Da Redação
Uma nova reportagem do The Intercept Brasil ampliou ainda mais a crise política em torno do filme “Dark Horse”, produção hollywoodiana sobre Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel. Segundo documentos, contratos e mensagens obtidos pelo veículo, Eduardo Bolsonaro não atuava apenas como alguém que havia “cedido imagem” para o projeto. Ele aparecia formalmente com poderes ligados à estrutura financeira da produção e ao envio de recursos para os Estados Unidos.
A revelação desmonta parte da narrativa pública construída nos últimos dias pelo grupo bolsonarista. Inicialmente, Eduardo tentou reduzir sua participação ao papel de personagem do longa. Os documentos divulgados pelo Intercept, porém, mostram que ele assinou digitalmente contratos relacionados ao filme e figurava como produtor-executivo ao lado de Mario Frias e da empresa GoUp Entertainment.
Na prática, isso colocava Eduardo dentro do núcleo operacional do projeto. Não como alguém que apenas autorizou uso de imagem, mas como participante direto da engrenagem financeira e executiva da produção.
Segundo a reportagem, mensagens atribuídas a Eduardo Bolsonaro mostram o deputado atuando diretamente nas tratativas sobre envio de recursos para os Estados Unidos. Em uma das conversas citadas pelo Intercept, ele orienta interlocutores sobre mecanismos para operacionalizar pagamentos internacionais e facilitar a circulação do dinheiro destinado ao filme.
As mensagens aparecem dentro do contexto das negociações conduzidas por Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central do escândalo envolvendo o Banco Master. A investigação sugere que havia preocupação explícita com a transferência dos recursos para território norte-americano, onde parte da produção audiovisual seria estruturada.

O orçamento do filme é um dos pontos que mais chamaram atenção.
Documentos da própria produção apontam que “Dark Horse” trabalhava com cifras entre 23 milhões e 26 milhões de dólares. O valor foge completamente do padrão recente do cinema brasileiro e até mesmo de boa parte das coproduções latino-americanas de grande porte.
Para efeito de comparação, diversos filmes brasileiros premiados internacionalmente foram produzidos com orçamentos inferiores a 5 milhões de dólares. Mesmo produções comerciais consideradas grandes no mercado nacional raramente ultrapassam a faixa de 10 milhões.
O dado mais explosivo da investigação está justamente na coincidência financeira apontada pelo Intercept.
As negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro giravam em torno de aproximadamente 24 milhões de dólares, praticamente o centro exato da faixa orçamentária prevista para “Dark Horse”. A convergência dos valores passou a ser tratada como um dos elementos mais sensíveis da apuração.
O caso se tornou ainda mais delicado porque Daniel Vorcaro está no centro da chamada Operação Compliance Zero, investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção ligadas ao colapso do Banco Master.
Depois da divulgação da reportagem, Eduardo Bolsonaro alterou parcialmente sua versão pública. Em declarações posteriores, admitiu a existência de contratos financeiros ligados ao filme, embora negue irregularidades e tente sustentar que sua participação seria limitada ou anterior às negociações investigadas.
A repercussão já ultrapassou o Brasil. Veículos internacionais passaram a tratar o episódio como um dos maiores abalos recentes na estratégia de reconstrução internacional do bolsonarismo.
O longa “Dark Horse” havia sido concebido como peça central da reabilitação simbólica de Jair Bolsonaro para 2026. A proposta era transformar o ex-presidente em personagem épico internacional, explorando principalmente o atentado sofrido em 2018 e a narrativa de perseguição política.
Agora, o projeto passou a carregar outro enredo.
O de uma produção cinematográfica atravessada por negociações milionárias, contratos nebulosos, mensagens sobre envio de dinheiro para os Estados Unidos e personagens inseridos no centro de uma das maiores investigações financeiras recentes do país.

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