Senador transforma investigação sobre a morte de uma criança de 10 meses em peça de campanha eleitoral, retoma defesa da castração química e faz acusação sem apresentar qualquer declaração de Lula que a sustente
Da Redação
A morte de uma bebê de 10 meses em Fortaleza, investigada pela Polícia Civil do Ceará como um caso de estupro seguido de morte, foi transformada pelo senador e pré candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) em mais um ataque político ao Presidente Lula. Em vídeo publicado nas redes sociais, o parlamentar utiliza a comoção provocada pelo crime para defender a castração química de condenados por estupro e, em seguida, afirmar que existe “presidente da República que defende esse tipo de gente”.
A fala ocorre logo após Flávio mencionar criminosos que abusam sexualmente de crianças e mulheres.
“Tem que se fo… e tem Presidente da República que defende esse tipo de gente.”
O senador não apresenta qualquer declaração, projeto ou medida adotada por Lula que justifique a acusação. Ao contrário, utiliza uma tragédia ainda sob investigação para estabelecer uma associação política entre o Presidente da República e autores de crimes sexuais.
Na mesma publicação, Flávio pede que seus seguidores comentem se apoiam a castração química e relembra que teria redigido um projeto sobre o tema apresentado por Jair Bolsonaro quando ainda era deputado federal.
O mito da castração química
Embora frequentemente apresentada como solução simples para crimes sexuais, a castração química está longe de representar uma resposta eficaz ao problema.
Especialistas em criminologia e saúde pública apontam que boa parte dos estupros não decorre exclusivamente de impulso sexual, mas de relações de poder, violência, dominação e controle. Em muitos casos, os agressores sequer apresentam transtornos relacionados ao desejo sexual.
Além disso, o tratamento hormonal produz efeitos apenas enquanto é administrado e não impede que o agressor utilize outros meios de violência física ou psicológica. Diversos países que adotaram medidas semelhantes restringem sua aplicação a situações muito específicas, normalmente de forma voluntária e acompanhada por tratamento psiquiátrico e psicológico.
No Brasil, propostas de castração química reaparecem ciclicamente no debate político, especialmente após crimes de grande repercussão, mas continuam cercadas de controvérsias constitucionais, médicas e éticas. Não há consenso científico de que a medida, isoladamente, reduza a incidência da violência sexual.
Violência sexual contra crianças exige políticas permanentes
A exploração política de casos extremos costuma obscurecer um problema estrutural.
Dados nacionais mostram que a maioria das vítimas de violência sexual é composta por crianças e adolescentes e que os abusos ocorrem, em grande parte, dentro do ambiente familiar ou entre pessoas conhecidas da vítima.
Nos últimos anos, o governo federal ampliou ações integradas entre saúde, assistência social, educação e segurança pública voltadas ao enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes. Entre elas estão o fortalecimento do Disque 100, campanhas nacionais de prevenção, ampliação dos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), integração com o Sistema de Garantia de Direitos e investimentos em atendimento especializado para vítimas.
Essas políticas partem do entendimento de que o combate ao abuso sexual depende da prevenção, da identificação precoce, da responsabilização dos agressores e do acolhimento das vítimas, e não apenas do aumento de penas.
O histórico da família Bolsonaro
O discurso de Flávio também reacende lembranças de um dos episódios mais controversos envolvendo seu pai.
Durante a campanha de 2022, Jair Bolsonaro afirmou que “pintou um clima” ao encontrar adolescentes venezuelanas em uma comunidade de Brasília, declaração que provocou forte repercussão nacional. A fala foi amplamente criticada por entidades de defesa dos direitos da infância e motivou investigações e representações eleitorais à época.
Embora os contextos sejam completamente distintos, o episódio permanece associado à forma como a família Bolsonaro aborda temas envolvendo crianças e sexualidade no debate público.
Ataque ocorre em momento de desgaste eleitoral
A ofensiva contra Lula acontece em um momento delicado para a pré candidatura de Flávio Bolsonaro.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra que o Presidente Lula ampliou sua vantagem sobre o senador na corrida presidencial de 2026, consolidando crescimento nas intenções de voto enquanto o adversário perde terreno.
Após a divulgação do levantamento, Flávio voltou a questionar pesquisas eleitorais e procurou mobilizar sua base nas redes sociais, estratégia que vem se repetindo diante de resultados desfavoráveis.
É nesse ambiente de disputa eleitoral que uma tragédia envolvendo uma criança passa a ser utilizada para reforçar uma narrativa de confronto político.
Bebê Helena
De acordo com o relato, a mãe acordou ao perceber que a bebê apresentava sinais de mal-estar e, inicialmente, acreditou que a criança estivesse engasgada. A menina foi levada para atendimento médico, mas não resistiu. Exames e a investigação policial apontaram indícios de estupro, levando à prisão em flagrante de dois homens por estupro de vulnerável com resultado morte.
Os suspeitos são o namorado da mãe da criança, de 22 anos, e o primo dele, de 26. Conforme a investigação, o crime ocorreu em um apartamento no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza, onde os envolvidos estavam reunidos. Além dos dois homens e da mãe da bebê, também estavam no imóvel o irmão dela e a cunhada.
Segundo a versão apresentada pela mãe à Polícia Civil, em determinado momento ela encontrou um dos suspeitos deitado sobre a criança. A circunstância passou a integrar a linha de investigação conduzida pelas autoridades. Os dois homens foram autuados em flagrante e permanecem à disposição da Justiça enquanto o inquérito prossegue.
A Polícia Civil aguarda a conclusão dos laudos periciais para consolidar a dinâmica dos fatos e esclarecer todos os detalhes do crime. O caso é tratado como estupro de vulnerável com resultado morte, um dos crimes mais graves previstos na legislação brasileira.

