Coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, ex-presidente da Caixa fala em cortes de gastos e revisão de despesas públicas; declarações sobre o Bolsa Família ampliam as dúvidas sobre o impacto social do programa econômico
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República e ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo Jair Bolsonaro, defendeu um ajuste fiscal rigoroso e afirmou que o país precisaria de oito anos para “botar o Brasil no lugar”. A declaração foi feita em entrevista ao podcast Market Makers, publicada em 6 de agosto de 2026, durante uma conversa sobre as propostas econômicas, administrativas e de segurança do candidato.
“Só vai ter eleição daqui a oito anos para a gente botar o Brasil no lugar”, disse Daniella. Na sequência, defendeu que um eventual governo Flávio Bolsonaro precisaria “cortar na carne” para, segundo ela, ter condições políticas de discutir mudanças na Previdência e no salário mínimo. A fala associa a agenda de ajuste fiscal a um período prolongado de reorganização das contas públicas e coloca no centro do debate o custo social das medidas defendidas pela campanha.
O episódio integrou a série eleitoral do Market Makers, podcast voltado ao mercado financeiro e à comunidade de investidores. Durante a entrevista, os apresentadores discutiram com Flávio Bolsonaro e Daniella Marques o endividamento público, os juros, a inflação, a confiança de investidores e as medidas que a candidatura pretende adotar caso chegue ao governo. O programa apresentou Daniella como a principal referência econômica da campanha.
“Cortar na carne” e rever despesas públicas
A declaração sobre os oito anos apareceu durante a discussão sobre o desequilíbrio fiscal e a necessidade de reduzir despesas. Daniella argumentou que um governo não teria legitimidade para propor mudanças em áreas como Previdência e salário mínimo se não demonstrasse disposição para cortar gastos em outras frentes.
“Agora, se não cortar na carne dessa vez e a gente endereçar alguns problemas que vão se arrastando, você não tem moral como governo para debater ajuste de Previdência, salário mínimo e tal”, afirmou.
A economista também criticou despesas que associou ao padrão de vida e à estrutura do poder público, citando aviões, carros e a discussão sobre as condições de moradia no Palácio da Alvorada. Na entrevista, ela usou uma reclamação atribuída ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a residência oficial para contrastar os gastos e o conforto da Presidência com as condições de vida da população mais pobre.
A fala foi apresentada como argumento em favor de uma redução de despesas governamentais. No entanto, a entrevista não detalhou, naquele momento, quais programas seriam atingidos, quais despesas teriam prioridade nos cortes nem como a campanha distribuiria o esforço de ajuste entre áreas do orçamento. A ausência de especificações torna importante distinguir a defesa geral da austeridade de um plano fiscal detalhado, com metas, prazos e estimativas de impacto.
Quem é Daniella Marques
Formada em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Daniella Marques construiu parte de sua carreira profissional ao lado de Paulo Guedes, ministro da Economia durante o governo Jair Bolsonaro. Trabalhou na iniciativa privada e ocupou cargos no Ministério da Economia antes de assumir a presidência da Caixa Econômica Federal, em 2022.
Agora, como coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, participa da formulação das propostas econômicas do candidato. Sua presença na entrevista do Market Makers teve um papel central: enquanto Flávio abordava temas políticos e de governo, Daniella apresentou argumentos sobre o quadro fiscal, a necessidade de ajustes e a expectativa de recuperação da confiança dos investidores.
Na conversa, ela sustentou que o controle das contas públicas seria uma condição para reduzir os juros, conter a inflação e recuperar o poder de compra da população. Também afirmou que investidores estrangeiros demonstrariam interesse no Brasil, mas estariam reticentes em razão da falta de confiança no ambiente econômico e institucional.
Essas afirmações compõem a justificativa econômica apresentada pela campanha. A entrevista, porém, não trouxe uma demonstração completa de como os cortes propostos seriam calculados, quais medidas produziriam economia imediata ou como os efeitos do ajuste seriam distribuídos entre os diferentes grupos sociais.
Austeridade, Previdência e salário mínimo
A defesa de cortes feita por Daniella tem consequências que vão além da discussão contábil. Quando a coordenadora econômica da campanha associa o ajuste fiscal a mudanças na Previdência e no salário mínimo, coloca em debate políticas que afetam diretamente aposentados, pensionistas, trabalhadores e famílias de baixa renda.
O salário mínimo tem importância para a renda de trabalhadores formais e serve de referência para benefícios previdenciários e assistenciais. Mudanças em sua política de valorização ou em regras relacionadas à Previdência podem produzir efeitos sobre o orçamento público, mas também sobre o consumo das famílias e a proteção social.
Por isso, a expressão “cortar na carne” exige esclarecimentos sobre quais despesas seriam reduzidas e quem arcaria com o custo das medidas. Sem uma lista de ações, metas quantificadas e estimativas de impacto, a declaração estabelece uma orientação política de austeridade, mas não permite avaliar integralmente a extensão do ajuste proposto.


