Da Redação
Enquanto o governo Trump amplia a Operação Lança do Sul, com dezenas de mortos em ataques navais e ameaça explícita de “ir até o problema em terra”, uma frente bipartidária no Congresso dos Estados Unidos corre contra o relógio para tentar impedir uma intervenção militar aberta na Venezuela, em choque direto com a Casa Branca, os generais e o lobby de guerra.
A crise em torno da Venezuela atingiu um ponto de tensão inédito em Washington. Enquanto o governo Donald Trump intensifica a Operação Lança do Sul, ampliando ataques navais no Caribe e consolidando um cerco militar em torno da Venezuela, parlamentares democratas e republicanos se articulam para impedir que a Casa Branca avance para uma intervenção aberta sem autorização formal do Congresso.
A movimentação do Legislativo norte-americano ocorreu após semanas de escalada militar. A Operação Lança do Sul, braço da já estruturada campanha militar Southern Spear, alcançou dezenas de ataques contra embarcações classificadas pelo governo dos Estados Unidos como “vinculadas ao narcotráfico”, resultando em dezenas de mortos e na mobilização de um complexo agrupamento naval que inclui o porta-aviões USS Gerald R. Ford e destróieres posicionados estrategicamente no Caribe e no Atlântico.
Em diversas declarações internas, parlamentares afirmam que as ações iniciais da operação foram realizadas sem comunicação adequada ao Congresso, violando o espírito da Resolução de Poderes de Guerra, que determina que nenhum presidente pode iniciar hostilidades prolongadas sem autorização legislativa. A insatisfação bipartidária se converteu em resoluções apresentadas na Câmara e no Senado buscando limitar explicitamente qualquer ação militar em território venezuelano.
Nomes influentes como Tim Kaine, Chuck Schumer, Adam Schiff, Jim McGovern e Joaquin Castro — ao lado dos republicanos Rand Paul e Thomas Massie — têm denunciado a ausência de transparência da Casa Branca e o risco de o país mergulhar em uma nova guerra de proporções regionais. Segundo eles, Trump está usando a lógica do “fato consumado”: autoriza ataques pontuais, constrói uma narrativa de ameaça e cria artificialmente uma situação que justifique uma intervenção ampliada.
As críticas ganharam força à medida que organizações de direitos humanos passaram a denunciar possíveis execuções extrajudiciais em alto-mar e o uso desproporcional de força contra embarcações já neutralizadas. Reportes indicam que sobreviventes teriam sido alvejados, o que acendeu sinais de alerta entre juristas internacionais e pressionou parlamentares norte-americanos a exigir esclarecimentos imediatos do Pentágono.
Internamente, o clima em Washington tornou-se explosivo. Em votação recente, uma resolução para barrar avanço militar sem aval do Congresso foi derrotada por margem estreita, evidenciando a divisão republicana: embora a maioria do partido apoie Trump, cresce o grupo que vê risco político, jurídico e estratégico em uma guerra aberta contra a Venezuela.
A opinião pública também se posiciona contra a escalada. Pesquisas recentes nos EUA mostram que a maioria da população rejeita uma guerra e enxerga falta de clareza nos objetivos estratégicos da Casa Branca. O desgaste se intensifica quando especialistas comparam o movimento ao Vietnã e ao Iraque: guerras apresentadas inicialmente como “cirúrgicas”, que rapidamente se tornaram operações prolongadas e devastadoras.
No cenário regional, a reação latino-americana tem sido contundente. Presidentes, chancelerias e blocos regionais têm defendido a América do Sul como zona de paz. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou em discursos internacionais e encontros multilaterais que qualquer conflito envolvendo a Venezuela afetaria diretamente a estabilidade regional e as fronteiras do Brasil. Lula tem defendido diálogo e criticado qualquer tentativa de solução militar, enfatizando que a crise de Essequibo não pode ser usada como justificativa para intervenção.
O tabuleiro geopolítico amplia os riscos. A disputa pelo território de Essequibo — onde se encontram vastas reservas de petróleo exploradas por gigantes petrolíferas internacionais — transformou a região em um foco de interesse estratégico para Washington, Londres e para o setor energético global. Para muitos analistas, o aumento da presença militar norte-americana na região não está dissociado da concorrência com a China, que expandiu investimentos na América do Sul nos últimos anos.
Enquanto isso, líderes religiosos e instituições internacionais também se posicionam. O Papa Leão, primeiro pontífice norte-americano, fez apelos diretos para que Washington evite repetir erros do passado e não empreenda uma ação militar contra a Venezuela, advertindo que os mais afetados seriam os civis.
A questão que se coloca agora não é apenas se haverá ou não uma invasão terrestre, mas qual forma de intervenção já está em curso. O conjunto de ações — ataques navais, cerco econômico, apoio seletivo à oposição e pressão internacional — conforma um cenário de guerra híbrida contra o governo de Nicolás Maduro.
A iniciativa dos parlamentares norte-americanos, portanto, assume importância histórica. Ela sinaliza ao mundo que existe um embate real dentro dos EUA sobre os limites do poder presidencial e sobre o uso da força militar em regiões estratégicas. Ainda assim, mesmo que uma resolução contra a guerra seja aprovada pelo Congresso, Trump tem poder de veto, o que exigiria maioria qualificada para derrubá-lo — algo dificilmente alcançável no atual equilíbrio político.
Enquanto isso, as horas que se passam são decisivas. A continuidade dos ataques e a forte presença militar no Caribe aumentam o risco de um incidente que sirva de justificativa para escalada. Basta um erro de identificação ou um choque isolado com forças venezuelanas para que a máquina de guerra avance para um ponto sem retorno.
O destino da crise depende agora de três frentes simultâneas: a resistência legislativa nos Estados Unidos, a articulação diplomática da América Latina e a pressão internacional contra o uso da força. O que está em jogo não é apenas a estabilidade da Venezuela, mas o futuro da região e a capacidade do Sul Global de impedir que a América Latina volte a ser tratada como quintal militar das grandes potências.
