Levantamento divulgado nesta quarta-feira mostra mudança nas respostas sobre os receios do eleitorado, enquanto a disputa presidencial permanece em empate técnico. Entre beneficiários do Bolsa Família, 63% dizem temer mais o retorno da família Bolsonaro à Presidência.
Da Redação
A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 21 de outubro, revela uma mudança na distribuição dos receios políticos manifestados pelos brasileiros na última semana antes do segundo turno presidencial. Segundo o levantamento, 44% dos entrevistados afirmam ter mais medo do retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto, enquanto 42% apontam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como sua principal preocupação. É a primeira vez desde agosto que o receio de uma volta do bolsonarismo aparece numericamente acima do temor de continuidade do atual governo. A diferença de dois pontos percentuais, entretanto, está dentro da margem de erro, impedindo afirmar que exista uma distância estatisticamente segura entre as duas respostas.
Os dados foram publicados em um momento de forte mobilização política, marcado por manifestações nas ruas, debates televisivos, disputas sobre políticas sociais e acusações entre as campanhas. A pesquisa foi encomendada pelo jornal O Globo e pela TV Globo e realizada presencialmente pela Quaest entre os dias 17 e 20 de outubro, com 2.154 eleitores em todo o território nacional. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%, e o estudo está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08535/2026.
A mudança em relação às rodadas anteriores constitui um dos aspectos mais relevantes do levantamento. Na pesquisa de 14 de outubro, o Brasil 247 registra que os dois tipos de receio estavam empatados numericamente em 43%. Na medição atual, o temor relacionado ao retorno dos Bolsonaro alcança 44%, enquanto o medo da reeleição de Lula recua para 42%. A comparação indica uma alteração nominal na distribuição das respostas, mas não demonstra, isoladamente, uma mudança estatisticamente significativa no comportamento do eleitorado.
A última vez em que o receio do retorno da família Bolsonaro havia aparecido numericamente acima da preocupação com a continuidade de Lula ocorreu em agosto, quando 45% manifestaram temor da eleição de Flávio Bolsonaro e 41% apontaram a reeleição do petista. Desde então, os levantamentos passaram a registrar percentuais próximos, acompanhando a polarização entre as duas candidaturas.
O resultado desta quarta-feira recoloca essa diferença no debate eleitoral, mas não deve ser confundido com uma medição direta de rejeição aos candidatos. Quando um instituto pergunta qual resultado provoca maior medo, procura identificar uma percepção específica dos entrevistados. Isso não é necessariamente equivalente a perguntar em quem a pessoa não votaria de maneira alguma ou qual candidato considera mais preparado para governar.
O medo político pode envolver expectativas sobre economia, programas sociais, segurança pública, funcionamento das instituições, direitos individuais e condições de vida. Pode também refletir lembranças de governos anteriores ou preocupações com propostas ainda não implementadas. A pesquisa identifica a escolha declarada entre dois cenários temidos, mas a pergunta, isoladamente, não permite determinar todas as razões que levaram cada entrevistado a responder.
Essa distinção é importante porque a campanha presidencial tem utilizado avaliações sobre o passado e expectativas sobre o futuro como argumentos centrais de comunicação. A candidatura de Lula associa parte de suas críticas ao período em que Jair Bolsonaro ocupou a Presidência, de 2019 a 2022, especialmente nas áreas social, econômica, ambiental e institucional. A campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez, concentra críticas à administração atual, ao custo de vida, à corrupção e à segurança pública, procurando apresentar uma alternativa ao governo petista.
As duas estratégias mobilizam receios distintos, mas os resultados da Quaest não permitem estabelecer que determinada peça publicitária ou acontecimento da campanha tenha causado a variação observada.
Entre os beneficiários do Bolsa Família, o levantamento encontrou uma diferença mais expressiva. Segundo a cobertura da Agência Estado, 63% dos entrevistados desse grupo declararam temer mais o retorno da família Bolsonaro ao poder, contra 23% que apontaram maior receio da permanência de Lula. Na pesquisa anterior, os respectivos percentuais eram de 58% e 29%.
A variação nominal entre os beneficiários chamou atenção porque ocorreu durante uma semana em que o futuro dos programas de transferência de renda ganhou espaço na disputa presidencial. A campanha de Flávio Bolsonaro apresentou propostas para vincular a assistência social a mecanismos de emprego e empreendedorismo, enquanto a equipe de Lula questionou as garantias previstas para famílias cuja renda permaneça insuficiente.
Uma das propostas discutidas envolve um período de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que ingressem no emprego formal ou desenvolvam atividades empreendedoras. A coordenação econômica de Flávio afirma que haverá mecanismos de retorno automático ao programa caso a tentativa de alcançar autonomia financeira não produza resultados. A campanha de Lula tem cobrado esclarecimentos sobre os critérios de desligamento e as garantias oferecidas às famílias vulneráveis.
Essas divergências podem ser relevantes para o debate entre os candidatos, mas não existe demonstração de que sejam a causa direta dos percentuais de medo registrados entre beneficiários. A interpretação exige cautela adicional porque esse grupo constitui uma parcela da amostra nacional, com incerteza estatística própria.
A pesquisa também foi realizada depois da aprovação de mudanças relacionadas ao fim da escala de trabalho 6×1 e durante a intensificação dos anúncios de medidas econômicas e sociais pelo governo federal. Entre elas estão propostas de transporte gratuito nos fins de semana e alterações nas condições de funcionamento dos microempreendedores individuais.
O fato de esses acontecimentos precederem ou coincidirem com as entrevistas não comprova que tenham provocado mudanças nas intenções de voto ou nas respostas sobre receios políticos. Para estabelecer relações causais, seriam necessários dados específicos sobre o conhecimento dos entrevistados, suas opiniões a respeito de cada medida e eventuais alterações individuais de preferência.
Intenções de voto permanecem próximas
A diferença encontrada na pergunta sobre medo aparece em um levantamento que também registra percentuais muito próximos entre os dois candidatos na disputa presidencial.
Na pesquisa estimulada, Flávio Bolsonaro (PL) tem 45% das intenções de voto e Lula, 44%. Outros 9% declaram voto branco ou nulo ou respostas equivalentes consideradas pelo instituto, enquanto 2% permanecem indecisos.
A distância de um ponto percentual está dentro da margem de erro. Portanto, o levantamento não permite estabelecer uma diferença estatisticamente segura entre os candidatos.
Na modalidade espontânea, em que os entrevistadores não apresentam previamente os nomes dos concorrentes, Lula e Flávio registram 40% cada. Essa modalidade oferece outra perspectiva sobre a lembrança e a manifestação espontânea das preferências, mas não constitui um resultado eleitoral antecipado.
A rejeição também foi examinada. Segundo a cobertura da Folha de S.Paulo, 52% dos entrevistados afirmaram que não votariam em Flávio Bolsonaro de maneira alguma, enquanto 47% deram a mesma resposta em relação a Lula. Na rodada anterior, os percentuais eram de 54% e 53%, respectivamente.
A redução nominal da rejeição às duas candidaturas constitui um indicador distinto da pergunta sobre medo. Uma pessoa pode declarar que teme determinado cenário político e, ao mesmo tempo, admitir votar no candidato relacionado a ele em circunstâncias específicas. Da mesma maneira, pode rejeitar uma candidatura por motivos que não se limitam a receios sobre o futuro governo.
A comparação entre os indicadores ajuda a descrever o ambiente eleitoral, mas não permite criar uma relação automática entre eles.
Outro dado divulgado pela Quaest é que aproximadamente 90% dos entrevistados afirmam não pretender modificar sua decisão de voto. A elevada proporção de escolhas consideradas definitivas indica o grau de convicção declarado pelos participantes no momento das entrevistas. Não assegura, entretanto, que todos comparecerão às urnas ou manterão obrigatoriamente a mesma posição até domingo.
O período da pesquisa incluiu parte das atividades de campanha do fim de semana e o debate presidencial realizado pela Band na noite de 18 de outubro. Também alcançou os dias seguintes, quando os candidatos ampliaram confrontos sobre corrupção, políticas sociais e propostas econômicas.
Como os entrevistados responderam em momentos diferentes, não é possível tratar o levantamento como uma medição exclusiva dos efeitos do debate ou dos acontecimentos posteriores. A distribuição das entrevistas ao longo dos dias e a exposição individual dos eleitores a cada episódio precisariam ser examinadas separadamente.
A Quaest oferece, portanto, um retrato nacional das preferências e preocupações manifestadas entre 17 e 20 de outubro, não uma identificação definitiva das causas de cada resposta.
A dimensão política do resultado está na coexistência de três características: percentuais próximos de intenção de voto, níveis elevados de rejeição e receios expressivos em relação aos dois possíveis resultados eleitorais.
A combinação revela a importância das avaliações negativas e das preocupações com o futuro nas respostas dos entrevistados. Não significa, contudo, que todos os eleitores estejam motivados principalmente pelo medo ou que suas escolhas possam ser reduzidas a uma única dimensão emocional.
Propostas econômicas, identificação partidária, avaliação de políticas públicas, experiências individuais e confiança nas candidaturas também integram o processo de formação das preferências eleitorais.
A pergunta específica da Quaest acrescenta uma informação sobre o modo como parte do eleitorado compara os dois cenários políticos. O crescimento nominal do receio da volta dos Bolsonaro merece acompanhamento em levantamentos posteriores, especialmente porque ocorre depois de semanas nas quais os percentuais apareceram muito próximos.
Mas a interpretação precisa respeitar os limites da medição. A diferença de dois pontos está dentro da margem de erro, e uma oscilação de uma ou duas unidades percentuais não comprova necessariamente uma mudança consolidada nas percepções da população.
A distinção também impede transformar a pesquisa em previsão sobre o resultado do segundo turno. Uma candidatura pode registrar índices elevados de rejeição ou de receio e ainda receber votos de pessoas que manifestam reservas em relação a suas propostas. O comportamento efetivo dependerá das escolhas realizadas nas urnas.
A eleição presidencial será decidida em 25 de outubro, quando os brasileiros escolherão entre Lula e Flávio Bolsonaro. Até lá, os levantamentos continuarão oferecendo informações sobre intenções declaradas, expectativas e preocupações dos eleitores.
O resultado divulgado nesta quarta-feira mostra que o temor da volta da família Bolsonaro alcançou 44%, superando numericamente os 42% registrados para o receio da reeleição de Lula, pela primeira vez desde agosto. A pesquisa também registra empate técnico nas intenções de voto, com 45% para Flávio e 44% para o presidente.
São informações relevantes sobre o ambiente político da última semana de campanha, mas sua interpretação exige distinguir tendências numéricas, incerteza estatística e resultados efetivos.
O principal significado do levantamento está em demonstrar que a disputa presidencial envolve não apenas preferências por candidatos, mas avaliações conflitantes sobre as consequências de cada projeto de governo. A decisão eleitoral será tomada pelos cidadãos, enquanto as pesquisas continuam sujeitas aos limites próprios de toda medição amostral.

