Novo presidente do SindPD Ceará afirma que a falta de mobilização da categoria dificulta avanços nas negociações coletivas e alerta para os impactos da inteligência artificial sobre o emprego
Da Redação
As dificuldades enfrentadas pelos sindicatos nas negociações coletivas, a baixa participação dos trabalhadores nas mobilizações e os desafios impostos pelas novas tecnologias foram os principais temas da entrevista concedida por Valmir Bráz, diretor e presidente eleito do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados, Serviços de Informática e Tecnologia da Informação do Estado do Ceará (SindPD-CE), ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular.
Durante a conversa, Valmir Bráz afirmou que o maior obstáculo enfrentado nas campanhas salariais não está apenas na resistência das entidades patronais, mas também na dificuldade de mobilizar a própria categoria para participar das negociações e fortalecer o sindicato.
“A gente aprendeu que capital e trabalho nunca se unem.”
Segundo ele, as entidades patronais chegam às mesas de negociação organizadas e com limites previamente estabelecidos sobre o que estão dispostas a conceder. Diante desse cenário, explicou que somente uma categoria mobilizada é capaz de ampliar o poder de negociação do sindicato.
“O sindicato não consegue avançar se não tiver uma retaguarda para nos dar suporte.”
Bráz observou que muitos trabalhadores criticam a atuação sindical quando os resultados não correspondem às expectativas, mas acabam não participando das assembleias, paralisações e demais mobilizações.
“Quem faz o sindicato não é a direção. É a categoria.”
O dirigente informou que o SindPD representa trabalhadores de tecnologia da informação em todo o Ceará e atualmente conduz negociações com diferentes entidades patronais, incluindo empresas privadas, prestadoras de serviço e instituições filantrópicas.
Uma das mudanças adotadas pela atual direção foi abandonar as negociações informais realizadas diretamente entre sindicatos e empresas.
Segundo Valmir Bráz, todas as campanhas salariais passaram a ser conduzidas com mediação da Superintendência Regional do Trabalho, onde cada reunião fica registrada oficialmente.
“A partir de 2026 toda negociação coletiva será levada para a Superintendência Regional do Trabalho.”
Para ele, a formalização das tratativas oferece maior transparência às propostas apresentadas pelos empregadores e às contrapropostas formuladas pelos trabalhadores.
Atualmente, o SindPD negocia a convenção coletiva com o Sindicato das Empresas de Tecnologia da Informação do Ceará (Seitic). O dirigente afirmou que a proposta patronal foi rejeitada em assembleia e que os trabalhadores apresentaram uma contraproposta.
Caso não haja avanço nas negociações, a categoria poderá realizar uma paralisação de 24 horas e, posteriormente, deliberar sobre uma greve por tempo indeterminado.
Segundo Bráz, a interrupção das atividades teria impacto significativo em empresas públicas e privadas.
“Se o trabalhador para, nada anda.”
Ele lembrou um episódio ocorrido durante uma negociação envolvendo profissionais que atuavam no Hospital Universitário Walter Cantídio, quando uma paralisação levou à retomada imediata das negociações.
Outro tema abordado foi a fragilidade financeira das entidades sindicais após a reforma trabalhista de 2017.
Valmir Bráz destacou que o fim da contribuição sindical obrigatória provocou o fechamento de milhares de sindicatos em todo o país.
“Mais de cinco mil sindicatos fecharam depois da reforma trabalhista.”
Segundo ele, as entidades patronais continuam contando com recursos provenientes do Sistema S, enquanto os sindicatos dos trabalhadores dependem cada vez mais da contribuição voluntária da categoria.
“Nós estamos contando moeda para dar por certo.”
O dirigente afirmou que parte dos trabalhadores passou a acreditar que consegue negociar individualmente melhores condições de trabalho, reduzindo sua participação nas entidades sindicais.
Ele criticou essa percepção.
“Eu acho que a coletividade para negociar é melhor do que a individualidade.”
Na avaliação do sindicalista, somente a negociação coletiva garante equilíbrio na relação entre empregados e empregadores.
Durante a entrevista, Valmir Bráz também analisou os impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho.
Segundo ele, a adoção crescente dessas tecnologias já começa a provocar demissões no setor de tecnologia da informação e exigirá novas formas de organização sindical.
“A inteligência artificial veio para precarizar ainda mais o trabalho.”
O dirigente informou que o SindPD promoverá um encontro nacional para discutir soberania digital, inteligência artificial e seus efeitos sobre os direitos trabalhistas.
Ele defendeu que o debate seja incorporado às propostas apresentadas ao Presidente Lula e aos governos estaduais, buscando mecanismos de proteção ao emprego diante da automação crescente.
Para Bráz, a inteligência artificial representa um avanço tecnológico inevitável, mas precisa ser acompanhada por políticas públicas capazes de proteger os trabalhadores.
Ao encerrar a entrevista, o futuro presidente do SindPD reafirmou que sua principal meta até 2030 será fortalecer a organização da categoria e ampliar a participação dos trabalhadores nas lutas sindicais.
“A gente acredita que sem luta não há vitória.”
Segundo ele, somente uma categoria unida será capaz de conquistar melhores salários, ampliar direitos e enfrentar os desafios impostos pelas transformações tecnológicas e pelas mudanças nas relações de trabalho.
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