Por Sara Goes
Quem percorre Fortaleza como turista ou cruza o Ceará pelas rodovias recém-pavimentadas costuma voltar com a impressão de que encontrou um estado plenamente integrado ao imaginário da modernidade brasileira. A constatação não é falsa, mas é insuficiente. Ela pouco diz sobre as escolhas políticas que continuam sendo feitas em nome da promessa de desenvolvimento. Em um território que há décadas luta para se libertar do estigma do atraso, a urgência de provar que “chegamos lá” pode acabar abrindo espaço para projetos apresentados como inevitáveis, mesmo quando seus custos ambientais, energéticos e estratégicos permanecem em segundo plano.
É nesse contexto que a Assembleia Legislativa do Ceará aprovou, nesta terça-feira, o projeto de lei enviado pelo governo estadual que cria regras específicas para o licenciamento ambiental de data centers e sistemas de armazenamento de energia por baterias. Defendida pelo Executivo como um instrumento para conferir segurança jurídica aos investimentos e consolidar o Ceará como polo da economia digital, a proposta foi aprovada após uma tramitação acelerada, sob protestos de ambientalistas e com votos contrários de parlamentares da oposição e da própria base governista.
Há um verso, eternizado na voz de Belchior, mas nascido da genialidade do repentista paraibano Zé Limeira, que parece ter sido escrito para o Ceará de hoje: “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.” A frase sintetiza a obstinação de um estado que tenta reinventar o próprio destino, desta vez apoiado em cabos submarinos, energia renovável, inteligência artificial e grandes projetos de infraestrutura digital.
Fortaleza abriga um dos maiores pontos de conexão de dados da América Latina. Ao litoral cearense chegam dezoito cabos submarinos de fibra óptica, enquanto sucessivos anúncios de investimentos transformam o estado em um dos principais candidatos a sediar grandes data centers no país. Pela primeira vez em décadas, o Ceará deixa de disputar apenas indústrias tradicionais e passa a ocupar posição estratégica em uma transformação tecnológica global.
Ansiedade desenvolvimentista
Não se trata de um defeito nem de uma crítica aos governos que enxergam nessa oportunidade uma chance histórica. Trata-se da urgência de uma sociedade que conhece o peso político do atraso e sabe que, na periferia do capitalismo, as oportunidades raramente permanecem abertas por muito tempo. Essa ansiedade dialoga com uma tradição inaugurada por Celso Furtado e aprofundada pela Teoria da Dependência: a percepção de que o desenvolvimento dos territórios periféricos acontece sempre sob condições frágeis, vulnerável às mudanças da conjuntura política e aos interesses dos grandes centros de poder.
Essa urgência, entretanto, produz um efeito colateral. Quando o desenvolvimento passa a ser percebido como uma oportunidade que talvez não volte, toda ponderação tende a ser confundida com resistência ao progresso. O debate perde complexidade e as perguntas mais importantes acabam sendo substituídas pela necessidade de demonstrar rapidez, eficiência e capacidade de atrair investimentos.
Há também uma dimensão política que ajuda a compreender essa ansiedade. O Ceará tornou-se um dos principais territórios da disputa nacional entre o campo progressista liderado pelo Presidente Lula e uma oposição que aproxima a extrema direita de forças tradicionais da política cearense. Sustentar um projeto de desenvolvimento capaz de produzir resultados concretos antes das eleições de 2026 exige recursos, capacidade de articulação e estabilidade institucional. Não por acaso, Lula atuou pessoalmente para convencer o senador Cid Gomes a disputar a reeleição, ampliando o palanque do governador Elmano de Freitas e fortalecendo a base governista no estado. Essa construção política também tem custos. Grandes projetos de infraestrutura, inovação e economia digital não respondem apenas a uma estratégia econômica. Eles procuram consolidar um projeto político cujo futuro dependerá da correlação de forças que sairá das urnas.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre soberania digital se torna decisiva. Ser destino de grandes data centers ou território de passagem de cabos submarinos não garante autonomia tecnológica. Um estado pode concentrar bilhões de reais em investimentos e continuar ocupando um papel periférico na economia global, oferecendo energia, território e estabilidade regulatória enquanto o conhecimento, os dados e o valor agregado permanecem concentrados em poucas corporações internacionais. A dependência apenas muda de forma.
A verdadeira soberania exige que a infraestrutura seja acompanhada da capacidade de produzir ciência, desenvolver inteligência artificial, fortalecer universidades, formar pesquisadores e criar empresas capazes de disputar tecnologia em vez de apenas hospedar tecnologia produzida em outros lugares. Caso contrário, o risco é reproduzir, na economia digital, uma lógica conhecida desde os ciclos do algodão, da borracha ou do minério: exportamos recursos estratégicos enquanto outros concentram riqueza, inovação e poder de decisão.
É por isso que o debate ambiental não pode ser tratado como entrave burocrático. Data centers consomem enormes quantidades de energia e água, alteram a ocupação do território e interferem diretamente na vida de comunidades tradicionais. Questionar esses impactos não significa rejeitar o desenvolvimento, mas perguntar sob quais condições ele ocorrerá, quem assumirá seus custos e quem colherá seus benefícios.
Também não ajuda transformar o Ceará em objeto de tutela. Parte do debate nacional ainda observa o Nordeste como se lhe faltassem capacidade técnica, produção acadêmica ou pensamento crítico para discutir seu próprio futuro. Essa postura ignora que as principais tensões sobre soberania digital, preservação ambiental e desenvolvimento já vêm sendo enfrentadas há muito tempo por pesquisadores, movimentos sociais, gestores públicos e comunidades que vivem esse processo diariamente.
A verdadeira encruzilhada do Ceará nunca esteve entre desenvolvimento e preservação. Ela está em decidir se essa infraestrutura digital servirá para ampliar a autonomia do estado ou apenas para inaugurar uma nova etapa de dependência tecnológica. A resposta não será dada por um data center, nem por um projeto de lei isolado, mas pela capacidade de transformar investimentos em conhecimento, riqueza compartilhada e soberania.
Mais do que decidir sobre procedimentos de licenciamento, o Ceará decidiu que papel pretende ocupar na geografia política da economia digital. O desafio começa agora. Porque desenvolvimento não se mede apenas pelo tamanho dos investimentos anunciados, mas pela capacidade de converter oportunidades em autonomia. Se o estado conseguir fazer essa travessia, a profecia de Zé Limeira continuará fazendo sentido: ano passado pode ter morrido, mas este ano não morre.
Este artigo foi publicado originalmente no Código Aberto, sob o título “Ceará na encruzilhada digital: entre a soberania e o fantasma do retrocesso”. Esta é uma versão condensada e atualizada após a aprovação do marco estadual para o licenciamento ambiental de data centers pela Assembleia Legislativa do Ceará.






