Jornalistas Katia Marko e Ramênia Vieira discutem o papel histórico das mulheres na democratização da comunicação, o avanço da misoginia nas redes e os desafios para ampliar a presença feminina nos espaços de poder
As mulheres sempre estiveram na linha de frente da luta pela democratização da comunicação no Brasil. Seja nas rádios comunitárias, nos coletivos de comunicação popular ou nas redações jornalísticas, elas ajudaram a construir um campo comunicacional mais plural, comprometido com a cidadania e com a justiça social.
Esse foi o tema central do segundo episódio especial de março do programa Vozes pela Democracia, iniciativa do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), apresentada por Sousa Jr. A edição reuniu duas jornalistas com atuação destacada na área: Katia Marko, editora do Brasil de Fato RS e coordenadora-geral do FNDC, e Ramênia Vieira, especialista em gestão de políticas públicas e representante da sociedade civil no Conselho Gestor do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) e no Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional.
Durante a entrevista, as convidadas analisaram os avanços da presença feminina no campo da comunicação, mas também alertaram para os desafios persistentes, como o crescimento da misoginia nas redes sociais, a violência política contra mulheres e a sub-representação feminina em posições de poder.
Mulheres à frente da comunicação
Ao comentar a crescente presença feminina em cargos de liderança no setor, Katia Marko destacou que as mulheres vêm ocupando espaços importantes dentro do jornalismo e das instituições ligadas à comunicação.
Segundo ela, o avanço é visível em diferentes frentes, desde sindicatos e entidades da sociedade civil até redes de comunicação pública e comunitária.
“Estamos tomando a frente em vários espaços importantes da comunicação”, afirmou a jornalista. Ela citou exemplos como a presença de mulheres na direção da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), no próprio FNDC e em diversas iniciativas de comunicação popular e comunitária espalhadas pelo país.
Katia também ressaltou que a atuação feminina tem contribuído para transformar o olhar da imprensa sobre temas sociais sensíveis, especialmente a violência contra as mulheres.
Para ela, a presença de mulheres nas redações e nos espaços de decisão ajuda a romper com práticas históricas da cobertura jornalística que, muitas vezes, culpabilizam as vítimas.
“A imprensa ainda trabalha com a culpabilização da mulher. Pergunta o que ela fez para apanhar ou para morrer. O foco continua sendo a mulher, mesmo morta, e não o homem que assassinou”, criticou.
Violência contra mulheres e papel da comunicação
O debate também abordou o aumento da violência contra mulheres no país e o papel que a comunicação pode desempenhar no enfrentamento desse cenário.
Katia lembrou que o Dia Internacional da Mulher tem origem nas lutas das mulheres socialistas e afirmou que a data deve servir também para denunciar os casos de feminicídio e violência de gênero.
Ela destacou que os números continuam alarmantes e citou dados sobre assassinatos e estupros registrados no país, além do crescimento do discurso de ódio nas redes sociais.
“A gente está vendo um aumento da misoginia, desse ódio às mulheres, cada vez mais feroz nas redes sociais”, afirmou.
Ramênia Vieira também chamou atenção para a relação entre a disseminação de conteúdos violentos nas plataformas digitais e o aumento da hostilidade contra mulheres na vida pública.
Segundo ela, os algoritmos das redes sociais acabam impulsionando discursos misóginos, especialmente entre jovens.
“Tem uma geração chegando com ódio das mulheres, adolescentes e jovens que estão consumindo conteúdos que estimulam essa violência e essa hostilidade”, alertou.
Para a jornalista, a falta de regulação das plataformas digitais contribui para ampliar esse problema.
“As plataformas são remuneradas para distribuir discurso de ódio e violência política”, disse.
Democracia, eleições e representação feminina
Outro ponto abordado no programa foi a participação das mulheres na política e a importância das eleições para ampliar a representação feminina nas instituições.
Katia Marko afirmou que, apesar de as mulheres representarem mais da metade da população brasileira, sua presença no parlamento ainda está muito abaixo do ideal.
Ela criticou a dificuldade que partidos políticos têm para cumprir até mesmo a cota mínima de candidaturas femininas.
“Olha a dificuldade que é essa questão das cotas de 30%. Quantos partidos utilizam candidaturas laranjas apenas para cumprir a regra”, afirmou.
Para a jornalista, ampliar a presença feminina nos espaços de poder exige mudanças estruturais dentro das próprias organizações políticas.
“Para uma mulher ocupar um espaço, alguém precisa liberar esse espaço”, declarou.
Segundo ela, isso implica redistribuir poder, recursos e visibilidade — algo que ainda encontra resistência dentro das estruturas políticas.
Democratização da comunicação
Ramênia Vieira destacou que a luta por igualdade de gênero também passa pela democratização do sistema de comunicação brasileiro.
Ela lembrou que o país ainda possui um modelo altamente concentrado, dominado por grandes grupos privados, o que limita a diversidade de vozes.
“A gente precisa ouvir mais vozes. E ouvir mais vozes significa também ouvir as mulheres, as mulheres rurais, as mulheres das cidades, as mulheres das periferias”, afirmou.
Para ela, fortalecer a comunicação pública, comunitária e independente é essencial para ampliar a pluralidade de perspectivas no debate público.
Um caminho ainda longo
Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, as convidadas concordaram que a construção de uma sociedade igualitária ainda exige mudanças profundas.
Segundo Ramênia, as mulheres que conseguem chegar aos espaços de poder ainda enfrentam obstáculos adicionais.
“Uma deputada, por exemplo, precisa trabalhar dez vezes mais do que um homem para ter um terço do reconhecimento”, afirmou.
O debate encerrou com um apelo para que a sociedade continue ampliando a discussão sobre igualdade de gênero e democracia, tanto no campo político quanto no sistema de comunicação.
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