Atitude Popular

O grande problema da estupidez é que os estúpidos se orgulham da própria estupidez

Professor Nelson Campos analisa a formação política do Brasil, explica diferenças entre povo e população e relembra como golpes e exclusões moldaram o Estado brasileiro

Na edição desta segunda-feira, 2 de março, o programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, recebeu o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC, para uma conversa sobre formação política do Brasil, tipos de Estados, formas e sistemas de governo e regimes políticos.

Entre indignação e aula pública: soberania e consciência política

O programa começou com Luiz Regadas situando o debate num cenário internacional tenso e denunciando ataques militares e mortes de civis, conectando esse contexto às disputas de narrativa no Brasil e ao uso político de símbolos estrangeiros em manifestações recentes. A partir daí, Nelson Campos respondeu com dureza ao que chamou de deformação do debate público e falta de compreensão sobre soberania e autodeterminação dos povos.

Entre as falas mais contundentes, ele resumiu o que vê como um nó central da crise política contemporânea, a incapacidade de perceber a própria ignorância como problema coletivo:

“O grande problema da estupidez, Luís, é que os estúpidos se orgulham da própria estupidez. Eles não têm consciência política sobre a dimensão da própria estupidez.”

Para o professor, esse ambiente facilita que slogans e mentiras ganhem tração, enquanto conceitos básicos de política e história nacional desaparecem do vocabulário popular. Ele argumentou que muitas pessoas reproduzem informações erradas por anos, sem revisitar o que aprenderam na escola, e que isso abre espaço para manipulações recorrentes.

“Povo” não é “população”: a diferença que muda o debate político

Ao entrar no tema central, Nelson Campos propôs uma distinção que, segundo ele, deveria ser óbvia, mas costuma ser ignorada. A palavra “povo”, explicou, não é sinônimo de população. População é um dado demográfico, uma contagem. “Povo” tem sentido político e também antropológico, ligado a soberania e identidade cultural.

“Eles confundem povo com população. População é um conceito demográfico. Povo tem dois significados… o poder emana do povo… ou no sentido antropológico, identidade cultural.”

A partir dessa chave, o professor defendeu que compreender o que é “povo brasileiro” ajuda a entender por que a democracia brasileira, tantas vezes, foi desenhada para excluir, e como isso se conecta a estruturas de poder que atravessam séculos.

Da colônia ao Estado brasileiro: exploração, pacto colonial e a lógica do controle

Nelson Campos fez um percurso histórico da formação do Brasil, começando pela crítica ao próprio termo “descobrimento”, apontando o viés eurocêntrico de uma narrativa que ignora a presença de milhões de pessoas que já habitavam o território. Ele lembrou as mudanças de nome atribuídas pelos colonizadores e destacou que a colonização efetiva se estrutura como projeto de exploração.

Na leitura do professor, a colônia foi organizada sob o pacto colonial, com mecanismos econômicos que garantiam o controle da metrópole: exclusividade para vender produtos ao Brasil e exclusividade para comprar o que era produzido aqui. O resultado, segundo ele, foi um modelo de saque institucionalizado, voltado ao enriquecimento português.

O professor também pontuou marcos históricos e administrativos, como a fase pré-colonial, expedições iniciais e a posterior organização do território, reforçando que a lógica da ocupação esteve ligada ao comércio, à força e à dominação.

Independência, monarquia, Estado unitário e o caminho até a república

Ao tratar da Independência, Nelson Campos insistiu numa correção histórica que, segundo ele, é frequentemente repetida de forma automática: a personalização da Independência como ato individual.

“As pessoas não conhecem a história do seu próprio país… não é correto dizer que foi Dom Pedro I… a gente sai aprendendo essas coisas dessa maneira e vai reproduzindo os erros.”

Ele explicou que, para existir Estado, é necessário território, governo e soberania, e situou a formação do Estado brasileiro no processo de independência de 1822. Na sequência, caracterizou o período como Estado unitário, centralizado, com províncias subordinadas ao poder central, sob uma monarquia.

O professor também lembrou a existência do parlamentarismo no Brasil no século XIX, detalhando o princípio de coexistência entre chefe de Estado e chefe de governo, e situando o rompimento com a monarquia a partir de 1889.

1889: golpe militar, república e a exclusão como regra

Ao chegar ao 15 de novembro de 1889, Nelson Campos foi direto: não se tratou de “evolução natural” das instituições, mas de golpe militar que derrubou a monarquia e expulsou a família real. A república, explicou, traz a ideia de “coisa pública”, mas nasceu, naquele momento, pela força e sob tutela militar.

Ele recuperou episódios do início republicano e descreveu como a república se consolidou, logo depois, como república das oligarquias, com voto restrito e grande parte da sociedade excluída do direito de escolha. Para o professor, esse desenho institucional ajudou a manter o poder concentrado nas elites agrárias e econômicas.

“O que é uma oligarquia? É um pequeno grupo político que usa o poder em benefício próprio.”

Ele também comentou que o direito de voto para as mulheres só seria reconhecido mais tarde, e que a exclusão política foi parte estrutural do Estado brasileiro por décadas.

“Revolução de 30” e o debate sobre o que é revolução

Um dos trechos didáticos do programa foi quando Nelson Campos questionou o uso do termo “revolução” para eventos brasileiros ensinados dessa forma na escola. Ele sustentou que revolução não é um episódio isolado, mas um processo histórico que provoca mudanças estruturais profundas, citando transformações ocorridas em experiências como a Revolução Francesa e a Revolução Russa como exemplos do conceito.

“Revolução não é um fato histórico. Revolução é um processo histórico que provoca profundas transformações estruturais.”

O argumento se conecta ao tema maior do programa: a disputa por palavras, a disputa por memória e a disputa por sentido no imaginário popular.

Para que serve conhecer a história: teoria como base de prática transformadora

Provocado por Luiz Regadas sobre como esse conhecimento ajuda a “guinar” o país e proteger a soberania, o professor respondeu em tom de formação política, insistindo que transformação depende de consciência, conhecimento e objetivo coletivo.

Ele citou a ideia de que interpretar o mundo não basta, é preciso transformá-lo, e defendeu que a teoria orienta a prática, desde que as pessoas saibam o que querem, para quem governar e quais interesses confrontar. Ao final, ele voltou ao tema da ditadura militar brasileira, criticou o negacionismo histórico e definiu o apagamento do período como ignorância ou má-fé.

“Ignorância é quando você desconhece… má-fé é a consciência do erro. Você sabe que tá mentindo.”


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