Atitude Popular

“Não existe nada em Goiânia hoje, é ilusão falar em contaminação”

Especialista explica como o acidente de 1987 transformou a legislação sobre radiação no Brasil e contesta mitos sobre riscos atuais

Em meio à retomada do interesse popular por histórias envolvendo acidentes nucleares e radiológicos — impulsionado por produções recentes do streaming, como a série Emergência Radioativa — o programa Café com Democracia, exibido em 15 de abril, debateu os impactos do acidente radiológico de Goiânia, ocorrido em 1987, e as mudanças na legislação brasileira desde então. As informações dialogam com análises publicadas pelo portal Mix de Séries e com conteúdo técnico do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, que discutem o que é fato e o que é ficção nas representações audiovisuais do tema.

Convidado do programa, o professor, físico e radialista Wilson Seraine afirmou que tragédias como a de Goiânia e o desastre nuclear de Acidente de Chernobyl levaram a um endurecimento significativo das normas de segurança envolvendo radiações ionizantes em todo o mundo. Segundo ele, o Brasil hoje possui um dos sistemas mais rigorosos de controle nesse campo.

“Não existe nada nesse país que tenha mais norma, mais regras para se trabalhar do que as radiações ionizantes”, destacou. O especialista explicou que, após o acidente de Goiânia, houve revisão completa das normas da então Comissão Nacional de Energia Nuclear, que mais recentemente deu origem à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear.

Legislação mais rígida e risco reduzido

De acordo com Seraine, o principal legado do acidente foi a criação de protocolos mais rígidos para armazenamento, transporte e uso de materiais radioativos. Ele ressaltou que tecnologias também evoluíram, reduzindo drasticamente os riscos.

“Hoje praticamente não se trabalha mais com fontes radioativas como o césio na radioterapia. As máquinas usam aceleradores lineares. Isso praticamente elimina o risco de um novo acidente como o de Goiânia”, afirmou.

O professor também enfatizou que acidentes radiológicos são extremamente raros. Segundo ele, o último caso relevante conhecido teria ocorrido no início dos anos 2000, o que reforça a eficácia das medidas adotadas nas últimas décadas.

Goiânia não se compara a Chernobyl

Um dos pontos mais debatidos na entrevista foi a comparação recorrente entre Goiânia e Chernobyl, frequentemente reforçada por obras de ficção. Seraine foi categórico ao diferenciar os dois episódios.

“São coisas totalmente diferentes. Goiânia foi um acidente radiológico com uma fonte isolada. Chernobyl foi um acidente nuclear dentro de um reator. A magnitude de Chernobyl é infinitamente maior”, explicou.

Ele destacou que, enquanto o acidente soviético provocou mortes imediatas em grande escala, o caso brasileiro teve impacto localizado e controlado ao longo do tempo.

“Não existe contaminação hoje”

Seraine também contestou a ideia de que ainda haja áreas contaminadas em Goiânia quase quatro décadas depois.

“Não existe nada em Goiânia hoje. Se existisse, qualquer detector acusaria. Isso é ilusão, é fruto de radiofobia”, afirmou.

O especialista apontou que o medo da radiação foi amplificado por eventos históricos e pela cultura popular, mas nem sempre corresponde à realidade científica.

Benefícios da radiação são ignorados

Ao longo da entrevista, o professor insistiu na necessidade de equilibrar o debate, destacando os benefícios das radiações na medicina e na indústria.

“Quantas vidas já foram salvas pela mamografia? Quantas pessoas se curaram com radioterapia? As radiações fazem muito mais bem do que mal”, disse.

Ele lembrou ainda que a radiação está presente naturalmente no ambiente, inclusive em alimentos e no solo, sem representar risco à saúde em níveis controlados.

Debate atual: o caso Santa Quitéria

O programa também abordou o projeto de exploração de urânio em Santa Quitéria, no Ceará. Seraine defendeu que, se aprovado dentro dos critérios técnicos, o empreendimento não deve representar ameaça à população.

“Se houver qualquer problema, será detectado imediatamente. O controle é permanente”, afirmou.

Segundo ele, a energia nuclear, apesar do estigma, é uma das que menos impactam o meio ambiente em larga escala, especialmente quando comparada a outras fontes energéticas.

Entre o medo e a informação

O debate reforçou como a percepção pública sobre a radiação ainda é marcada por eventos traumáticos e representações ficcionais. Para Seraine, o desafio está em combater a desinformação com base científica.

“Muita coisa é fantasia. Para não ter fantasia, é preciso estudar e buscar informação com quem entende do assunto”, concluiu.


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Referências

Emergência Radioativa
Minissérie brasileira de drama inspirada no acidente com o Césio-137 em Goiânia. Está disponível na Netflix. A produção estreou em 2026, tem 5 episódios e foi criada por Gustavo Lipsztein. A direção é de Fernando Coimbra.

Chernobyl
Minissérie dramática da HBO sobre o desastre nuclear de 1986, frequentemente lembrada nas comparações com Emergência Radioativa. Está disponível na HBO Max, é dividida em 5 partes e voltou a ganhar audiência após o sucesso da série brasileira da Netflix.

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