“O trabalhador que colapsa por burnout não é mais fraco. Ele suportou demais”, afirma advogada

Especialista analisa o crescimento dos afastamentos por adoecimento mental, critica a precarização das relações de trabalho e defende maior proteção jurídica aos trabalhadores

Da Redação

O crescimento dos casos de burnout transformou a saúde mental em um dos principais temas das relações de trabalho no Brasil. O aumento dos afastamentos por adoecimento psicológico, os conflitos judiciais envolvendo doenças ocupacionais e as mudanças nas formas de organização do trabalho ampliaram o debate sobre os limites da produtividade e a responsabilidade das empresas na prevenção desses problemas.

O tema foi discutido no programa *Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, que recebeu a advogada trabalhista e previdenciária *Priscila Arraes Reino para analisar os impactos jurídicos da síndrome de burnout, os direitos dos trabalhadores e os desafios enfrentados por quem busca o reconhecimento da doença como relacionada ao trabalho.

Durante a entrevista, Priscila explicou que o burnout deixou de ser uma discussão restrita à área da saúde para ocupar espaço nas disputas trabalhistas e previdenciárias. Segundo ela, o avanço da precarização das relações de trabalho, aliado ao aumento das exigências de produtividade, tem contribuído diretamente para o crescimento dos casos de adoecimento.

“A gente vem tendo um movimento grande de diminuição dos direitos do trabalhador. Quanto menos direitos existem e quanto mais precarizada é a relação de trabalho, mais adoecidas ficam as pessoas”, afirmou.

Segundo a advogada, o Brasil registra um aumento expressivo dos afastamentos por burnout, embora os números oficiais ainda estejam distantes da realidade por causa da subnotificação. Ela explicou que muitos trabalhadores acabam sendo afastados pelo INSS com diagnósticos de ansiedade ou depressão sem que a doença seja reconhecida como decorrente do ambiente laboral.

Esse enquadramento produz consequências práticas importantes. Quando o benefício não é caracterizado como acidente de trabalho, o empregado perde garantias legais, como a estabilidade após o retorno e o recolhimento do FGTS durante o período de afastamento.

Trabalhador adoece antes de perceber o problema

Priscila descreveu o processo de adoecimento como gradual e silencioso. Segundo ela, a maior parte dos trabalhadores continua exercendo suas atividades até o limite do próprio organismo.

“Esse trabalhador não quer se afastar. A última coisa que ele quer é sair do trabalho. Ele suporta absurdos até colapsar.”

Ela observou que boa parte das pessoas acometidas pela síndrome acredita que precisa suportar qualquer condição de trabalho para preservar a carreira, especialmente aquelas que conquistaram, com muito esforço, uma posição profissional melhor do que a de suas famílias.

Entre os sintomas mais comuns estão queda de cabelo, insônia, crises de ansiedade, problemas gastrointestinais, doenças de pele, bruxismo, infecções recorrentes e episódios de dissociação, quando o trabalhador perde temporariamente a capacidade de reconhecer o ambiente ou até mesmo pessoas próximas.

“A pessoa não percebe que está adoecendo. Ela vai ignorando todos os sinais até parar na emergência achando que está tendo um infarto.”

Burnout é doença ocupacional

Durante a entrevista, a advogada fez questão de diferenciar burnout de outros transtornos psicológicos.

Segundo ela, embora compartilhe sintomas com ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, a síndrome de burnout possui uma característica específica: trata-se necessariamente de uma doença relacionada ao trabalho.

Ela explicou que o reconhecimento dessa condição é fundamental para garantir direitos previdenciários e trabalhistas ao empregado.

Relações de trabalho mais precárias ampliam o problema

Priscila também associou o aumento do burnout às transformações ocorridas nas relações de trabalho nos últimos anos.

Na avaliação da advogada, reformas legislativas, redução de direitos e novas formas de contratação aumentaram a insegurança dos trabalhadores.

Ela também chamou atenção para o avanço da hiperconectividade, que praticamente eliminou a separação entre jornada de trabalho e vida pessoal.

“O trabalho não acaba. O trabalhador vai para casa e recebe mensagem de madrugada. Não existe descanso. Isso deixou de ser exceção e virou regra.”

Justiça também influencia esse cenário

Ao comentar os desafios enfrentados pelos trabalhadores, Priscila afirmou que não apenas o Congresso Nacional, mas também decisões do Judiciário têm contribuído para ampliar a precarização das relações de trabalho.

Ela citou discussões envolvendo terceirização, pejotização e mudanças na legislação previdenciária como fatores que reduzem a proteção jurídica dos empregados.

Segundo a advogada, trabalhadores mais velhos enfrentam hoje um cenário particularmente difícil, pois precisam permanecer mais tempo no mercado em razão das mudanças nas regras de aposentadoria, ao mesmo tempo em que encontram maior dificuldade para conseguir emprego.

Fábio Sobral critica aumento da pressão sobre trabalhadores

O comentarista Fábio Sobral destacou que as atuais condições de trabalho diferem significativamente das vividas por gerações anteriores.

Segundo ele, o aumento das exigências de produtividade, a comunicação permanente por aplicativos e a intensificação do controle sobre os trabalhadores contribuíram para tornar o ambiente profissional mais desgastante.

“O trabalho acabou invadindo todos os horários da vida das pessoas.”

Para Fábio, parte das gerações anteriores tende a interpretar os novos casos de adoecimento como sinal de fragilidade, sem considerar que as condições atuais são mais intensas e exigentes do que no passado.

Livro orienta trabalhadores sobre seus direitos

Durante a entrevista, Priscila apresentou seu livro voltado aos trabalhadores acometidos por doenças relacionadas ao trabalho.

Segundo ela, a publicação foi escrita em linguagem acessível e reúne orientações práticas sobre documentação, perícias, processos judiciais, benefícios previdenciários e preservação de provas.

“O objetivo é ajudar o trabalhador a saber como agir desde o início para não perder direitos.”

SUS oferece atendimento especializado

Ao final da entrevista, a advogada lembrou que trabalhadores que enfrentam problemas relacionados ao adoecimento ocupacional podem buscar atendimento gratuito na rede pública.

Ela destacou a atuação dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e de outros serviços especializados do Sistema Único de Saúde.

Priscila também alertou para os riscos de substituir acompanhamento profissional por ferramentas de inteligência artificial.

“Quem precisa de atendimento em saúde mental deve procurar profissionais qualificados. Tecnologia pode ajudar em algumas situações, mas não substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.”

Referências

Burnout: Guia de sobrevivência jurídica para trabalhadores adoecidos
Autora: Priscila Arraes Reino

Escrito em linguagem acessível, o livro explica como documentar os primeiros sinais de esgotamento, preservar provas, lidar com a empresa e com o INSS e compreender os direitos trabalhistas e previdenciários de quem desenvolve doenças ocupacionais. A publicação também aborda os impactos da nova NR-1, que passou a exigir maior atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

Com 293 páginas, Burnout tem lei foi publicado pela AssedioNet e pode ser adquirido na Amazon por R$ 68,99.

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