públicas que reuniram trabalhadores e apoiadores da redução da jornada. Citou atos realizados em diferentes regiões da cidade e ações de divulgação da pauta em eventos com grande presença popular.
Segundo Ayer, uma das experiências mais significativas foi a realização de atividades no Dia do Comerciário, com apresentações musicais e diálogo com o público sobre a escala 6×1. Ele relatou que artistas convidados demonstraram receptividade à proposta e que trabalhadores participaram espontaneamente de manifestações de apoio à jornada 5×2.
O dirigente também destacou a presença de materiais de campanha e adesivos relacionados à candidatura do Presidente Lula durante as atividades. Na avaliação dele, a mobilização nas ruas indica que a pauta trabalhista passou a integrar de maneira mais visível o debate eleitoral.
A experiência, segundo Ayer, mostra a importância de aproximar as reivindicações concretas dos trabalhadores da atuação sindical e das discussões políticas nacionais.
Desinformação e mobilização nas redes sociais
A entrevista também abordou o papel da desinformação durante a campanha eleitoral. Os participantes alertaram para a circulação de mensagens falsas sobre procedimentos de votação e para tentativas de confundir os eleitores em relação às regras eleitorais.
Durante o programa, Sara Goes esclareceu que não existe obrigação de votar pela manhã e orientou o público a consultar os canais oficiais da Justiça Eleitoral para confirmar o local de votação e outras informações.
O debate também apontou o risco de campanhas de desinformação contra a redução da jornada. Os participantes advertiram que podem surgir conteúdos que atribuam problemas sociais ou episódios de violência à ampliação do tempo de descanso dos trabalhadores, sem evidências que sustentem essas associações.
Para os entrevistados, a comunicação popular e o acesso a informações verificáveis são instrumentos importantes para enfrentar a circulação de boatos. A mobilização digital, nesse contexto, precisa ser acompanhada de responsabilidade na divulgação de conteúdos e de consulta às fontes oficiais.
A orientação aos trabalhadores foi manter a participação política, verificar informações antes de compartilhá-las e não permitir que mensagens falsas interfiram no exercício do voto ou no debate sobre direitos.
A renovação política e a participação da juventude
Na parte final da conversa, os participantes discutiram a presença de jovens nas mobilizações eleitorais e a necessidade de renovação das organizações políticas e sindicais.
Marcio Ayer avaliou que a renovação de lideranças precisa ser tratada como um processo contínuo, capaz de combinar a experiência de dirigentes históricos com a formação de novas gerações. Segundo ele, essa necessidade vale tanto para os partidos quanto para os sindicatos.
O dirigente observou que ainda há poucos jovens em posições de liderança sindical e defendeu que as organizações aprofundem o debate sobre formação e renovação de seus quadros.
Pádua Araújo, por sua vez, afirmou que o Presidente Lula ocupa um lugar singular na política brasileira e que não haverá uma substituição direta de sua liderança. Para ele, o desafio será construir novas referências políticas sem ignorar a importância histórica do atual presidente.
A discussão reforçou a necessidade de ampliar a participação de jovens nos movimentos sociais, nas entidades sindicais e nos espaços de decisão política. A continuidade da luta por direitos, segundo os participantes, dependerá da capacidade de formar novas lideranças e preservar a memória das conquistas anteriores.
A luta continua depois da votação
A entrevista do Democracia no Ar colocou em evidência uma questão que ultrapassa o calendário eleitoral: a disputa pela redução da jornada de trabalho envolve interesses econômicos, organização coletiva e decisões políticas que afetam diretamente a vida de milhões de trabalhadores.
Marcio Ayer ressaltou que a mobilização dos comerciários foi fundamental para levar o fim da escala 6×1 ao centro do debate nacional. Ao mesmo tempo, alertou que a resistência empresarial e as disputas sobre a implementação exigem acompanhamento constante.
O dirigente defendeu a continuidade da pressão popular, a atuação dos sindicatos e o diálogo com os trabalhadores para esclarecer dúvidas e enfrentar tentativas de desinformação.
A mensagem central do programa foi que a conquista de direitos depende de organização e participação social. A redução da jornada, conforme o debate apresentado, representa uma etapa de uma luta histórica por melhores condições de trabalho, mais tempo para a vida pessoal e maior equilíbrio entre as necessidades econômicas e os direitos de quem trabalha.
Assista à entrevista completa:
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📅 De segunda a sexta
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