O desaparecimento dos “soldadinhos” revela mais que perda ambiental: expõe uma infância capturada por algoritmos, onde a curiosidade cede lugar à vigilância e ao consumo digital
Por Sara Goes
Os “soldadinhos” são pequenos insetos da família Membracidae, comuns em áreas verdes e conhecidos por sua aparência curiosa. Com uma espécie de capacete sobre o corpo, muitas vezes imitando espinhos, galhos ou folhas, passam quase invisíveis sobre caules e plantas. Para quem cresceu observando o mundo com tempo, eram um enigma vivo. Não se moviam muito, não faziam barulho, mas estavam ali, exigindo atenção, paciência e um tipo de curiosidade que não se ensina, se descobre.
Na minha infância, eles estavam no parque da escola, na área verde em frente à minha casa, na periferia de Fortaleza. Pequenos, imóveis, esperando que alguém tivesse tempo de vê-los. Um dia, deixaram de existir para mim. Sem tempo para procurar, eu tatuei um soldadinho na pele. Como quem tenta não esquecer o que já não encontra.
Não se trata apenas de uma perda biológica. O desaparecimento do soldadinho é o sintoma de uma captura sensorial. Onde antes repousava o olhar atento da criança sobre o caule da planta, hoje brilha a tela de cristal líquido. O soldadinho, com sua camuflagem analógica, perdeu a disputa pela atenção para um dispositivo que não se esconde, mas sequestra o horizonte.
Entre o soldadinho e o smartphone, o que se rompe é um tipo de observação que exigia silêncio e presença. Enquanto o inseto se comunica por vibrações sutis, imperceptíveis ao ouvido humano e restritas à fibra do vegetal, o smartphone opera em frequência de choque, emitindo alertas desenhados para romper qualquer estado de contemplação. Saímos de uma comunicação entre espécies para uma arquitetura de vigilância, em que a criança deixa de observar o ambiente para se tornar objeto de observação.
Não é nostalgia. Os números mostram uma transformação estrutural. No Brasil, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos utilizam a internet, cerca de 24 milhões de indivíduos. E 28% começaram antes dos 6 anos de idade. O digital deixou de ser ferramenta e passou a ser ambiente. Não se entra mais na internet. Nasce-se dentro dela.
Ambiente que, longe de ser neutro, é projetado. O celular, principal dispositivo de acesso para 96% desse público, não apenas conecta, mas organiza a experiência. O corpo permanece no espaço físico, mas a atenção é continuamente deslocada para fluxos de estímulo calculados.
É nesse cenário que a crítica formulada por Dal Marcondes, no Outras Palavras, tensiona o debate jurídico recente. A aprovação do chamado ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026, surge como resposta a um cenário de aumento de danos psíquicos e crimes digitais envolvendo crianças. Trata-se de um marco importante, que proíbe práticas como publicidade comportamental, perfilamento e manipulação emocional voltadas ao público infantil, além de impor responsabilidades às plataformas.
Mas a análise aponta um limite. A proteção não pode se restringir à regulação do conteúdo ou à remoção de excessos. Há um problema mais profundo. A própria arquitetura digital, baseada na captura de atenção e na exploração de dados, produz efeitos neurológicos e psíquicos que a legislação ainda não alcança. A infância, especialmente na primeira fase da vida, constitui uma janela crítica de desenvolvimento, e a exposição contínua a estímulos artificiais altera esse processo.
Não basta proteger a criança de conteúdos inadequados. É o ambiente em si que precisa ser questionado.
Ao estabelecer responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e empresas de tecnologia, o ECA Digital reconhece que a proteção da infância precisa ser estruturante. Ainda assim, essa corresponsabilidade esbarra em um paradoxo evidente. As mesmas plataformas que devem proteger são aquelas cujo modelo de negócio depende da captura e retenção da atenção infantil.
Nesse contexto, a criança deixa de ser apenas usuária e passa a ser ativo econômico. A proibição de técnicas como neuromarketing e análise emocional revela o nível de sofisticação das estratégias utilizadas para influenciar comportamentos desde cedo. Não se trata mais de publicidade. Trata-se de engenharia do desejo.
Com isso, a exposição a riscos deixa de ser exceção e passa a integrar o próprio funcionamento do sistema. O ambiente digital amplia o contato com conteúdos impróprios, práticas abusivas e formas de exploração que escapam à mediação tradicional. E mesmo quando há percepção de vigilância, ela não leva à saída do sistema, mas à sua naturalização.
Não é apenas o ambiente que muda. O soldadinho não some apenas porque a árvore foi cortada ou o espaço urbano se expandiu. Ele desaparece porque deixou de ser visto. Porque o olhar que o encontrava foi deslocado.
Em paralelo, a perda de biodiversidade nas cidades acompanha a atrofia da percepção. Quando a infância deixa de encontrar o estranhamento da natureza, o bicho que parece galho, a vida que vibra no caule, ela se adapta à previsibilidade do algoritmo. O acaso é substituído pela recomendação. A descoberta, pela entrega automática. O smartphone não ocupa apenas a mão da criança. Ocupa o lugar da curiosidade pelo que é vivo.
Por isso, o debate não pode parar na regulação. Como sugere a análise publicada no Outras Palavras, proteger a infância exige ir além da superfície jurídica e enfrentar a própria lógica que organiza o ambiente digital. Não basta tornar o sistema mais seguro. É preciso perguntar se ele é, em si, compatível com o desenvolvimento humano.
O soldadinho não desapareceu sozinho. Foi substituído por uma nova forma de ver e existir no mundo. Quase 20 anos depois, a tatuagem já não guarda a delicadeza do traço nem os detalhes do soldadinho. Mas ele voltou, de carne e osso, ou melhor, com seu exoesqueleto de quitina e a hemolinfa, sob o olhar curioso do meu filho.












