Fundadora do G-TERCOA, Mazzé Costa apresenta trabalho desenvolvido com educadores e destaca reconhecimento da Alece pelos 12 anos do grupo
Da Redação
A professora Maria José Costa dos Santos, conhecida como Mazzé, defendeu a formação continuada e a valorização dos profissionais da educação durante entrevista ao programa Democracia no Ar. Fundadora e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas Tecendo Redes Cognitivas de Aprendizagem, o G-TERCOA, ela apresentou as atividades desenvolvidas pelo coletivo e falou sobre os desafios enfrentados nas escolas públicas.
A entrevista foi exibida originalmente pela TV Atitude Popular, com apresentação da jornalista Sara Goes. A conversa antecedeu a sessão solene marcada para as 17h desta quinta-feira, 27 de agosto, no Plenário 13 de Maio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. A solenidade celebra os 12 anos de atuação do G-TERCOA, grupo vinculado à Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará e cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq.
Formado principalmente por professores das redes municipais e estadual, além de estudantes de graduação, pesquisadores e docentes universitários, o G-TERCOA reúne profissionais de diferentes municípios e áreas do conhecimento. O grupo realiza encontros presenciais todas as segundas-feiras, na Faculdade de Educação da UFC, para discutir pesquisas, experiências pedagógicas e problemas encontrados em sala de aula.
“É a educação que nos move, que nos dá aquele fôlego todos os dias para levantar e dizer: ‘Vamos à luta, vamos lutar e vamos resistir por uma educação pública e de qualidade todos os dias’. É a nossa meta, é o nosso propósito”, afirmou Mazzé.
Defesa da educação pública começa pela experiência pessoal
Professora da universidade pública e formada integralmente em instituições públicas, Mazzé relacionou sua trajetória pessoal à defesa da escola e da universidade mantidas pelo Estado. Para ela, a formação recebida nessas instituições foi determinante para que chegasse à docência universitária.
“Hoje eu posso dizer que sou uma professora universitária fruto exclusivamente da educação pública. Então, não poderia ser diferente a minha defesa pela educação pública”, declarou.
Mazzé ressaltou que a universidade não deve se limitar à formulação de conceitos distantes da realidade escolar. O trabalho acadêmico, na avaliação dela, precisa considerar os conhecimentos e as dificuldades apresentados pelos profissionais que atuam diariamente na educação básica.
Por isso, uma das propostas centrais do G-TERCOA é aproximar professores das redes públicas do ambiente universitário. O grupo procura criar um espaço no qual esses profissionais possam discutir suas práticas, compartilhar experiências e participar da produção de conhecimento.
“É na academia que estamos pensando a educação, as teorias e as metodologias. Por isso, levamos os professores da rede pública para dentro da universidade. Queremos conversar com eles e dizer: ‘Professor, você é muito importante nessa luta’”, explicou.
Formação continuada ajuda a explicar resultados do Ceará
Durante a entrevista, Mazzé comentou a atenção despertada pelo desempenho educacional do Ceará em encontros acadêmicos realizados no Brasil e em outros países. Segundo ela, pesquisadores e educadores perguntam com frequência qual seria o segredo dos resultados obtidos pelo estado.
“A primeira pergunta é: ‘Qual é o segredo do Ceará?’. É incrível como essa pergunta está na mente de todos”, relatou.
Para a professora, os resultados não decorrem de uma medida isolada. Eles estão relacionados a anos de investimento em políticas de formação, ao acompanhamento das redes municipais e à participação de equipes dedicadas ao planejamento educacional.
“Não basta somente pensar sobre a educação e falar sobre a educação. É preciso agir. É preciso ter política pública que realmente faça diferença”, afirmou.
Mazzé atua como consultora de alfabetização matemática no Ceará e acompanha atividades de formação oferecidas a professores dos municípios. Ela chamou atenção para as dificuldades enfrentadas por profissionais que trabalham longe de Fortaleza e nem sempre conseguem manter contato frequente com uma universidade.
Há ainda, segundo a entrevistada, a carga de trabalho elevada. Muitos professores passam os turnos da manhã e da tarde nas escolas, em alguns casos também à noite. Sem horários reservados para estudo, planejamento e avaliação das práticas, a formação continuada passa a depender de um esforço pessoal adicional.
“Ter um momento para que eles possam parar, pensar e refletir sobre a prática pedagógica faz toda a diferença”, afirmou.
Embora reconheça os avanços obtidos pelo Ceará na formação, Mazzé defendeu que a atenção concedida ao aperfeiçoamento profissional seja acompanhada pela valorização salarial.
“O que esperamos é que essa preocupação, tão ampla na formação, também se estenda à valorização salarial dos nossos professores, porque eles merecem.”
Grupo nasceu da escuta aos professores dos municípios
O G-TERCOA começou a ser estruturado entre 2013 e 2014. Naquele período, Mazzé participava da coordenação de um programa estadual destinado à formação de professores da Educação de Jovens e Adultos.
As visitas aos municípios permitiram que ela conhecesse mais de perto as necessidades apresentadas pelos profissionais. Muitos já haviam concluído a graduação, mas continuavam procurando oportunidades para estudar, atualizar conhecimentos e conversar sobre as dificuldades vividas nas escolas.
Paralelamente, Mazzé participava de um grupo ligado ao Laboratório de Pesquisa Multimeios da UFC, dedicado principalmente à educação matemática. A experiência acumulada nos municípios mostrou que seria necessário ampliar o debate e incorporar profissionais de outras áreas.
“Percebi a carência e a necessidade que os professores tinham de formação. Compreendemos a importância de o professor que já se formou há algum tempo ter um espaço para continuar discutindo suas práticas”, contou.
O grupo passou, então, a receber professores interessados em diferentes componentes curriculares. O crescimento levou à organização de processos seletivos por meio de editais. Inicialmente, as seleções eram semestrais. Com o aumento da procura e as limitações de espaço físico, o edital passou a ser anual.
De acordo com Mazzé, a próxima seleção deverá ser aberta entre o fim de setembro e o início de outubro. Como os encontros regulares são presenciais, a capacidade de acolhimento depende das salas disponíveis na Faculdade de Educação.
O caráter presencial é considerado parte da proposta. A convivência permite que os participantes conheçam os problemas relatados pelos colegas, desenvolvam pesquisas em conjunto e construam vínculos profissionais.
“As discussões fazem sentido nessa relação presencial. É estar ao lado do colega, olhar nos olhos e compreender suas necessidades pedagógicas e didáticas”, disse.
Da matemática a uma rede interdisciplinar
Embora a formação de Mazzé esteja concentrada na pedagogia e na matemática, o G-TERCOA deixou de ser um grupo voltado exclusivamente à educação matemática. Atualmente, reúne professores de geografia, história, letras, química, física, biologia e outras áreas.
“Hoje, não somos apenas um grupo de educação matemática. Somos um grupo que acolhe o professor preocupado em incluir o aluno no processo de ensino e aprendizagem”, explicou.
O coletivo está organizado em duas frentes principais. Uma delas recebe bolsistas e estudantes de graduação da UFC, especialmente dos cursos de pedagogia e matemática. Nessa etapa, os alunos têm contato com a iniciação científica e trabalham ao lado de pesquisadores mais experientes.
A outra frente reúne professores graduados, especialistas, mestres, doutores e pesquisadores com pós-doutorado. Participam profissionais das redes municipais de Fortaleza, Caucaia, Cascavel, Canindé, Pacajus, Eusébio, Aquiraz, Maracanaú e de outras cidades cearenses.
Também integram o grupo professores da rede estadual, docentes da UFC, da Universidade Estadual do Ceará, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará e de instituições privadas de ensino superior.
A convivência entre diferentes etapas de formação é uma característica destacada por Mazzé. Um estudante de graduação pode trabalhar com um professor da educação básica e um pesquisador com pós-doutorado em uma mesma atividade. As diferenças de titulação não devem produzir hierarquias rígidas dentro do coletivo.
“Não importa de onde eu venho. Importa para onde eu quero ir. E queremos colaborar com a educação do nosso estado e do nosso país”, declarou.
Inclusão exige participação efetiva dos estudantes
Entre os temas pesquisados pelo G-TERCOA está a educação especial inclusiva. O grupo discute como diferentes áreas do conhecimento podem adaptar suas práticas para assegurar a participação de estudantes com deficiência ou dificuldades de aprendizagem.
Mazzé diferenciou inclusão de uma simples presença física na escola. Colocar um estudante na sala sem permitir que ele participe das atividades não atende ao princípio de uma educação inclusiva.
“Não é integração, colocando o aluno e deixando-o no cantinho. Defendemos a inclusão, na qual todos os estudantes participam de forma equitativa”, afirmou.
Os professores são incentivados a analisar as necessidades de suas turmas e desenvolver práticas que ampliem a participação. As experiências realizadas nas escolas podem se transformar posteriormente em relatos, artigos, cursos ou projetos de pesquisa.
Reuniões semanais combinam leitura e prática
O G-TERCOA mantém uma rotina semanal de estudos. A cada semestre, os integrantes elaboram um planejamento de leitura. Os livros são indicados pelos próprios participantes e avaliados de acordo com a contribuição que podem oferecer às discussões em andamento.
“Nós lemos um livro toda semana. Fazemos um planejamento e vamos discutindo esses livros semana a semana”, explicou Mazzé.
As leituras são relacionadas às experiências trazidas pelos professores. A intenção é evitar que o debate permaneça limitado à exposição teórica. Questões observadas nas salas de aula podem orientar a produção de artigos e a participação em eventos acadêmicos.
Em uma das edições dos Encontros Universitários da UFC, segundo Mazzé, o grupo produziu 78 resumos. Os trabalhos foram escritos coletivamente, com equipes formadas por quatro ou cinco pessoas.
“Não fazemos nada sozinhos. O grupo é colaborativo”, destacou.
A exigência de participação começa no ingresso. Os novos integrantes recebem tarefas e são incorporados às equipes de trabalho desde os primeiros encontros. Não há um período em que permaneçam apenas como observadores.
“Todo mundo trabalha, todo mundo se esforça, todo mundo é reconhecido e todo mundo é importante. Não importa se está na graduação ou se tem pós-doutorado”, afirmou.
O objetivo, segundo a professora, é construir um espaço que acolha os problemas da docência sem se limitar à reclamação. As dificuldades são discutidas para que possam orientar estudos e propostas.
“Nós não queremos ser um espaço de lamúria. Queremos ser um espaço propositivo. Queremos saber o que podemos fazer pela educação do nosso país”, disse.
Docência não deve ser uma atividade solitária
A sala de aula pode colocar o professor em uma situação de isolamento profissional. Mesmo inserido em uma escola, ele precisa tomar decisões diariamente diante dos estudantes, muitas vezes sem tempo para compartilhar dúvidas com colegas.
Para Mazzé, essa solidão torna os grupos de estudo especialmente importantes. O G-TERCOA procura oferecer um espaço no qual os profissionais possam falar sobre dificuldades, mas também sobre projetos que deram certo.
“A docência é um ato muito solitário na sala de aula. É você, professor, e seus alunos. Dividir os desafios, as alegrias e as conquistas com outros professores é extremamente valioso”, declarou.
A entrevistada também rejeitou análises que responsabilizam os docentes por todos os problemas da educação. Pesquisas acadêmicas, advertiu, precisam avaliar as condições de trabalho e tratar os profissionais com respeito.
“Todas as dificuldades da educação que temos não podem ser atribuídas ao professor. O professor quer estudar. O G-TERCOA é um exemplo disso, porque ele lê um livro por semana e está no grupo todas as segundas-feiras”, afirmou.
Os encontros começam no fim da tarde, depois do expediente nas escolas, e se estendem até a noite. Alguns integrantes se deslocam de municípios da Região Metropolitana ou do interior para participar das atividades em Fortaleza.
Produção acadêmica com acesso gratuito
Ao longo de 12 anos, o G-TERCOA produziu dez livros, mantém uma revista destinada à divulgação de pesquisas e experiências e organiza atividades em um ambiente virtual de aprendizagem. O grupo também realiza transmissões com pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Em 2026, foram lançados nove cursos de extensão. As atividades são oferecidas gratuitamente tanto aos integrantes como à comunidade externa.
“Nós não fazemos nada pago. Se publicamos um livro, o livro é divulgado de graça. Nossos eventos são gratuitos. Tudo o que fazemos dentro e fora da universidade, fazemos questão de não cobrar”, afirmou.
Para Mazzé, o conhecimento produzido em uma universidade pública deve permanecer acessível à sociedade que financia a instituição.
“O nosso conhecimento já é dado pela sociedade. Nada mais justo do que oferecermos esses momentos de socialização gratuitamente”, disse.
O grupo mantém intercâmbio com pesquisadores de Portugal, Canadá, Moçambique, Chile, Colômbia e outros países. Seus integrantes já apresentaram trabalhos em eventos realizados em Portugal, Costa Rica, Estados Unidos, Escócia e Alemanha.
Mazzé afirmou que a participação internacional permite divulgar experiências desenvolvidas no Ceará e conhecer soluções adotadas por outras instituições. Também mostra que dificuldades relacionadas à inclusão, formação docente e aprendizagem não estão restritas ao Brasil.
“Quando chegamos, apresentamos o grupo e mostramos o que fazemos no Ceará. Divulgamos a educação do nosso país e aquilo que temos de melhor”, declarou.
Participação fortalece a trajetória profissional
Além da produção acadêmica, a participação no G-TERCOA pode ter efeitos na carreira dos professores. Por estar cadastrado no CNPq, o grupo permite que seus integrantes comprovem formalmente a atuação em estudos e pesquisas.
Mazzé relatou que alguns membros foram convidados para trabalhar como coordenadores ou formadores em suas redes de ensino depois de ingressarem no coletivo. Nessas situações, o grupo também oferece apoio na elaboração de materiais e no planejamento das atividades.
“Às vezes, os professores chegam e dizem: ‘Fui convidada para ser coordenadora ou formadora no meu município porque sou do G-TERCOA’. Para nós, isso é muito importante”, contou.
Apesar da procura de educadores de outros estados, a participação regular permanece concentrada no Ceará devido ao caráter presencial das reuniões. Professores de outras regiões podem acompanhar cursos e atividades virtuais promovidas ao longo do ano.
“Se você está incomodado com questões que não atendem às necessidades dos seus estudantes, o G-TERCOA é um espaço para colaborar e transformar socialmente pela educação”, convidou.
Reconhecimento na Assembleia Legislativa
A sessão solene na Alece foi proposta pelo deputado estadual Guilherme Sampaio. Segundo Mazzé, a articulação contou com a participação do professor Ibiapino e reconhece uma trajetória que já havia sido homenageada pela Câmara Municipal de Fortaleza.
A professora afirmou que o convite foi recebido com entusiasmo pelos integrantes. Parte dos professores deixaria as escolas um pouco mais cedo para conseguir chegar ao Plenário 13 de Maio, considerando as dificuldades de deslocamento e o trânsito no entorno da Assembleia.
“Ficamos honradíssimos. O sentimento que nos move é o de que estamos em uma trajetória que nos dá alegria e tranquilidade para saber que aquilo que fazemos pela educação está colaborando para a mudança”, afirmou.
A solenidade é também uma oportunidade para que professores acostumados a trabalhar longe dos espaços institucionais tenham sua contribuição reconhecida publicamente.
“Quando um professor diz: ‘Meu grupo de estudos vai ser homenageado na Alece’, isso nos enche de alegria e nos dá muita força”, declarou.
Para Mazzé, cada homenagem amplia a responsabilidade do coletivo. O reconhecimento não encerra o trabalho realizado nos últimos 12 anos. Ele aumenta o compromisso de manter as pesquisas, os cursos gratuitos, a formação de professores e a aproximação entre universidade e escola pública.
“Cada vez que recebemos uma homenagem, ficamos felizes e reconhecidos, mas sentimos que a responsabilidade com a educação do nosso estado e do nosso país aumenta muito.”
Ao falar sobre a profissão que escolheu, Mazzé resumiu a dimensão que atribui ao trabalho docente:
“Ser professor é acordar todo dia feliz porque você sabe que pode transformar não apenas uma pessoa. O professor transforma uma geração.”
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