Senador do PSD derrota Professora Maria do Carmo (PL) no segundo turno e retorna ao governo do Amazonas após 12 anos. Com cerca de 60% dos votos válidos durante a apuração, o ex-presidente da CPI da Covid supera a candidata apoiada pelo bolsonarismo e consolida uma ampla aliança que inclui PT, MDB e Republicanos. A vitória recoloca Aziz no comando do maior estado brasileiro em território, diante dos desafios da saúde pública, da Zona Franca de Manaus, da segurança nas fronteiras e da preservação da floresta amazônica.
Da Redação
O senador Omar Aziz (PSD) foi eleito governador do Amazonas neste domingo, 25 de outubro de 2026, ao derrotar a empresária e educadora Professora Maria do Carmo Seffair (PL) no segundo turno das eleições estaduais. Com 86,24% das urnas apuradas, Aziz registrava 60,02% dos votos válidos, equivalentes a 1.096.099 votos, contra 39,98% da adversária, que somava 730.068 votos. A vantagem tornou matematicamente irreversível o resultado e confirmou o retorno do político ao Palácio do Governo, 12 anos depois de deixar o Executivo estadual para disputar uma cadeira no Senado. A vitória também consolida uma aliança que reúne setores do centro político, partidos da base de Luiz Inácio Lula da Silva e lideranças regionais com longa participação na administração amazonense.
Aos 68 anos, Omar Aziz retorna ao governo depois de uma campanha marcada pela disputa entre duas coalizões de orientações políticas distintas. De um lado, sua candidatura, apoiada pelo PSD, MDB, Republicanos e pela Federação Brasil da Esperança, integrada por PT, PCdoB e PV. Do outro, Maria do Carmo, filiada ao PL e apoiada pelo Novo, que procurou reunir o eleitorado conservador e explorar a insatisfação com a situação dos serviços públicos estaduais. A disputa ganhou dimensão nacional pela participação de lideranças vinculadas ao presidente Lula e ao campo político do ex-presidente Jair Bolsonaro, num momento em que o país também decidia seu futuro presidencial.
O resultado confirmou a vantagem construída por Aziz desde o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Naquela votação, o senador havia recebido 841.846 votos, correspondentes a 40,63% dos válidos. Maria do Carmo terminou em segundo lugar, com 507.335 votos, ou 24,49%. Roberto Cidade (União Brasil), então governador do estado, ficou na terceira posição, com 21,91%, enquanto o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), alcançou 10,54%. A distribuição desses votos abriu uma disputa importante pela reorganização das alianças e pelo apoio dos eleitores das candidaturas eliminadas.
No segundo turno, Aziz ampliou significativamente sua votação, enquanto Maria do Carmo também conquistou novos apoios. A diferença entre os candidatos, entretanto, permaneceu expressiva. O resultado consolidou a posição do senador entre as principais lideranças estaduais e demonstrou sua capacidade de reunir uma coalizão com presença tanto na capital quanto nos municípios do interior. A composição desse apoio possui especial importância num estado em que as condições de vida, a economia e a organização dos serviços públicos apresentam diferenças profundas entre Manaus e as comunidades distribuídas pelas extensas bacias hidrográficas amazônicas.
Os números municipais divulgados durante a apuração ilustram essa diversidade territorial. Em Manaus, onde a concentração populacional e a disputa partidária são mais intensas, o resultado foi apertado: com 99,73% das urnas da capital contabilizadas, Omar Aziz aparecia com 50,34% dos votos válidos, contra 49,66% de Maria do Carmo. Já em municípios do interior a diferença foi muito maior. Em Maraã, por exemplo, Aziz recebeu 80,96% dos votos válidos, enquanto a candidata do PL alcançou 19,04%. Em Jutaí, a votação foi de 76,70% para o senador e 23,30% para sua adversária. Esses resultados mostram a importância do interior na formação da maioria estadual, embora não autorizem tratar todos os municípios como um eleitorado politicamente uniforme.
A vitória também assegura a Alessandra Campelo (PSD), integrante da chapa de Aziz, o cargo de vice-governadora. Deputada estadual com atuação na política amazonense, Alessandra participou da construção da coligação e deverá integrar a articulação administrativa do novo governo. A formação da equipe e a distribuição de responsabilidades entre os partidos aliados serão etapas importantes para compreender como a maioria eleitoral será transformada em capacidade de governar.
Omar Aziz nasceu em Garça, no interior de São Paulo, mas construiu sua vida pública no Amazonas, onde chegou ainda jovem. Formado em engenharia civil pela Universidade Federal do Amazonas, participou do movimento estudantil durante os últimos anos da ditadura militar. Em 1981, assumiu a presidência da organização estudantil de engenharia que daria origem ao diretório acadêmico do curso. Três anos depois, participou da direção do Diretório Central dos Estudantes da universidade, integrando uma geração politicamente formada durante o processo de redemocratização brasileira.
Sua trajetória institucional começou na Câmara Municipal de Manaus, onde exerceu dois mandatos como vereador. Posteriormente, foi deputado estadual e vice-prefeito da capital. Em 2002, integrou como candidato a vice-governador a chapa liderada por Eduardo Braga, sendo reeleito para a mesma função em 2006. A ascensão ao comando do estado ocorreu em março de 2010, quando Braga renunciou ao governo para concorrer ao Senado Federal. Aziz assumiu o Executivo e, naquele mesmo ano, disputou a eleição para governador, vencendo ainda no primeiro turno.
O período entre 2010 e 2014 consolidou sua presença na política estadual. A administração ficou associada a obras de infraestrutura, investimentos na rede pública de saúde e iniciativas na educação. Entre os empreendimentos daquele período, a Ponte Rio Negro tornou-se uma referência da integração territorial entre Manaus e municípios da região metropolitana. Na área da saúde, o Hospital e Pronto-Socorro Delphina Rinaldi Abdel Aziz passou a integrar a estrutura hospitalar da capital, em meio a um debate permanente sobre a expansão e a qualidade do atendimento especializado.
Essas experiências foram frequentemente retomadas durante a campanha de 2026. Aziz apresentou seu histórico administrativo como argumento para defender a capacidade de reorganizar os serviços públicos estaduais. Seus adversários, por outro lado, questionaram resultados de administrações anteriores e defenderam mudanças mais profundas na maneira como o governo distribui recursos e executa políticas públicas.
Em abril de 2014, Omar Aziz deixou o Executivo para disputar o Senado. Eleito com mais de 930 mil votos, iniciou seu mandato parlamentar em 2015 e foi reeleito em 2022. A passagem pelo Congresso ampliou sua projeção nacional, especialmente durante a pandemia de Covid-19, quando presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Senado para investigar as ações e omissões do poder público no enfrentamento da emergência sanitária.
A CPI da Pandemia tornou-se um dos acontecimentos mais importantes da história parlamentar recente. Entre os fatos examinados estava o colapso do fornecimento de oxigênio hospitalar em Manaus, em janeiro de 2021, quando unidades de saúde enfrentaram escassez do insumo e pacientes morreram em meio à crise assistencial. A comissão investigou a atuação de autoridades federais, estaduais e municipais, contratos públicos, políticas de vacinação e decisões administrativas relacionadas à pandemia.
Presidida por Omar Aziz, a CPI produziu um relatório final que recomendou a responsabilização de diversos agentes públicos e privados, incluindo Jair Bolsonaro. As conclusões da comissão constituíram pedidos de investigação e responsabilização, não condenações judiciais definitivas. A atuação de Aziz naquele processo marcou sua imagem pública e estabeleceu uma associação política importante entre sua trajetória no Senado e as críticas à condução da pandemia pelo governo Bolsonaro.
A lembrança da crise sanitária possui significado particular no Amazonas. O estado enfrentou dificuldades severas de infraestrutura hospitalar, distribuição de insumos e atendimento às comunidades afastadas dos grandes centros. A pandemia expôs desigualdades antigas relacionadas às distâncias geográficas, à concentração de serviços especializados em Manaus e às limitações do transporte sanitário. Esses problemas continuam presentes e deverão ocupar lugar central no novo mandato.
Durante a campanha, Aziz apresentou propostas de ampliação da rede hospitalar, incluindo a construção de um hospital público especializado no atendimento à população idosa, um novo hospital geral em Manaus e três maternidades. Para o interior, defendeu a implantação de hospitais regionais e a ampliação da assistência especializada. Também anunciou medidas para reduzir as filas do Sistema de Regulação, problema que afeta pacientes à espera de consultas, exames e cirurgias.
A execução dessas propostas dependerá da capacidade financeira do estado, da formação de equipes médicas, da manutenção dos equipamentos e da articulação entre a rede estadual e os serviços municipais. No Amazonas, a construção de uma unidade de saúde constitui apenas parte do desafio: é necessário assegurar profissionais, medicamentos, transporte de pacientes e funcionamento contínuo em regiões onde o deslocamento entre cidades pode exigir muitas horas de viagem fluvial.
A educação também esteve no centro da disputa. Omar Aziz defendeu a expansão da formação técnica, a preparação de jovens para atividades industriais e a criação de oportunidades de estágio remunerado. Entre suas propostas estão a retomada do programa Jovem Cidadão, o fortalecimento da capacitação profissional e a valorização dos trabalhadores da educação, com discussão sobre carreira, remuneração e condições de trabalho.
Maria do Carmo, sua adversária, concentrou parte importante de sua campanha justamente na crítica à qualidade dos serviços educacionais. Empresária do setor de ensino superior e ligada ao Centro Universitário Fametro, a candidata do PL defendeu a ampliação da educação em tempo integral, o reforço escolar e medidas voltadas à valorização dos professores. Também apresentou propostas para segurança pública, gestão administrativa e enfrentamento de problemas estruturais do estado.
O confronto entre as candidaturas mostrou que determinadas preocupações eram compartilhadas, embora suas propostas de execução e suas alianças políticas fossem diferentes. Saúde, educação e segurança apareceram como demandas recorrentes de uma população que convive com problemas históricos de infraestrutura e acesso aos serviços públicos.
A questão econômica acrescenta outra dimensão aos desafios do governo eleito. A Zona Franca de Manaus constitui um dos principais polos industriais do país e desempenha papel decisivo na arrecadação, na geração de empregos e na organização econômica da capital amazonense. Sua importância, entretanto, convive com desigualdades territoriais e com a necessidade de diversificar as atividades produtivas em municípios que dependem de comércio, serviços, atividades extrativistas e transferências públicas.
Omar Aziz defendeu durante a campanha o fortalecimento da Zona Franca, a atração de investimentos, a formação profissional e a ampliação de oportunidades econômicas no interior. A discussão envolve também a capacidade de integrar desenvolvimento industrial e proteção ambiental, especialmente diante das transformações tecnológicas e das mudanças nas cadeias produtivas internacionais.
A dimensão ambiental não pode ser tratada como assunto secundário no governo do maior estado brasileiro em extensão territorial. O Amazonas concentra uma parcela estratégica da floresta tropical sul-americana, abriga enorme diversidade de povos indígenas e comunidades tradicionais e ocupa posição central na regulação climática regional. Ao mesmo tempo, enfrenta pressões relacionadas ao desmatamento, às queimadas, ao garimpo ilegal, à exploração predatória de recursos naturais e à expansão de organizações criminosas sobre rotas fluviais e regiões de fronteira.
Durante a campanha, Aziz apresentou propostas para reduzir a dependência de geradores a diesel em comunidades isoladas, ampliar o uso de energia solar, fortalecer o monitoramento ambiental e organizar brigadas municipais de combate às queimadas. A efetividade dessas medidas dependerá de investimentos, capacidade de fiscalização e cooperação com órgãos federais e administrações locais.
A segurança pública representa outro desafio estrutural. A localização geográfica do Amazonas, com extensas fronteiras internacionais e uma rede hidrográfica que conecta municípios e países vizinhos, exige estratégias próprias de combate ao narcotráfico, ao tráfico de armas e a outras atividades criminosas. O governador eleito prometeu reforçar as forças policiais, realizar concursos públicos, valorizar carreiras e ampliar o funcionamento das delegacias, inclusive no interior.
A complexidade dessas tarefas exige articulação entre polícias estaduais, Polícia Federal, forças de segurança dos países vizinhos, sistema de Justiça e órgãos de proteção ambiental. A repressão às organizações criminosas precisa ser acompanhada por políticas sociais, oportunidades econômicas e proteção às comunidades vulneráveis, sobretudo nas regiões onde a presença do poder público é limitada.
A vitória de Aziz também modifica a configuração política do Amazonas em relação ao governo federal. O senador integrou uma coligação que recebeu apoio do PT e de outras legendas associadas ao presidente Lula, ao mesmo tempo em que manteve alianças com partidos de centro. Essa composição lhe oferece uma rede política ampla, mas poderá exigir negociações entre grupos com prioridades e interesses diferentes.
A relação com o governo federal será particularmente importante em áreas nas quais as competências administrativas são compartilhadas. Saúde indígena, infraestrutura de transportes, fiscalização ambiental, segurança de fronteiras, investimentos industriais e políticas de desenvolvimento regional dependem de cooperação entre diferentes níveis de governo. O novo governador deverá administrar essas relações sem perder de vista as responsabilidades próprias do Executivo estadual.
O retorno de Omar Aziz também evidencia a continuidade de lideranças tradicionais na política amazonense. Sua trajetória inclui décadas de atuação no Legislativo e no Executivo, sucessivas alianças partidárias e participação em diferentes administrações. A experiência acumulada pode favorecer o conhecimento da estrutura estatal, mas também amplia as exigências de prestação de contas e avaliação dos resultados de suas políticas.
A eleição representa, portanto, mais do que a vitória de uma candidatura. Ela reorganiza a relação entre partidos, lideranças municipais e grupos políticos que disputam o comando do Amazonas, além de estabelecer novas condições para a atuação da oposição estadual. Maria do Carmo e seus aliados, que receberam uma parcela expressiva dos votos, continuarão representando um segmento importante do eleitorado, especialmente na capital.
Para o governador eleito, o resultado significa o retorno a uma administração que conhece, mas que enfrentará problemas diferentes daqueles observados durante seu primeiro período no poder. A expansão das organizações criminosas, as transformações climáticas, a necessidade de diversificação econômica, a pressão sobre os serviços públicos e as dificuldades das populações do interior constituem desafios de grande dimensão.
A eleição deste domingo encerra uma disputa marcada pela presença de lideranças nacionais, por projetos distintos de administração pública e por uma divisão territorial significativa do eleitorado. Omar Aziz venceu com uma maioria expressiva no conjunto do estado, construída especialmente com forte votação em municípios do interior, enquanto Manaus apresentou uma competição mais equilibrada.
O senador retorna ao Executivo amazonense com uma base partidária ampla e compromissos públicos nas áreas de saúde, educação, segurança e desenvolvimento. A partir de janeiro de 2027, a avaliação de seu novo mandato dependerá da capacidade de transformar essas propostas em resultados concretos para uma população que vive realidades profundamente diferentes entre a metrópole industrial, as cidades ribeirinhas e as comunidades isoladas da floresta.
A vitória assegura a Omar Aziz mais uma oportunidade de governar o Amazonas. O desafio que se apresenta é fazer com que a presença do Estado, os investimentos públicos e os benefícios do desenvolvimento econômico alcancem também os territórios mais distantes, onde as necessidades sociais permanecem entre as questões fundamentais da vida amazonense.

