Documentos bancários encontrados no iCloud de Willer Tomaz apontam acesso privilegiado do senador a uma conta da Alcazar Holdings, empresa com participação na propriedade de aeronave usada pelo candidato e vinculada indiretamente ao ex-controlador do Banco Master
Da Redação
Chamada: A Polícia Federal identificou o nome de Flávio Bolsonaro em registros bancários relacionados a uma offshore administrada pelo advogado Willer Tomaz. A empresa possuía um terço da sociedade proprietária de um jato Embraer Legacy 650, utilizado pelo senador em viagem aos Estados Unidos. Os investigadores examinam a possibilidade de vínculos econômicos não declarados, hipótese negada pelos envolvidos e ainda não comprovada.
Uma troca de e-mails entre uma funcionária do advogado Willer Tomaz e o banco Santander colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, no centro de uma nova frente de apuração da Polícia Federal. Os documentos, encontrados em dados armazenados no iCloud do advogado, identificam o parlamentar como “usuário master” de uma conta vinculada à Alcazar Holdings, offshore sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. A empresa possuía 33,33% de participação na sociedade proprietária de um jato executivo utilizado pelo senador e ligado, por meio de outra empresa acionista, ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. A descoberta foi revelada nesta quarta-feira, 14 de outubro, pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo.
O registro chamou a atenção dos investigadores porque a classificação de usuário master está associada a permissões elevadas de acesso e gerenciamento bancário. Segundo o relatório policial citado pela reportagem, essa condição pode representar acesso operacional relevante às contas da empresa. A documentação levou a PF a considerar a hipótese de uma eventual participação econômica ou societária de fato de Flávio Bolsonaro na estrutura administrada por Willer Tomaz. Até o momento, entretanto, não há comprovação pública de que o senador fosse proprietário da conta, beneficiário de seus recursos ou sócio oculto da offshore.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam qualquer relação financeira ou societária. O senador afirma que mantém apenas uma relação de amizade com o advogado e contesta a interpretação dada aos documentos. Sua defesa sustenta que a referência encontrada nos registros bancários decorreu de uma vinculação indevida, posteriormente corrigida. Tomaz também rejeita a hipótese de participação econômica do parlamentar nas empresas sob sua administração e questiona a utilização das mensagens como evidência de um vínculo patrimonial.
A informação central foi identificada em uma comunicação enviada ao Santander em 22 de maio de 2025. Na mensagem, Fayla Menezes, funcionária de Willer Tomaz, solicitou a inclusão de um novo usuário no perfil master da conta da Alcazar Holdings e a retirada de duas contas anteriormente vinculadas à estrutura bancária. Uma delas aparecia identificada com o nome de Flávio Bolsonaro. O banco respondeu que as contas indicadas haviam sido excluídas do contrato.
O conteúdo é relevante para a apuração porque estabelece uma referência documental ao nome do senador dentro de um procedimento bancário relacionado à offshore. A interpretação dessa vinculação, contudo, depende de informações que não foram integralmente divulgadas, como os registros originais de habilitação, as permissões efetivamente concedidas, o período de acesso e a existência de operações realizadas por meio do perfil.
A expressão “usuário master” não deve ser confundida com titularidade ou propriedade dos recursos depositados. Sistemas bancários empresariais podem permitir que pessoas autorizadas tenham diferentes níveis de gerenciamento, independentemente de serem sócias ou beneficiárias econômicas das empresas. Para determinar a existência de participação patrimonial, seria necessário examinar documentos societários, autorizações bancárias e movimentações financeiras.
No relatório citado por O Globo, a Polícia Federal registra que a eventual existência de um vínculo societário ou de gestão entre Flávio e a Alcazar Holdings poderia ser relevante para compreender as relações indiretas do senador com a empresa proprietária do avião. Trata-se de uma hipótese investigativa construída a partir dos documentos analisados, e não de uma conclusão definitiva sobre a participação do candidato na estrutura empresarial.
Offshore possuía participação em jato utilizado pelo senador
A Alcazar Holdings detinha um terço da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade proprietária de um jato Embraer Legacy 650. As demais participações pertenciam ao empresário Laerte Cosentino, fundador da Totvs, e à Prime You, empresa que tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios.
A estrutura societária estabelece uma ligação indireta entre a offshore administrada por Willer Tomaz e uma empresa associada ao ex-controlador do Banco Master. Isso não significa que Vorcaro fosse proprietário da Alcazar Holdings nem que Flávio Bolsonaro tivesse participação na Prime You. Os vínculos identificados dizem respeito às participações das empresas na sociedade responsável pela aeronave.
Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro utilizou o avião em uma viagem de Brasília a Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, acompanhado por Willer Tomaz. A informação havia sido divulgada anteriormente pela revista piauí. Na ocasião, o senador afirmou que participara do deslocamento a convite do advogado, com quem mantém uma relação de amizade.
Willer Tomaz declarou que desconhecia a participação da Prime You na propriedade da aeronave e sua ligação com Daniel Vorcaro. A utilização do jato, portanto, é um fato relatado pela imprensa, enquanto a existência de eventual contrapartida financeira, benefício irregular ou participação oculta do senador na empresa proprietária continua sem comprovação.
O modelo de propriedade compartilhada de aeronaves permite que diferentes pessoas ou empresas adquiram participações em uma sociedade responsável pelo avião. Nessas estruturas, o uso pode ser organizado por contratos, cotas, períodos de disponibilidade e regras de custeio. A presença de um passageiro em determinada viagem não demonstra automaticamente que ele seja proprietário do equipamento ou beneficiário de todas as empresas integrantes da sociedade.
O interesse dos investigadores decorre da combinação entre o registro bancário da offshore e a utilização da aeronave. Se fosse comprovado que uma pessoa possuía direitos de gestão ou participação econômica na Alcazar Holdings, esse vínculo poderia ser relevante para reconstruir suas relações com a Fraction 024. Os documentos conhecidos, porém, não permitem afirmar que tal participação efetivamente existisse.
O Banco Master entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025, após o Banco Central identificar uma grave crise de liquidez e problemas econômico-financeiros na instituição. Daniel Vorcaro tornou-se alvo de investigações sobre operações financeiras e movimentações de recursos relacionadas ao conglomerado.
As apurações sobre a situação do banco também levaram à análise de empresas, contratos e estruturas patrimoniais associadas ao ex-controlador. A participação da Prime You na sociedade proprietária do jato passou a integrar esse conjunto de relações examinadas pela imprensa e pelos investigadores. Entretanto, a presença de uma empresa em determinada estrutura societária não demonstra, por si só, que os demais acionistas ou usuários da aeronave tenham participado de irregularidades financeiras atribuídas ao banqueiro.
A Polícia Federal também encontrou registros de outros deslocamentos envolvendo Flávio Bolsonaro, familiares do senador e Willer Tomaz. Em março de 2025, o grupo participou de um safári na África do Sul, viagem que contou ainda com a presença do senador Weverton Rocha (PDT-MA), conforme informações anteriormente divulgadas por O Globo.
Documentos examinados pelos investigadores indicam que a Cathedral Holding, outra empresa ligada a Tomaz, teria participado da aquisição de passagens aéreas para Flávio e familiares. O relatório considera a possibilidade de que a estrutura empresarial tenha sido utilizada para custear ou operacionalizar viagens de natureza pessoal.
Willer Tomaz afirma que os deslocamentos ocorreram entre famílias amigas e nega a existência de pagamentos ou contrapartidas oferecidas pelos convidados. As informações divulgadas não permitem estabelecer se houve despesas assumidas pelo senador, reembolsos posteriores ou benefícios que possam caracterizar alguma irregularidade.
A distinção é importante porque viagens privadas realizadas por agentes públicos podem envolver questões de transparência e conflitos de interesse, mas sua análise exige conhecimento das circunstâncias concretas. A existência de amizade, o compartilhamento de deslocamentos ou a utilização de uma aeronave particular não configuram automaticamente ilícitos.
Polícia Federal também encontrou conversas em aplicativo com mensagens autodestrutivas
Outro elemento incluído no relatório policial diz respeito às comunicações mantidas entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. A Polícia Federal identificou registros de conversas por meio do aplicativo Confide, plataforma de mensagens que oferece criptografia e recursos de eliminação automática do conteúdo.
O número do senador aparecia entre os contatos favoritos do advogado. A informação demonstra a utilização de um canal de comunicação privada entre os dois, mas não revela o conteúdo das mensagens nem estabelece que tenham sido utilizadas para tratar de assuntos financeiros ou empresariais.
Aplicativos com criptografia e mecanismos de exclusão de mensagens são utilizados em diferentes contextos profissionais e pessoais. Seu uso, isoladamente, não constitui evidência de atividade ilegal. A relevância investigativa depende da existência de elementos adicionais que permitam relacionar essas comunicações a fatos concretos sob apuração.
Os investigadores reuniram os registros digitais para reconstruir as relações entre Willer Tomaz, suas empresas e pessoas identificadas nos documentos. O material inclui referências bancárias, dados empresariais, viagens e informações de comunicação. Cada conjunto possui valor probatório próprio e precisa ser examinado de acordo com sua origem e conteúdo.
A relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz já havia sido abordada em reportagem publicada pelo UOL em 10 de outubro. Na ocasião, o jornalista Fábio Serapião revelou e-mails que indicavam uma vinculação bancária entre o senador e o advogado. Tomaz também figura em investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro no contexto da operação que apura desvios de recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As suspeitas dirigidas ao advogado não podem ser automaticamente atribuídas ao senador. A eventual responsabilização de qualquer pessoa depende de demonstração individual de sua participação nos fatos investigados.
A documentação agora divulgada acrescenta uma dimensão à apuração anterior: a conta relacionada ao nome de Flávio estava vinculada a uma offshore com participação na sociedade proprietária de uma aeronave que o próprio parlamentar havia utilizado. A identificação dessa cadeia de relações é o ponto que motivou a hipótese investigativa mencionada no relatório policial.
Flávio Bolsonaro contesta documentos e nega relação financeira com advogado
Procurada por O Globo, a assessoria do senador rejeitou as interpretações feitas a partir da documentação bancária. Flávio afirmou que nunca manteve conta tendo Willer Tomaz ou suas empresas como usuário master. A defesa argumenta que a solicitação de retirada do registro demonstra justamente a existência de uma associação incorreta nos sistemas bancários.
Willer Tomaz apresentou explicação semelhante. O advogado considera indevida a conclusão de que o e-mail enviado ao Santander possa comprovar participação societária ou financeira de Flávio na Alcazar Holdings. Segundo ele, a referência encontrada no documento não corresponde à existência de negócios conjuntos.
O advogado também questionou a origem da divulgação dos registros. Tomaz afirma que os dados foram obtidos por meio de vazamento criminoso de seu celular e de informações armazenadas em sua conta no iCloud. O conteúdo teria sido posteriormente divulgado durante o período eleitoral, circunstância que ele associa a uma tentativa de interferência na disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro também criticou a publicação das informações e declarou que poderá adotar medidas judiciais contra a divulgação de alegações que considera falsas. O senador disputa o segundo turno da eleição presidencial com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para 25 de outubro.
As manifestações dos envolvidos estabelecem uma divergência sobre o significado dos registros. A Polícia Federal considera a referência ao nome do parlamentar relevante para examinar a possível existência de vínculos econômicos. A defesa sustenta que a associação foi indevida e posteriormente corrigida. A resolução dessa divergência exige documentos capazes de demonstrar como o cadastro foi criado e quais poderes de acesso, se algum, foram efetivamente utilizados.
Um ponto ainda não esclarecido é a origem da vinculação bancária. A divulgação da troca de e-mails não permite determinar quem solicitou originalmente o registro associado ao nome de Flávio Bolsonaro, quando isso ocorreu ou por qual motivo. Também não foram apresentados comprovantes públicos de operações realizadas pelo senador na conta da Alcazar Holdings.
Essa lacuna impede conclusões definitivas sobre a natureza da associação. A existência de um nome em registros bancários pode constituir ponto de partida para diligências, mas não substitui a verificação da titularidade, dos poderes de movimentação e do destino de eventuais recursos.
O exame dos documentos também precisa diferenciar a relação do senador com Willer Tomaz daquela envolvendo Daniel Vorcaro. A primeira inclui amizade reconhecida publicamente, viagens realizadas em conjunto e uma referência bancária contestada. A segunda é indireta, estabelecida pela participação da Prime You na sociedade proprietária do avião.
Até o momento, a documentação divulgada não demonstra que Vorcaro tenha realizado pagamentos a Flávio Bolsonaro por meio da Alcazar Holdings, nem que o candidato tenha recebido participação econômica na empresa ligada à aeronave. Tampouco comprova que os deslocamentos tenham sido financiados com recursos provenientes de operações irregulares do Banco Master.
A hipótese apresentada pelos investigadores deverá ser examinada à luz de registros bancários e societários adicionais, caso existam e sejam legalmente obtidos. Informações sobre beneficiários finais, movimentações financeiras, autorizações de acesso e contratos relacionados à utilização do avião poderão contribuir para esclarecer as circunstâncias.
As revelações publicadas nesta quarta-feira ampliam o conhecimento público sobre uma estrutura empresarial que conecta, por meio de participações societárias e relações pessoais, um candidato à Presidência, um advogado e uma empresa vinculada ao ex-controlador do Banco Master.
O fato documentado mais relevante é a existência de uma referência ao nome de Flávio Bolsonaro em uma solicitação de alteração cadastral bancária relacionada à Alcazar Holdings. A partir desse registro, a Polícia Federal identificou uma possível linha de investigação sobre vínculos econômicos ou de gestão. O senador e o advogado negam que tais vínculos existam.
A apuração permanece, portanto, em uma etapa de esclarecimento documental. A eventual comprovação de participação societária, movimentação financeira ou recebimento de benefícios dependerá de informações que não constam dos trechos divulgados até agora. A identificação do senador nos e-mails bancários é uma descoberta relevante para a investigação, mas não constitui prova de propriedade da offshore, de envolvimento nas fraudes do Banco Master ou de prática de qualquer crime.


