Historiador Adriano Viaro debate mitos históricos, privilégios e contradições do antirracismo no Brasil em entrevista ao programa Democracia no Ar
O historiador, professor e comunicador Adriano Viaro, âncora do canal Diário do Centro do Mundo (DCM), foi o convidado do programa Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes na Rádio e TV Atitude Popular. Durante a entrevista, Viaro discutiu as ideias centrais de seu livro “Complexo de Princesa Isabel e outros ensaios antirracistas”, publicado pela Editora Emó, obra que provoca reflexões profundas sobre o racismo na sociedade brasileira e as contradições presentes até mesmo em setores progressistas.
A entrevista foi exibida pela Rede Cearense de Comunicação Popular e repercutiu temas que atravessam o debate contemporâneo sobre relações raciais no Brasil. O programa abordou desde a experiência pessoal do autor até críticas à forma como o racismo é discutido na academia, na política e na comunicação.
Logo no início da conversa, Viaro explicou que o livro não é uma obra convencional sobre o racismo, mas uma análise direta sobre comportamentos racistas presentes na sociedade.
“Meu livro não fala de racismo em nenhuma página. O meu livro é sobre racistas. É um papo de branco para branco, é dedo na ferida”, afirmou.
Racismo negado em uma sociedade racista
A obra parte de uma provocação central: o Brasil se reconhece como um país racista, mas poucos brasileiros admitem reproduzir práticas racistas no cotidiano. Essa contradição, segundo Viaro, cria uma espécie de negação coletiva que impede o enfrentamento real do problema.
O autor construiu o livro a partir de ensaios que inicialmente eram utilizados como material didático em cursos e aulas sobre relações raciais. Durante a pandemia, ele reuniu e revisou esses textos, transformando-os em capítulos que abordam diferentes perfis e comportamentos racistas presentes na sociedade brasileira.
A proposta do livro é provocar desconforto, especialmente entre leitores brancos.
“É um livro para branco ler, se identificar e se incomodar”, explicou.
O “complexo de Princesa Isabel”
O conceito que dá título ao livro se refere a uma visão histórica que atribui a libertação dos escravizados exclusivamente à princesa Isabel, reforçando uma narrativa em que a população negra aparece apenas como beneficiária da ação de elites brancas.
Para Viaro, essa leitura apaga a luta histórica de pessoas negras contra a escravidão e mantém uma lógica paternalista.
Segundo ele, muitas pessoas ainda reproduzem essa visão, inclusive em setores progressistas.
“O complexo de Princesa Isabel é essa ideia de que os brancos foram os libertadores e que continuam sendo os protagonistas das soluções para os problemas raciais”, explicou.
Da periferia à pesquisa histórica
Durante a entrevista, Viaro relatou como sua própria trajetória influenciou o interesse pelo tema racial. Nascido em Porto Alegre e criado em Alvorada, na região metropolitana da capital gaúcha, ele cresceu em um ambiente de periferia marcado pela convivência com comunidades negras.
Ele contou que passou por dificuldades econômicas na infância e que muitas vezes recebeu ajuda de famílias negras. Ao mesmo tempo, conviveu com o racismo dentro da própria família.
Segundo o historiador, essas experiências pessoais motivaram sua decisão de estudar história da escravidão e desigualdade racial no Brasil.
Ao longo de sua trajetória acadêmica, ele desenvolveu pesquisas sobre abolicionismo, desigualdade racial e quilombos, incluindo estudos sobre o Quilombo dos Palmares e a figura de Zumbi.
Críticas à academia
Um dos pontos mais polêmicos da entrevista foi a crítica de Viaro ao papel das universidades no enfrentamento do racismo.
Ele afirmou que a produção acadêmica frequentemente se limita à discussão teórica do problema, sem promover mudanças concretas na sociedade.
“A universidade brasileira forma intelectuais que sabem falar sobre racismo, mas isso não significa que ela esteja combatendo o racismo”, afirmou.
Segundo ele, muitas instituições acabam reproduzindo desigualdades ao exigir padrões culturais e acadêmicos que desvalorizam referências culturais negras.
Racismo na esquerda
Outro ponto levantado pelo historiador foi a presença de racismo dentro de setores progressistas.
Para ele, a crença de que pessoas de esquerda não podem ser racistas cria uma espécie de blindagem moral que dificulta o debate.
“O racista de direita não esconde o que é. O problema está na esquerda, porque ali o racismo aparece disfarçado”, afirmou.
Viaro argumenta que o enfrentamento ao racismo exige autocrítica constante e vigilância pessoal, inclusive entre aqueles que se consideram comprometidos com causas sociais.
Racismo e imaginário social
Durante a conversa, o historiador relatou um episódio pessoal que marcou sua percepção sobre o racismo estrutural. Ele contou que, certa vez, aguardava atendimento em uma clínica médica e não reconheceu um médico negro que havia passado por ele.
O episódio o levou a refletir sobre o que chamou de “negação do imaginário”, fenômeno em que a sociedade tende a associar automaticamente posições de prestígio a pessoas brancas.
“Percebi que eu mesmo não havia imaginado que aquele homem pudesse ser o médico”, relatou.
Para ele, esse tipo de mecanismo revela como o racismo opera de forma profunda e inconsciente na sociedade.
Comunicação e protagonismo branco
A entrevista também abordou o papel da mídia na construção de narrativas sobre racismo. Segundo Viaro, existe uma tendência de protagonismo branco nas discussões sobre desigualdade racial, inclusive em espaços progressistas.
Ele afirma que esse fenômeno reforça a lógica paternalista criticada no livro.
“Quando alguém acredita que precisa ensinar ao negro qual é o caminho político correto, aí surge novamente o complexo de Princesa Isabel”, afirmou.
Antirracismo como prática cotidiana
Ao final da entrevista, Viaro reforçou que o antirracismo não pode ser apenas um discurso moral ou acadêmico, mas uma prática permanente de reflexão e mudança de comportamento.
Segundo ele, enfrentar o racismo implica reconhecer privilégios históricos e questionar narrativas que naturalizam desigualdades.
O livro “Complexo de Princesa Isabel e outros ensaios antirracistas” reúne 150 páginas de reflexões que transitam entre história, política e experiências cotidianas, propondo ao leitor uma análise crítica das relações raciais no Brasil.
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