Departamento de Defesa acrescentou duas mortes antes ausentes de sua base pública e informou que 865 militares norte-americanos ficaram feridos nas operações ligadas ao conflito. Revisão ocorre depois de semanas de questionamentos sobre transparência e após o secretário Pete Hegseth classificar como “mentira” reportagens que apontavam subnotificação das baixas.
Da Redação
O Pentágono elevou para 21 o número oficial de militares norte-americanos mortos em operações relacionadas à guerra contra o Irã, corrigindo um balanço que vinha sendo questionado havia semanas por integrantes do Congresso e pela imprensa dos Estados Unidos. A atualização foi feita no Defense Casualty Analysis System, banco público utilizado pelo Departamento de Defesa para registrar mortos e feridos em operações militares, e incluiu duas mortes que não apareciam anteriormente na contagem relacionada ao conflito. O sistema registra também 865 militares feridos desde o início das operações contra Teerã.
A revisão chama atenção não apenas pelo aumento do número de mortos, mas porque ocorre depois de o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ter rejeitado de forma enfática informações de que o total oficial estava incompleto. Quando o Washington Post revelou em setembro que mortes relacionadas ao destacamento norte-americano no Oriente Médio não apareciam adequadamente na base pública, Hegseth chamou a reportagem de “mentira completa” e acusou o jornal de divulgar informação falsa. Menos de um mês depois, o próprio sistema do Pentágono foi modificado e passou a incorporar casos que estavam fora do balanço anterior.
Uma das mortes agora acrescentadas é a da major Sorffly Davius, de 46 anos, integrante da Guarda Nacional do Exército. Ela morreu no Kuwait em 6 de março, poucos dias depois do início da guerra. O Pentágono já havia comunicado sua morte naquele momento, mas o caso não havia sido computado na estatística pública relacionada às operações contra o Irã. A causa aparece como não determinada.
A segunda morte incorporada é a de um integrante da Marinha cuja identidade não foi divulgada. Segundo autoridades norte-americanas citadas pela imprensa, o militar morreu por suicídio em setembro enquanto estava vinculado às operações na região. Por se tratar de morte não provocada diretamente por fogo inimigo, o caso entra na categoria de baixas não hostis, mas passa agora a integrar oficialmente o custo humano associado ao destacamento militar norte-americano durante a guerra.
Existe ainda uma 22ª morte de militar norte-americano no Oriente Médio desde 28 de fevereiro, mas que o Departamento de Defesa não atribui ao conflito com o Irã. O sargento Devin A. Seibel, de 26 anos, morreu em um acidente de treinamento no Iraque em maio. O caso está registrado como parte da Operação Inherent Resolve, campanha norte-americana contra o Estado Islâmico, e por isso permanece fora do balanço específico das operações iranianas.
Mudanças na contagem provocaram questionamentos no Congresso
A controvérsia em torno dos números começou antes da correção desta semana. Desde o início da guerra, o Pentágono alterou repetidamente a maneira de classificar as baixas. A Operação Epic Fury, iniciada em 28 de fevereiro com os ataques norte-americanos e israelenses ao Irã, aparece atualmente com 15 mortos e 417 feridos. Depois do encerramento formal daquela fase da operação e da retomada dos grandes confrontos, o Departamento de Defesa passou a registrar novas baixas em outra categoria, denominada genericamente “operações no exterior”.
Nesse segundo agrupamento aparecem seis mortos e 448 feridos. Somadas as duas categorias, chega-se aos 21 mortos e 865 feridos agora reconhecidos oficialmente.
A separação gerou críticas porque, durante determinado período, o número apresentado ao público como total da guerra chegou a diminuir. Mortes anteriormente associadas à Operação Epic Fury desapareceram da estatística principal quando foram transferidas para outra classificação administrativa, criando a impressão de que havia menos militares mortos do que antes. Parlamentares democratas acusaram o governo Donald Trump de utilizar mudanças burocráticas para reduzir a percepção pública do custo do conflito.
O Pentágono nega ter tentado esconder baixas e sustenta que as alterações decorreram da necessidade de organizar corretamente operações militares distintas. Segundo o Departamento de Defesa, o encerramento formal da Epic Fury tornou necessária uma nova classificação para militares mortos ou feridos depois da mudança de fase do conflito.
A explicação, porém, não encerrou a controvérsia. Deputados integrantes da Comissão de Serviços Armados da Câmara passaram a cobrar informações detalhadas e pressionaram o Pentágono para revisar o sistema.
Adam Smith, principal democrata da comissão, e Chrissy Houlahan, que ocupa posição equivalente na subcomissão responsável por pessoal militar, afirmaram depois da correção que o Congresso precisou atuar diretamente para que os registros fossem atualizados. Os parlamentares classificaram o erro como grave e argumentaram que militares e familiares têm direito a uma contabilidade completa das consequências da guerra.
A preocupação não é meramente estatística. O modo como uma morte ou ferimento é classificado pode interferir em registros históricos, benefícios, condecorações, acompanhamento médico e na própria compreensão pública do custo de uma intervenção militar. Para as famílias, a inclusão ou exclusão de determinado nome numa lista oficial possui também uma dimensão simbólica: determina se o Estado reconhece aquele militar como vítima de determinada operação.
Ataque no Kuwait expôs vulnerabilidades das forças norte-americanas
Uma parte importante das mortes e ferimentos ocorreu logo nos primeiros dias da guerra. Em 1º de março, um drone iraniano atingiu o porto de Shuaiba, no Kuwait, onde forças norte-americanas mantinham uma importante estrutura logística. Seis militares morreram e dezenas ficaram feridos. Foi o ataque mais letal contra tropas dos Estados Unidos desde o início do conflito.
Relatos de sobreviventes posteriormente levantaram questionamentos sobre a proteção oferecida à base. Militares disseram que havia alertas prévios sobre a possibilidade de ataques de drones iranianos e que a área possuía defesas consideradas insuficientes diante do tipo de ameaça que se aproximava. Oficiais e familiares passaram a cobrar explicações sobre a decisão de manter grande concentração de pessoal num local vulnerável.
O Exército abriu uma investigação interna, mas o episódio continuou alimentando críticas sobre planejamento e preparação. Alguns militares feridos também relataram demora no diagnóstico de traumatismos cranianos e dificuldades para receber atendimento adequado depois dos ataques.
A questão das baixas norte-americanas ganhou, assim, uma dimensão política mais ampla. O debate deixou de tratar apenas da quantidade de mortos e passou a alcançar as decisões militares que os colocaram em determinadas posições, as condições de defesa das bases e a maneira como o governo informa à sociedade os custos da guerra.
Os 865 feridos registrados oficialmente demonstram uma dimensão do conflito que aparece com menos frequência nas declarações públicas. Parte desses militares retornou ao serviço rapidamente, enquanto outros sofreu lesões graves, inclusive traumatismos cerebrais, queimaduras e ferimentos provocados por explosões. O número acumulado é muito superior ao total observado nas primeiras semanas da campanha e continua sendo atualizado à medida que novos casos são reconhecidos.
Hegseth havia atacado informação que o próprio Pentágono corrigiu
O aspecto politicamente mais desconfortável da revisão está na reação anterior de Pete Hegseth. Em setembro, depois que a imprensa revelou discrepâncias entre mortes conhecidas publicamente e o balanço disponível na base oficial, o secretário respondeu de forma particularmente agressiva, classificando a reportagem como falsa e acusando o Washington Post de agir de maneira irresponsável.
A atualização do próprio Departamento de Defesa não confirma todas as interpretações feitas pelos críticos da administração Trump, mas demonstra que a contagem pública estava incompleta.
O Pentágono afirma continuar comprometido com um registro transparente e preciso de todas as baixas. Também está modificando a estrutura do sistema para incluir uma categoria destinada a casos ainda sob análise, permitindo que mortes sejam registradas provisoriamente antes da conclusão definitiva sobre sua relação com determinada operação.
A mudança tenta evitar que episódios permaneçam completamente fora das estatísticas enquanto diferentes setores militares discutem como devem ser classificados. Esse problema tornou-se particularmente evidente durante a guerra contra o Irã porque tropas norte-americanas estão distribuídas por vários países e participam simultaneamente de missões diferentes.
Um militar pode estar, por exemplo, servindo numa base utilizada para operações relacionadas ao Irã enquanto sua unidade está formalmente vinculada a outra missão. Determinar em qual coluna sua morte deve aparecer pode se transformar numa questão administrativa complexa. Para críticos do Pentágono, entretanto, essa complexidade não pode resultar numa estatística pública que reduza artificialmente a quantidade de americanos mortos ou feridos numa guerra.
Guerra produz custo humano cada vez mais difícil de esconder
A atualização acontece num momento em que o conflito com o Irã continua produzindo repercussões políticas dentro dos Estados Unidos. A administração Trump iniciou a guerra sustentando que as operações seriam decisivas, limitadas e capazes de neutralizar rapidamente a capacidade militar iraniana. Meses depois, forças norte-americanas continuam amplamente mobilizadas no Oriente Médio, enquanto ataques, retaliações e operações paralelas permanecem ativos em diferentes pontos da região.
As baixas não se aproximam das dimensões observadas nas grandes guerras norte-americanas do Iraque ou do Afeganistão, mas já são suficientes para ampliar as discussões sobre os objetivos da campanha, sua duração e os riscos enfrentados pelas tropas.
Para famílias dos militares mortos, a discussão possui outra dimensão. Independentemente de uma morte ocorrer diretamente num ataque iraniano, num acidente, por doença ou por suicídio durante um destacamento, existe uma vida ligada à decisão do governo de mobilizar forças para uma guerra.
É justamente por isso que parlamentares vêm defendendo uma contabilidade mais ampla. Na visão deles, separar artificialmente as diferentes fases do conflito pode dificultar a compreensão do preço real pago pelas forças armadas norte-americanas.
O Pentágono mantém distinções administrativas porque elas possuem funções operacionais e jurídicas. Mas, quando os números são apresentados ao público, essas divisões precisam ser acompanhadas de explicações capazes de impedir que a soma das perdas desapareça entre diferentes categorias.
A correção para 21 mortos e 865 feridos não significa necessariamente que o balanço permanecerá nesse patamar. A guerra continua, militares permanecem destacados e alguns casos ainda podem ser reclassificados à medida que investigações médicas e administrativas forem concluídas.
O episódio deixa, contudo, uma questão que ultrapassa os números atuais. Quando um governo decide iniciar uma guerra, a população não precisa apenas saber por que seus soldados estão sendo enviados. Precisa também receber uma contabilidade completa de quantos não retornaram e de quantos voltaram feridos.
Depois de semanas de negativas e mudanças de classificação, o próprio Pentágono reconhece agora que o número oficialmente divulgado não refletia integralmente esse custo.
O balanço corrigido registra 21 militares mortos e 865 feridos nas operações ligadas à guerra contra o Irã. E, depois da controvérsia que antecedeu a revisão, a discussão em Washington passou a ser não apenas sobre quantas baixas existem, mas sobre por que foi necessário chegar até o Congresso para que todas elas aparecessem na conta pública.


