Técnica de enfermagem Edna Pontes denuncia defasagem salarial, sobrecarga de trabalho e ausência de diálogo com a gestão municipal sobre a reestruturação do PCCS do Instituto Dr. José Frota
Os servidores do Instituto Dr. José Frota (IJF), principal hospital de trauma do Norte e Nordeste, vivem uma realidade marcada por baixos salários, jornadas exaustivas e falta de perspectivas de valorização profissional. O tema foi debatido no programa Café com Democracia, da Web Rádio Atitude Popular, em entrevista concedida pela técnica de enfermagem Edna Pontes ao jornalista Luiz Regadas.
Durante a conversa, Edna relatou o que definiu como uma situação de “invisibilidade institucional”, expressão utilizada para descrever a condição de trabalhadores que sustentam o funcionamento do hospital, mas que, segundo ela, permanecem sem reconhecimento e sem respostas concretas para reivindicações históricas da categoria.
Segundo a servidora, a principal reivindicação dos profissionais é a reestruturação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) do IJF, que permanece sem atualização desde 2007. Quase duas décadas depois, ela afirma que o documento já não corresponde à realidade dos trabalhadores nem às transformações ocorridas na legislação trabalhista e no sistema de saúde.
“Estamos há quase 20 anos com o nosso PCCS sem reestruturação”, afirmou. Segundo Edna, existem cargos cuja remuneração inicial permanece abaixo do salário mínimo, situação que obriga muitos profissionais a assumirem extensões de jornada e plantões extras para complementar a renda.
A técnica de enfermagem descreveu um cotidiano marcado por longas jornadas de trabalho. Embora a carga horária contratual dos técnicos seja de 30 horas semanais, muitos servidores acabam trabalhando o dobro ou até mais para alcançar uma remuneração capaz de sustentar suas famílias.
“Estou falando de profissionais que estão adoecendo física e mentalmente”, declarou. Para ela, a combinação entre salários defasados, excesso de trabalho e pressão emocional afeta diretamente a qualidade de vida dos servidores e pode comprometer o atendimento prestado à população.
O impacto da sobrecarga é agravado pelas características do próprio IJF, hospital especializado em urgência, emergência e atendimento a vítimas de trauma e violência urbana. De acordo com Edna, os profissionais convivem diariamente com situações extremas e de grande desgaste psicológico.
Ela ressaltou que a valorização dos trabalhadores não representa apenas uma pauta corporativa, mas uma questão diretamente ligada à qualidade do serviço público de saúde. “Quando falta profissional para trabalhar, quem está lá prestando cuidado está sobrecarregado, está mais vulnerável a errar e o atendimento vai demorar”, alertou.
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a dificuldade de diálogo com a atual gestão municipal. Segundo a servidora, desde o início do governo do prefeito Evandro Leitão, os trabalhadores buscam abrir um canal de negociação para discutir a reestruturação do PCCS, mas ainda não conseguiram avançar nas conversas.
“Nós gostaríamos muito que esse canal fosse aberto em torno do PCCS do IJF”, afirmou. Edna também fez um apelo à secretária municipal da Saúde, Dra. Riane Azevedo, para que participe das discussões sobre a valorização dos servidores.
A entrevistada reconheceu melhorias recentes na infraestrutura do hospital, como reabertura de leitos e requalificação de ambientes, mas argumentou que a recuperação da instituição não pode se limitar às obras físicas.
“Hospital não é feito só de concreto. É feito de pessoas, de gente cuidando de gente”, declarou.
Edna também criticou a ampliação de contratações por meio de cooperativas para suprir déficits de pessoal. Segundo ela, a solução definitiva passa pela realização de concursos públicos e pela valorização dos servidores efetivos, garantindo estabilidade e continuidade no atendimento à população.
Ao final da entrevista, a técnica de enfermagem reforçou que a categoria não busca privilégios, mas condições dignas de trabalho e reconhecimento profissional. “O servidor do IJF não quer privilégio, quer ser respeitado e valorizado”, resumiu.
Ela concluiu fazendo um apelo à população e às autoridades municipais para que compreendam a relação direta entre a situação dos trabalhadores e a qualidade do atendimento prestado à sociedade. Segundo Edna, sem valorização dos profissionais, torna-se cada vez mais difícil manter a excelência de um hospital que concentra os casos mais complexos de trauma de todo o Ceará e de estados vizinhos.
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