Julie Ricard alerta que ataques ao voto feminino não são manifestações isoladas, mas parte de uma mobilização política que procura retirar direitos e restabelecer hierarquias entre homens e mulheres
Da Redação
“Questionar o sufrágio universal é questionar quem tem direito de fazer parte da nossa democracia, quem tem direito de expressar sua cidadania da forma mais básica possível, que é votando.” O alerta foi feito pela pesquisadora Julie Ricard durante entrevista ao programa Democracia no Ar.
Pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, o DesinfoPop/CEAPG/FGV, Julie coordenou o estudo “Ataques ao direito de voto das mulheres na machosfera brasileira”. A pesquisa também foi desenvolvida por Mario Aquino Alves e Ergon Cugler de Moraes Silva.
Apresentado por Sara Goes, com comentários da professora Sandra Helena, o programa discutiu a formação de comunidades masculinistas que contestam abertamente o direito das mulheres ao voto. A pesquisa analisou 126 publicações compartilhadas em 18 comunidades abertas do Telegram entre dezembro de 2020 e julho de 2026.
O levantamento constatou que 87% das publicações analisadas assumiam uma posição explicitamente contrária ao voto feminino. Em vez de promoverem uma discussão histórica ou jurídica sobre o sufrágio, as mensagens procuravam convencer os participantes de que as mulheres seriam incapazes de decidir politicamente.
“Não é uma discussão sobre o tema. São afirmações contra o direito de voto, algumas muito violentas”, explicou Julie.
Segundo a pesquisadora, há publicações que classificam o voto feminino como “o pior erro da humanidade”, “a maior desgraça do Ocidente”, “satânico” ou “diabólico”. Embora essas ideias ainda não tenham alcançado toda a sociedade, sua circulação em comunidades organizadas revela uma tentativa de normalização.
“É algo doutrinário, muito relacionado ao momento político que estamos vivendo e ao que esses discursos masculinistas representam em termos políticos”, afirmou.
Um direito conquistado há quase um século volta a ser questionado
O voto feminino foi incorporado ao sistema eleitoral brasileiro em 1932. Quase um século depois, grupos organizados nas plataformas digitais tentam apresentar esse direito como responsável por problemas políticos, econômicos e sociais.
Para Julie, a necessidade de defender novamente um princípio elementar da cidadania mostra como direitos considerados consolidados podem ser colocados em risco.
“É um absurdo que, em pleno 2026, a gente tenha que fazer um programa discutindo os ataques ao direito de voto das mulheres”, declarou.
A pesquisadora contou que experimentou essa sensação ao concluir o relatório. “Eu falei: ‘Gente, eu não acredito que acabei de fazer um relatório sobre isso’. É um direito que temos há quase 100 anos, um dos direitos essenciais da democracia.”
A preocupação não se limita à possibilidade imediata de uma mudança na legislação. A repetição de discursos contrários ao voto feminino pode criar um ambiente favorável a iniciativas que imponham obstáculos à participação eleitoral ou deslegitimem as escolhas políticas realizadas pelas mulheres.
A machosfera brasileira
A machosfera é formada por grupos, influenciadores, fóruns, canais e comunidades digitais que se organizam em torno de diferentes vertentes do masculinismo. Embora nem todos os participantes defendam as mesmas ideias, esses ambientes frequentemente compartilham discursos sobre uma suposta perda de poder dos homens.
Mulheres e movimentos feministas são apresentados como responsáveis por essa perda. Direitos conquistados nas áreas familiar, trabalhista, política e penal passam a ser descritos como privilégios femininos ou instrumentos de perseguição aos homens.
O estudo coordenado por Julie identificou que o ataque ao voto não aparece separadamente das demais formas de misoginia. Ele se insere em um conjunto mais amplo de discursos que questiona a capacidade intelectual das mulheres, sua autonomia e sua presença nos espaços de decisão.
Para construir essa deslegitimação, as comunidades recorrem a argumentos contraditórios. As mulheres podem ser descritas como frágeis e excessivamente empáticas, mas também como interesseiras, manipuladoras ou incapazes de sentir empatia.
A coerência entre as acusações tem pouca importância. O objetivo é encontrar alguma característica que permita justificar a exclusão.
“Perceba que um argumento contradiz o outro. Você não pode ser, ao mesmo tempo, empática demais e não ter nenhuma empatia, que seria a definição da psicopatia”, observou Julie.
“O que importa é atribuir características supostamente imutáveis às mulheres para justificar aquilo que se queira justificar depois. Nesse caso, dizer que as mulheres não têm capacidade para votar”, acrescentou.
Sexismo paternalista e sexismo hostil
O relatório distingue duas formas recorrentes de sexismo presentes nas comunidades analisadas. A primeira é aparentemente protetora. As mulheres seriam frágeis, emotivas e dependentes de orientação masculina.
Esse sexismo paternalista apresenta a subordinação como cuidado. Em vez de declarar abertamente que as mulheres são inferiores, afirma que elas precisam ser protegidas das exigências da vida pública ou das consequências de suas próprias decisões.
No debate sobre o voto, essa retórica sustenta que as mulheres teriam empatia em excesso e não conseguiriam tomar decisões difíceis. Por essa razão, escolheriam candidatos supostamente permissivos com criminosos ou favoráveis a políticas sociais consideradas prejudiciais pelos integrantes desses grupos.
A segunda forma é o sexismo hostil. Nesse caso, a misoginia aparece de maneira explícita. As mulheres são apresentadas como interesseiras, irracionais, promíscuas ou psicopatas.
Segundo Julie, as duas formas de discurso fazem parte de um mesmo processo.
“Pouco importa se dizem que as mulheres são mais frágeis e precisam ser protegidas ou que são todas interesseiras. Qualquer declaração que tente naturalizar características das mulheres e atribuir tarefas, comportamentos ou papéis fixos estabelece um limite para o espaço que elas podem ocupar”, explicou.
A suposta proteção e a hostilidade aberta conduzem ao mesmo resultado: a tentativa de restabelecer uma hierarquia na qual os homens decidem e as mulheres obedecem.
A política por trás da misoginia
A análise das mensagens mostrou que o ataque ao voto feminino não é motivado somente por preconceitos relacionados à personalidade das mulheres. Há uma finalidade eleitoral claramente expressa.
Em diversas publicações, os integrantes dessas comunidades afirmam que as mulheres deveriam perder o direito de votar porque tenderiam a escolher candidatos de esquerda.
“Mulheres não deveriam votar porque mulheres votam à esquerda. Existe aí, explicitamente, um posicionamento político”, afirmou Julie.
As mensagens também associam o feminismo ao comunismo e classificam políticos que dialogam com o eleitorado feminino como traidores ou oportunistas. Dessa forma, o discurso masculinista é transformado em instrumento de mobilização da direita.
Para a pesquisadora, a presença dessa justificativa revela que os ataques não tratam somente das mulheres. Eles se dirigem à composição do eleitorado e às condições nas quais uma disputa democrática deve ocorrer.
Se um grupo social pode ser impedido de votar porque suas escolhas desagradam a determinado campo político, o princípio do sufrágio universal deixa de existir.
Julie definiu esse movimento como uma instrumentalização política da machosfera. A misoginia ajuda a organizar ressentimentos, criar inimigos e justificar a exclusão de eleitores considerados inconvenientes.
Um voto por família
O estudo também encontrou referências a discursos difundidos nos Estados Unidos. Em setores da direita norte-americana, lideranças políticas e religiosas passaram a defender a ideia de um voto por família ou por domicílio.
Nesse modelo, a família deixaria de ser formada por cidadãos com direitos individuais. O marido seria tratado como representante político da unidade familiar, enquanto a esposa deveria acompanhar sua escolha.
“A lógica é que as mulheres deveriam alinhar seu voto ao dos maridos. No final das contas, o que importa é que o marido vote”, explicou Julie.
A pesquisa não encontrou uma defesa explícita do voto por família nas comunidades brasileiras analisadas. Identificou, contudo, as mesmas estratégias usadas para preparar esse argumento: mulheres seriam emotivas, incapazes de decidir racionalmente e inclinadas a apoiar políticas prejudiciais aos interesses masculinos.
“Não encontramos menção explícita a um voto por domicílio ou por família na machosfera brasileira, pelo menos por enquanto. Mas vemos as mesmas estratégias retóricas”, advertiu.
A expressão “por enquanto” marca a preocupação da pesquisadora com a importação de discursos estrangeiros. Ideias inicialmente restritas a grupos norte-americanos podem ser traduzidas, adaptadas e apresentadas ao público brasileiro por influenciadores ligados à extrema direita.
Obstáculos indiretos ao voto
Julie mencionou iniciativas norte-americanas que não propõem formalmente o fim do voto feminino, mas podem tornar a participação das mulheres mais difícil.
Uma dessas propostas buscava impor novas exigências de identificação para pessoas cujo nome atual fosse diferente daquele registrado no nascimento. Como muitas mulheres adotam o sobrenome do marido ao se casar, a medida atingiria esse grupo de maneira desproporcional.
O caso mostra que a retirada de direitos não precisa ocorrer por meio de uma proibição declarada. Mudanças burocráticas podem criar barreiras que dificultam o registro eleitoral ou exigem documentos adicionais de determinados segmentos.
“No Brasil, ainda não temos esse tipo de projeto explicitamente relacionado ao voto das mulheres. O problema é a normalização dessa retórica”, afirmou Julie.
A repetição dos ataques pode preparar a aceitação de medidas que pareçam administrativas, mas produzam consequências políticas desiguais.
Do voto à proteção contra a violência
Durante a entrevista, o ataque ao sufrágio foi relacionado às tentativas de deslegitimar a Lei Maria da Penha e a história da mulher que deu nome à legislação.
O agressor de Maria da Penha voltou a divulgar acusações contra ela, apesar das decisões judiciais e do reconhecimento internacional do caso. Um documentário utilizou um laudo falso para tentar sustentar a versão de que Maria da Penha teria inventado a violência sofrida.
Para Julie, questionar a história de Maria da Penha serve a um objetivo mais amplo. Se a vítima for apresentada como mentirosa, a própria lei pode ser descrita como uma injustiça contra os homens.
“A Lei Maria da Penha é um dos marcos institucionais e legais fundamentais de proteção às mulheres, reconhecido internacionalmente e citado em relatórios das Nações Unidas sobre o combate à violência doméstica”, ressaltou.
Nas comunidades masculinistas, entretanto, a legislação é frequentemente tratada como instrumento de perseguição. A mesma estrutura utilizada para atacar o voto aparece nesse debate: mulheres seriam manipuladoras, fariam falsas acusações e receberiam proteção excessiva.
“O agressor tenta questionar a própria legitimidade de Maria da Penha e dizer que aquela história é uma farsa. Isso fundamenta todo o discurso que encontramos nessas comunidades, que atacam a lei e a própria Maria da Penha”, afirmou Julie.
“A quem interessa que as mulheres não votem?”
A pesquisadora propôs uma pergunta para orientar a análise política do fenômeno.
“A quem interessa que as mulheres não votem e que as mulheres não estejam protegidas?”, questionou.
A retirada do voto afetaria mais da metade do eleitorado brasileiro. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento das políticas de proteção ampliaria a vulnerabilidade das mulheres dentro de casa, no trabalho e nos espaços políticos.
Para Julie, os ataques fazem parte de um mesmo movimento destinado a reduzir a autonomia feminina. Mulheres sem proteção contra a violência, sem independência econômica e sem participação eleitoral possuem menos condições de questionar as relações de poder.
A misoginia digital, portanto, não fica confinada à internet. Ela influencia comportamentos, campanhas eleitorais e debates legislativos.
Direitos podem ser perdidos gradualmente
Sandra Helena observou que a retirada de direitos raramente acontece de uma só vez. Antes de uma mudança legal, surgem discursos que apresentam determinado direito como injusto, exagerado ou desnecessário.
A comentarista citou as discussões sobre mudanças no direito sucessório dos cônjuges. Embora apresentadas como alterações técnicas, essas propostas podem atingir especialmente mulheres que interromperam carreiras ou reduziram sua participação no mercado de trabalho para cuidar dos filhos e da casa.
A naturalização começa quando o debate deixa de provocar indignação e passa a ser tratado como uma proposta comum, ainda que considerada difícil de aprovar.
O mesmo processo pode ocorrer com o voto. Uma ideia anteriormente reconhecida como incompatível com a democracia passa a ser apresentada como opinião legítima e, depois, como alternativa legislativa.
Julie concordou que os ataques precisam ser compreendidos como um contínuo. As manifestações aparentemente brandas ajudam a preparar o terreno para aquelas mais violentas.
“Quando falamos de colocações que parecem inocentes, como dizer que as mulheres precisam ser protegidas, até as que questionam o voto ou afirmam que mulheres são psicopatas, tudo isso é um contínuo argumentativo com o mesmo objetivo”, explicou.
Esse objetivo, acrescentou, é “deslegitimar as mulheres e voltar a criar uma hierarquia entre os gêneros que passamos muitas décadas combatendo”.
A falsa neutralidade da “natureza feminina”
A pesquisa dedica atenção ao processo de essencialização, no qual comportamentos aprendidos socialmente são apresentados como características biológicas e imutáveis.
Desde a infância, meninos e meninas recebem estímulos diferentes. Meninos são incentivados a ocupar espaços, praticar determinadas atividades físicas e assumir riscos. Meninas costumam ser orientadas para o cuidado, a contenção corporal e a obediência.
Julie citou o filme Tomboy, dirigido por Céline Sciamma, para refletir sobre como essas expectativas interferem na relação das crianças com o próprio corpo. A obra acompanha uma menina que, ao mudar de cidade, apresenta-se aos novos amigos como menino e passa a participar de atividades socialmente associadas ao universo masculino.
“Desde muito pequenos, somos incentivados a desenvolver nosso corpo de forma diferente segundo o gênero. Existem expectativas de que o menino vai conseguir subir na árvore ou na pedra e a menina não”, comentou a pesquisadora.
Isso não significa negar todas as diferenças físicas. Significa reconhecer que diferenças corporais não determinam capacidade política, inteligência ou direito à cidadania.
Transformar comportamentos produzidos socialmente em “natureza feminina” permite apresentar relações de poder como se fossem inevitáveis.
Como responder sem normalizar
Julie admitiu que pesquisadores e comunicadores enfrentam um dilema. Ignorar os ataques pode permitir que eles cresçam sem contestação. Divulgá-los de maneira descuidada pode aumentar seu alcance ou oferecer legitimidade a uma ideia incompatível com a democracia.
“Até que ponto a gente faz essa barragem e diz que não é possível normalizar isso jamais? Ou inadvertidamente estaria contribuindo para dar mais visibilidade ao discurso?”, indagou.
A resposta debatida no programa foi que o problema não se resume a falar ou silenciar. É necessário definir como o assunto será apresentado.
Uma enquete perguntando se as mulheres devem ou não votar coloca um direito constitucional como se fosse uma preferência submetida à escolha do público. Dessa forma, a própria pergunta aceita que a cidadania de metade da população pode ser negociada.
A abordagem jornalística precisa mostrar quem produz esses discursos, quais são seus objetivos políticos e como eles se relacionam com outras tentativas de restringir direitos.
O estudo do DesinfoPop segue essa direção. Em vez de transformar o voto feminino em matéria de opinião, analisa a organização das comunidades que tentam deslegitimá-lo.
Campanha eleitoral amplia os riscos
A aproximação das eleições de 2026 pode aumentar a circulação de conteúdos misóginos. Mulheres aparecem nesse ambiente como eleitoras a serem desacreditadas e como candidatas submetidas à violência política.
“Um lado da moeda é dizer que mulheres não podem votar. O outro é dizer que elas não deveriam ser votadas”, resumiu Julie.
O DesinfoPop pretende acompanhar as campanhas para identificar ataques, campanhas coordenadas e narrativas destinadas a afastar candidatas da disputa.
A pesquisadora lembrou que as mensagens mais violentas costumam receber maior circulação nas redes sociais. Plataformas organizadas por sistemas de recomendação frequentemente premiam conteúdos capazes de provocar indignação e conflito.
“Não são somente as declarações mais explicitamente violentas que precisamos combater. Todo o contínuo de sexismo precisa ser entendido como tal”, afirmou.
Para Julie, defender o voto feminino em 2026 significa proteger o princípio de igualdade sobre o qual se sustenta a democracia. O risco não está apenas numa eventual proposta de revogação, mas na aceitação gradual da ideia de que algumas pessoas possuem mais legitimidade política do que outras.
“Esses discursos precisam ser entendidos como uma ameaça à essência da nossa democracia, que é a igualdade entre todas e todos”, concluiu.
Onde consultar a pesquisa
O relatório “Ataques ao direito de voto das mulheres na machosfera brasileira” está disponível no site do DesinfoPop, laboratório vinculado à Fundação Getulio Vargas.
O endereço é desinfopop.org. Na seção de publicações, também podem ser consultadas notas técnicas e pesquisas anteriores sobre a machosfera e a desordem informacional.
Referências
Tomboy | Direção de Céline Sciamma | 2011
Sicko: $O$S Saúde | Direção de Michael Moore | 2007
Declaração dos direitos da mulher e da cidadã | Olympe de Gouges | 1791
Odisseia | Homero | aproximadamente século VIII a.C.
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