Atitude Popular

“Os palestinos vão ter uma solução econômica, mas não vão ter autodeterminação política”

Para o sociólogo palestino Jawdat Abu-El-Haj, acordo costurado por Donald Trump com líderes árabes e Israel encerra a guerra em Gaza, mas consolida o genocídio, destrói a possibilidade de um Estado palestino e reforça a extrema direita na região

O que está sendo vendido ao mundo como “acordo de paz” para Gaza, na avaliação do professor de Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) Jawdat Abu-El-Haj, é outra coisa: um arranjo geopolítico que encerra a guerra, movimenta bilhões na reconstrução e sepulta a autodeterminação palestina.

A análise foi feita no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado excepcionalmente pela professora Sandra Helena, em edição dedicada inteiramente à Palestina. Ao longo de quase uma hora, Abu-El-Haj – palestino de origem – fez um balanço duro dos últimos dois anos, criticou tanto a extrema direita israelense quanto a estratégia do Hamas e apontou o perigo de um “laboratório” de ultradireita sendo testado diante dos olhos do mundo.

“Estamos falando de 10% da população de Gaza morta ou ferida. Certamente vão morrer outras centenas de milhares por falta de assistência médica, saneamento, água, energia. Houve um esforço sistemático de inviabilizar Gaza”, resumiu.

De Oslo ao 7 de outubro: fracasso político e ascensão da extrema direita

Abu-El-Haj situa o crescimento do Hamas como fruto do fracasso dos Acordos de Oslo, firmados nos anos 1990 como promessa de paz entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

“Hamas é produto do fracasso de Oslo”, afirma.

Ele lembra que a morte do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, assassinado por um extremista judeu contrário à paz, abriu caminho para a ascensão de Benjamin Netanyahu e de uma direita cada vez mais radicalizada em Israel. A cada eleição, argumenta, o espectro político israelense “migrou mais à direita”, até chegar a um governo que flerta abertamente com o apartheid e com a erosão das próprias regras democráticas.

“É um grupo ideológico que acredita que Israel tem que ter um caráter nacional judaico. Isso significa estabelecer um sistema de apartheid entre palestinos e israelenses – e até entre judeus, criando castas dentro do próprio país.”

Na ponta desse processo, surgem figuras como o ministro Itamar Ben-Gvir, citado pelo professor como “protótipo” da extrema direita israelense: agressivo, autoritário, disposto a humilhar até o comando das Forças Armadas.

Crítica ao Hamas: “uma escolha estratégica terrível”

Se a crítica à extrema direita israelense é contundente, o Hamas também não é poupado. Para Abu-El-Haj, o movimento islâmico cometeu erros gravíssimos em dois níveis:

  1. Mergulhou em disputas regionais (Turquia, Irã, Síria, Egito), traindo a linha histórica do movimento nacional palestino, que buscava manter independência em relação às potências árabes.
  2. Rompeu a regra de ouro da política palestina, ao dar um golpe contra a Fatah em Gaza, em 2007, e abrir espaço para uma guerra interna que custou centenas de vidas.

Sobre o ataque de 7 de outubro de 2023, ele é direto:

“Hamas demonstrou muita imprudência, muita irresponsabilidade política. Eu ouvi várias explicações de líderes do Hamas para o 7 de outubro e cada um diz uma coisa diferente. Faltou clareza.”

As justificativas vão de tentativa de troca de prisioneiros à vontade de “chocar a opinião pública mundial”, mas, na prática, diz o professor, o ataque forneceu à extrema direita israelense a narrativa perfeita:

“O ataque de 7 de outubro trouxe toda a imagem do Holocausto. A mensagem é que o palestino não quer um Estado, quer matar judeus. Isso caiu como uma luva para a ultradireita israelense.”

E, ao mesmo tempo, expôs a população de Gaza a uma reação devastadora cujo alcance, argumenta ele, era previsível: nenhum país árabe entraria em guerra para defendê-los.

“Os países árabes não vão se levantar para defender a população de Gaza. Cada um vive sua própria crise: guerras civis, instabilidade, conflitos regionais. Era ilusão esperar um levante regional.”

“Um genocídio televisionado”: Gaza e o abandono da humanidade

Desde outubro de 2023, o mundo viu – em tempo real – bairros inteiros de Gaza reduzidos a escombros, hospitais bombardeados, igrejas e mesquitas atingidas, campos de refugiados destruídos. Para Abu-El-Haj, não há outra palavra:

“Foi um genocídio. Estamos falando de 10% da população de Gaza morta ou ferida. E muitos ainda vão morrer pela destruição completa do sistema de saúde, de saneamento, de água, de energia.”

Ele destaca ainda o número inédito de jornalistas mortos na cobertura do conflito:

“Foram mais de 250 jornalistas mortos em dois anos, a maior baixa de jornalistas da história. Antes, quando morria um repórter em guerra, como o Robert Capa no Vietnã, era um evento mundial. Hoje, morrem dezenas e são enterrados no esquecimento.”

Para o sociólogo, o que choca não é apenas a violência em si, mas a forma como ela foi naturalizada pelo chamado ‘mundo civilizado’. Ele compara a comoção seletiva com as vítimas civis na Ucrânia – amplamente exibidas e lamentadas – e o silêncio ou tratamento frio diante das imagens de Gaza:

“Quando uma criança ucraniana morre, vemos a indignação estampada no rosto dos apresentadores. Em Gaza, a mesma sensibilidade não aparece. É um silêncio que se converte em cumplicidade.”

Trauma do Holocausto, orientalismo e desumanização

Ao analisar a sociedade israelense, Abu-El-Haj diz que o país carrega dois elementos profundos: o trauma do Holocausto e uma visão orientalista dos árabes.

“É uma mistura do trauma do Holocausto com o orientalismo. Israel se vê como uma civilização cercada pela barbárie, por povos que só entendem a linguagem da violência.”

Segundo ele, essa combinação sustenta uma mentalidade militar e política que legitima a violência desproporcional: “se o outro ataca, é preciso multiplicar por dez a resposta”. Isso, somado à experiência histórica de abandono dos judeus na Segunda Guerra, alimenta a sensação de que “ninguém virá em nosso socorro”, justificando ações extremas.

Mas o professor insiste que é justamente esse trauma que precisa ser ressignificado:

“A sociedade israelense precisa se libertar disso. O Holocausto tem que ser visto como um drama humanitário, um ensinamento para toda a humanidade, não como licença para repetir com outro povo o que foi feito com os judeus.”

A desumanização fica clara quando autoridades israelenses se permitem chamar palestinos de “animais humanos”, linguagem idêntica à usada pelos nazistas contra os judeus, aponta ele.

“Os palestinos vão ter uma solução econômica, mas não vão ter autodeterminação política”

Entrando no tema central do programa – o “acordo” impulsionado por Donald Trump –, Abu-El-Haj descreve o que enxerga como uma grande operação política e econômica:

  1. Washington retoma o protagonismo no Oriente Médio: “Os Estados Unidos estão dizendo: quem decreta o início e o fim da guerra é a Casa Branca.”
  2. Trump reúne líderes árabes (Turquia, Jordânia, Egito, Arábia Saudita e outros) e define que a guerra tem de acabar – não por compaixão, mas por conveniência estratégica.
  3. Bilionários e grupos do setor imobiliário entram em cena como “parceiros” na reconstrução de Gaza.

“A impressão é que os palestinos vão ter uma solução econômica, mas não vão ter autodeterminação política. Vai haver reconstrução, vai entrar muito investimento, mas a ideia de um povo com direito a decidir seu destino está sendo enterrada.”

Na visão do professor, o cenário que se desenha é o seguinte:

Gaza vira um grande canteiro de obras financiado por capital estrangeiro, sem soberania real.
Cisjordânia (S Jordânia, como ele pronuncia) pode ser formalmente anexada por Israel, com a anuência de Washington, inviabilizando de vez qualquer Estado palestino independente.
A Autoridade Nacional Palestina, envelhecida e sem legitimidade, tende a ser esvaziada até se tornar irrelevante.

“A autodeterminação não vai existir nem em Gaza, nem na Cisjordânia. Para o governo Trump, não há problema se Israel anexar tudo.”

Sociedade israelense entre o medo e a autocensura

Questionado sobre o clima interno em Israel, Abu-El-Haj fala em um ambiente de autocensura generalizada:

“Não é que haja só censura do governo. Há autocensura. As pessoas têm medo de serem chamadas de antissemitas internas, de traidoras, de não patriotas. É muito difícil se opor frontalmente a essa política no momento.”

Mesmo setores que antes se apresentavam como “moderados” aderiram ao discurso de que “todo habitante de Gaza é Hamas” e portanto alvo legítimo. E a aparente recuperação de prestígio de Netanyahu após o acordo preocupa o sociólogo:

“O perigo é que Netanyahu consiga se apresentar como herói da guerra. A popularidade dele está subindo de novo e a oposição não tem um concorrente à altura.”

Mudança de estratégia: do Estado étnico ao Estado de direito

Diante da devastação, Abu-El-Haj defende uma mudança profunda de estratégia tanto entre palestinos quanto entre setores democráticos em Israel.

Ele critica o modelo de “Estado judaico” e também a ideia de um futuro “Estado islâmico” palestino: ambos produzem um sistema de castas e excluem parte da população.

“Se você mistura religião com política, cria uma sociedade de castas. O Estado democrático de direito é incompatível com um Estado definido por um caráter étnico ou religioso.”

Em lugar disso, ele propõe que a luta passe a se concentrar na defesa de um Estado de direito multinacional, acima das identidades religiosas, com direitos iguais para todos dentro do mesmo território – algo semelhante à ideia de um Estado plurinacional.

“É muito difícil no momento atual, mas não vejo outra saída. É preciso contestar a lógica do Estado judaico e do Estado islâmico e defender um Estado de direito para todos.”

Lideranças possíveis – e silenciadas

No campo palestino, Abu-El-Haj menciona um nome que, em sua avaliação, poderia unificar o povo: Marwan Barghouti, líder preso em Israel há décadas.

“Se Marwan Barghouti sair da cadeia, ele ganha a eleição contra todos. Ele defende o Estado de direito para palestinos e israelenses.”

Justamente por isso, avalia o professor, nem Israel, nem o Hamas, nem parte da própria Autoridade Palestina têm interesse em vê-lo livre.

“Diferente de Nelson Mandela, que virou presidente da África do Sul, temo que Barghouti vá morrer na prisão.”

Gaza como laboratório da extrema direita global

Ao final do programa, a professora Sandra Helena resumiu um ponto central da conversa: a ideia de que a Palestina, e em especial Gaza, está funcionando como “experiência piloto” para um mundo moldado pela extrema direita.

Abu-El-Haj concorda. O que está sendo testado ali – ocupação permanente, desumanização de um povo, naturalização do genocídio, uso massivo de tecnologia militar e controle da narrativa – pode ser aplicado em outros lugares, contra outros povos.

“O que acontece com eles lá pode acontecer com qualquer outro, em qualquer lugar. Ninguém está preservado”, alerta.

O chamado à solidariedade com a Palestina, portanto, não é só moral ou humanitário – é também tático e estratégico. Defender o direito dos palestinos à vida, à terra e à autodeterminação é defender, em última instância, o próprio futuro da democracia e dos direitos humanos no mundo.

📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89

compartilhe: