Atitude Popular

“O voto não é decidido por razão, é decidido por emoção”

Em debate no Democracia no Ar, Christiano Fiúza e Ibiapino analisam a aproximação entre Ciro Gomes e Flávio Bolsonaro, discutem o avanço conservador no Ceará e alertam para os impactos da nova configuração política sobre a esquerda

A declaração de apoio de Ciro Gomes a Flávio Bolsonaro abriu uma nova frente de tensão no cenário político cearense e nacional, provocando reações entre antigos eleitores do pedetista, setores da esquerda e observadores da política local. O tema foi debatido nesta edição do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, que recebeu o psicanalista e consultor político Christiano Fiúza, com comentários de Ibiapino, para examinar o significado político e simbólico desse movimento.

Na conversa exibida no YouTube pela TV Atitude Popular, os debatedores avaliaram que a aproximação entre Ciro e o bolsonarismo não deve ser lida apenas como um gesto episódico, mas como parte de uma reorganização mais ampla das forças conservadoras no Ceará, com efeitos diretos sobre as disputas eleitorais de 2026. O debate também abordou o desgaste acumulado por Ciro ao longo dos últimos anos e a forma como ele tenta reposicionar sua imagem diante de um eleitorado mais à direita.

Para Christiano Fiúza, o movimento de Ciro em direção a esse campo político não chega a ser surpreendente. Segundo ele, há traços de longa duração na trajetória do ex-ministro que ajudam a explicar essa inflexão. “Se o Flávio tem esse bolsonarismo assintomático, o do Ciro sempre foi sintomático”, afirmou, ao relacionar o estilo do ex-governador cearense a uma postura mais autoritária e compatível com o ambiente político conservador que ganhou força no país na última década.

Fiúza sustentou que a leitura do fenômeno precisa ir além da rejeição moral ou da indignação imediata. Em sua avaliação, há um dado estrutural que a esquerda ainda enfrenta com dificuldade: o crescimento e a consolidação de um pensamento conservador entre as classes populares. “A gente percebeu de uma maneira mais concreta que existe um pensamento conservador muito forte entre as classes populares”, disse. Para ele, ignorar esse dado significa abrir mão da compreensão real do terreno político.

O consultor político destacou que a disputa eleitoral não se organiza apenas a partir de programas racionais de governo ou da comparação objetiva entre projetos. “O voto não é decidido por razão, é decidido por emoção”, resumiu. A frase condensa um dos argumentos centrais de sua análise: a política contemporânea é movida por vínculos afetivos, valores morais, medos coletivos e identificações simbólicas, e é nesse terreno que figuras como Ciro tentam disputar espaço.

Ao tratar do Ceará, Fiúza chamou atenção para a estreiteza das margens eleitorais recentes e para o peso dos temas de segurança pública, costumes e religião na definição do comportamento do eleitorado. Na sua avaliação, Ciro busca capturar justamente esse segmento mais conservador, que já demonstrou força nas urnas tanto nas eleições presidenciais quanto nas municipais. “O que o Ciro está tentando fazer é exatamente capturar esse eleitorado mais conservador”, afirmou.

Ele também observou que esse reposicionamento se expressa até na linguagem adotada pelo ex-ministro, que passou a incorporar com mais frequência referências religiosas e sinais voltados a um público identificado com valores tradicionais. Para Fiúza, trata-se de uma estratégia deliberada de comunicação política. Mais do que uma mudança retórica isolada, seria uma tentativa de conexão com o eleitorado que hoje ajuda a decidir eleições em boa parte do país.

Ibiapino, por sua vez, fez um resgate histórico da trajetória de Ciro Gomes e defendeu que essa aproximação com o bolsonarismo apenas explicita uma vocação antiga. Ele lembrou a origem política de Ciro no antigo PDS, legenda ligada à sustentação da ditadura militar, e afirmou que o pedetista jamais pertenceu de fato ao campo da esquerda. “Esse cara nunca será de esquerda. Esse cara sempre foi um oportunista”, disse, ao relatar episódios do passado político cearense e das sucessivas mudanças partidárias de Ciro.

Na mesma linha, Ibiapino afirmou que a guinada atual não rompe com uma identidade anterior, mas a revela. “Um homem desse não pode ser de esquerda, porque para ser de esquerda tem que ter no mínimo ética. Ele não tem”, declarou. Em sua leitura, a adesão ao campo antipetista e a aproximação com Flávio Bolsonaro derivam menos de uma conversão ideológica recente e mais de uma coerência de fundo com um perfil político marcado pelo personalismo e pelo pragmatismo.

O comentarista também ampliou o debate ao situar o crescimento conservador dentro de uma formação histórica brasileira marcada por desigualdade, mando oligárquico e deficiência educacional. Ao citar pensadores como Platão, Aristóteles, Simón Bolívar e José Martí, Ibiapino argumentou que o comportamento político das massas não pode ser separado das condições materiais e culturais em que a sociedade foi moldada. Para ele, a ignorância política e a manipulação emocional permanecem como instrumentos decisivos de dominação.

Apesar do diagnóstico duro sobre a conjuntura, Ibiapino rejeitou a tese de que a esquerda tenha abandonado completamente suas bases sociais. Em sua fala, ele enumerou políticas públicas dos governos petistas, como expansão das escolas técnicas, fortalecimento do ensino integral, programas de transferência de renda e ampliação do acesso à universidade, para defender que houve, sim, presença concreta junto à população trabalhadora. O problema, sugeriu, estaria menos na ausência dessas políticas e mais na disputa narrativa sobre seus efeitos.

Ao longo do programa, o debate também tocou em uma das principais preocupações da esquerda cearense para o próximo ciclo eleitoral: a possibilidade de formação de um bloco unificado da direita e da extrema direita em torno de um discurso antipetista, explorando sobretudo temas como violência urbana, insegurança e desgaste dos governos progressistas. A expectativa de um encontro entre Ciro Gomes e Flávio Bolsonaro em abril foi lida como um possível marco de consolidação dessa aliança.

A avaliação dos convidados é que o Ceará, historicamente visto como um território de peso para o campo progressista no Nordeste, pode se transformar num dos palcos mais intensos da disputa entre projetos políticos antagônicos em 2026. Nesse cenário, a capacidade da esquerda de compreender o eleitorado real, e não apenas o eleitorado idealizado, aparece como um dos pontos centrais do debate.

Sem apresentar respostas fáceis, a edição do Democracia no Ar terminou deixando uma advertência clara: a reorganização da direita no Ceará não deve ser subestimada, especialmente quando incorpora quadros experientes, figuras de apelo popular e agendas capazes de mobilizar afetos, ressentimentos e valores conservadores. Para os debatedores, entender esse movimento é condição indispensável para qualquer reação política consistente no campo democrático.

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