Investigação da piauí aponta que desembargador Newton Ramos intermediou reuniões entre o banqueiro e o ministro do STF enquanto familiares do magistrado mantinham relações profissionais com empresas ligadas ao Banco Master; envolvidos negam irregularidades
Da Redação
Uma investigação publicada pela revista piauí revela novas informações sobre a proximidade entre Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques e o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A apuração, assinada pelos jornalistas Breno Pires e Pedro Tavares, reúne conversas extraídas do celular do banqueiro, registros telefônicos, documentos financeiros e decisões judiciais para reconstruir encontros, pedidos de favores e relações profissionais que coincidiram com processos de grande interesse econômico para o banco.
Segundo a reportagem, Newton Ramos atuou como intermediário para organizar encontros entre Vorcaro e Nunes Marques. Ao mesmo tempo, o escritório de advocacia de Camilla Ramos, mulher do desembargador, mantinha contratos com o Banco Master para atuar em processos relacionados a créditos bilionários de usinas contra a União. A investigação também identificou transferências do banco para a empresa Consult Inteligência Tributária, que repassou recursos a Kevin Marques, filho do ministro.
Os registros levantados pela piauí não demonstram, por si sós, que pagamentos tenham sido realizados em troca de decisões judiciais. As circunstâncias descritas, contudo, levantam questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses, a relação entre magistrados e partes interessadas em processos e a necessidade de apuração institucional.
Desembargador intermediou encontros entre Vorcaro e o ministro
As conversas entre Vorcaro e Newton Ramos começaram em março de 2024, conforme os registros examinados pela reportagem. Em abril daquele ano, o desembargador convidou o banqueiro para um encontro com o ministro Kassio Nunes Marques. Após uma primeira tentativa frustrada, um almoço foi organizado em 17 de junho, na residência de Ramos, em Brasília.
Na mesma data, Vorcaro encaminhou à secretária contatos salvos em seu telefone como “Kassio Marques” e “Kevin Marques”. Pouco depois, solicitou que fosse agendada uma reunião na sede do Banco Master, em São Paulo, com Kevin, filho do ministro. O encontro ocorreu em 20 de junho de 2024, com a presença de outras pessoas.
A investigação encontrou registros de novas reuniões e contatos entre Vorcaro e o desembargador. Em diferentes ocasiões, Ramos se referia a Nunes Marques como “nosso amigo” ou simplesmente “o amigo”. Segundo a piauí, as mensagens mostram que o desembargador organizou pelo menos nove encontros presenciais entre o banqueiro e o ministro.
Os registros não esclarecem o conteúdo de todas as reuniões nem permitem determinar se os encontros resultaram em solicitações relacionadas a processos específicos. A reportagem, entretanto, documenta que a aproximação ocorreu enquanto o Master tinha interesses financeiros relevantes em ações que tramitavam no STF e no TRF-1.
Pagamentos à Consult e relação com o filho de Nunes Marques
Um dos pontos centrais da investigação envolve a Consult Inteligência Tributária, empresa que recebeu transferências do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025. De acordo com um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citado pela revista, os repasses somaram aproximadamente R$ 6,6 milhões.
A Consult foi criada por Francisco Craveiro, amigo de longa data de Kassio Nunes Marques. A empresa também transferiu pelo menos R$ 282 mil a Kevin Marques, filho do ministro, segundo documentos analisados pela publicação.
Em mensagens trocadas em julho de 2024, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, perguntou a Vorcaro se deveria manter um pagamento de R$ 500 mil mensais associado a Kevin. Em outras conversas, o banqueiro orientou Rennó a prestar atenção ao sobrenome do advogado e a verificar um contrato. A reportagem não conseguiu estabelecer, com base nesses registros, a correspondência exata entre cada valor mencionado nas mensagens e os pagamentos efetivamente realizados.
Em agosto de 2025, Rennó voltou a apontar a Consult entre os pagamentos considerados essenciais para o banco. Em uma conversa, afirmou que a empresa era “muito importante”. O relatório do Coaf identifica transferências do Master para a Consult, mas os documentos citados não comprovam, isoladamente, que os repasses tenham sido feitos em troca de decisões judiciais.
Kevin Marques afirmou à revista que os valores recebidos da Consult remuneravam serviços jurídicos especializados nas áreas tributária e administrativa, com emissão de notas fiscais. Ele negou ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido dinheiro diretamente de Vorcaro.
Julgamento no STF favoreceu interesse econômico do banco
A investigação também examina o julgamento de uma ação envolvendo a Destilaria Alcídia, uma usina que cobrava indenização da União por uma política de controle de preços do setor sucroalcooleiro adotada na década de 1980. O Banco Master havia adquirido precatórios relacionados a usinas que buscavam receber valores do poder público.
Segundo a reportagem, a carteira de precatórios do Master ligada a esse setor era estimada pela Polícia Federal em R$ 10 bilhões. O banco tinha interesse no resultado de decisões judiciais que pudessem influenciar a tramitação de outras ações semelhantes.
Em 2018, quando atuava no TRF-1, Nunes Marques havia participado do caso da Destilaria Alcídia. Em 2024, ao analisar a possibilidade de votar novamente no processo, o ministro inicialmente constava como impedido no sistema do STF. Em junho daquele ano, porém, afastou o impedimento, alegando que o registro havia ocorrido por um equívoco da assessoria.
O julgamento estava empatado em dois votos a dois. Em setembro, Nunes Marques pediu vista, interrompendo temporariamente a análise. Em 1º de outubro de 2024, devolveu o processo e votou favoravelmente à usina, desempatando o resultado em 3 a 2.
A reportagem relata que Vorcaro comemorou o resultado em mensagens enviadas a contatos de seu celular. Um dos registros reproduz a expressão “Ganhamos STF!”, enviada pelo banqueiro após a conclusão do julgamento.
Nunes Marques negou que tenha havido conflito de interesses e afirmou que a Segunda Turma deliberou pela inexistência de impedimento. Também sustentou que o processo não tratava diretamente do Banco Master e que a decisão não teve alcance geral nem serviu de precedente para outros casos do setor.
Contrato de advocacia previa honorários de até R$ 427 milhões
Outro eixo da apuração envolve o escritório de Camilla Ramos, mulher do desembargador. A banca atuava em processos de interesse do Master relacionados a precatórios de usinas de açúcar e álcool que buscavam indenizações contra a União.
Segundo um documento obtido pela piauí, o contrato de honorários previa o pagamento de 5% do benefício econômico bruto em um conjunto de doze ações. Considerando o valor total estimado de R$ 8,5 bilhões envolvido nesses processos, a remuneração potencial poderia chegar a R$ 427 milhões.
Entre as ações estavam processos referentes às usinas Una e Capricho, nos quais ainda havia discussão sobre os valores das indenizações. A reportagem relata que Newton Ramos manteve conversas com Vorcaro sobre a tramitação de assuntos relacionados a essas disputas, utilizando expressões genéricas como “aquele assunto” e “vai tratar do assunto”.
Em outubro de 2024, o desembargador informou ao banqueiro que havia conversado com alguém que trataria de um assunto no fim de semana. As mensagens não permitem identificar com segurança o tema exato da conversa nem estabelecer que tenha havido interferência indevida em uma decisão judicial.
Camilla Ramos e o escritório afirmaram à revista que mantinham relação profissional com o Master desde 2024, por meio de contrato formal. Negaram atuação no processo específico da Destilaria Alcídia e disseram que Newton Ramos não integrava os colegiados responsáveis pelos julgamentos das ações patrocinadas pela banca. Também afirmaram que o contrato previa honorários de êxito e que nenhum valor havia sido recebido até então.
Viagens, hospedagens e outros favores
A investigação descreve uma série de pedidos feitos por Newton Ramos a Vorcaro. Entre eles estavam tarifas diferenciadas em hotéis, ingressos para eventos esportivos e musicais, hospedagem durante o Carnaval, transporte aéreo e uma casa em Trancoso para um período de férias.
Em uma das conversas, o desembargador solicitou que o banqueiro organizasse hospedagem para integrantes de um grupo associado a Nunes Marques. Em outra, pediu ajuda para conseguir ingressos para a Fórmula 1. A reportagem também relata que Vorcaro disponibilizou aeronaves e hospedagens em ocasiões que envolveram o ministro ou pessoas próximas a ele.
Os registros incluem pedidos de quartos no Hotel Fasano e a organização de uma viagem a Buenos Aires em um avião do banqueiro. Em 2025, mensagens também trataram de uma hospedagem no Rio de Janeiro para o ministro e sua mulher, além de uma viagem a Maceió para o aniversário de Camilla Ramos.
Segundo a piauí, o histórico de conversas entre Vorcaro e Newton Ramos registrou 463 mensagens e 40 chamadas pelo WhatsApp entre março de 2024 e abril de 2025. A revista identificou ainda que, a partir de dezembro de 2024, as mensagens passaram a ser configuradas para desaparecer automaticamente após 24 horas. Pelo menos 282 mensagens foram apagadas nesse período.
A existência de conversas apagadas não permite determinar o conteúdo que não foi preservado. Os registros remanescentes, porém, documentam uma relação frequente entre o banqueiro e o desembargador, incluindo solicitações de benefícios pessoais e contatos associados a processos de interesse do Master.
Ministro nega pedidos, pagamentos e irregularidades
Em resposta à piauí, Kassio Nunes Marques negou ter pedido favores a Vorcaro ou recebido solicitações do banqueiro. Afirmou que nunca votou a favor de Daniel Vorcaro e citou seu voto pela manutenção da prisão do empresário. Também declarou que não autorizou terceiros a falar em seu nome e que não pode ser responsabilizado por conversas ou ações de outras pessoas.
Sobre Kevin Marques, o ministro afirmou que o filho nunca recebeu dinheiro do Banco Master e que os valores transferidos pela Consult remuneravam serviços jurídicos. Negou, ainda, que algum familiar tenha atuado para o banqueiro e contestou a interpretação de que sua participação no julgamento da Destilaria Alcídia tenha representado conflito de interesses.
Newton Ramos declarou que a legislação o impede de atuar em causas patrocinadas pelo escritório de sua mulher e de seu filho. Também negou ter tratado informalmente de assuntos de interesse da banca com outros magistrados e disse que as demais conversas mencionadas pela revista eram de caráter privado, sem relação com sua função jurisdicional.
Camilla Ramos e o escritório afirmaram que a relação com o Master era profissional e contratual. Rejeitaram a associação entre a atuação jurídica da banca e a atividade jurisdicional do desembargador e contestaram a divulgação de mensagens que classificaram como vazamentos ilegais e seletivos.
Francisco Craveiro declarou anteriormente que suas relações pessoais não tinham ligação com suas atividades empresariais. Procurado novamente, informou que não se manifestaria. Kevin Marques também negou ter prestado serviços ao Banco Master e afirmou que os pagamentos recebidos da Consult foram referentes a serviços jurídicos.
Caso amplia questionamentos sobre conflitos de interesses
A investigação reúne informações sobre relações pessoais, transferências financeiras, contratos de advocacia e decisões judiciais que envolvem pessoas com vínculos entre si. A combinação desses elementos levanta questionamentos sobre transparência, impedimentos judiciais e mecanismos de controle aplicáveis a magistrados e familiares.
A reportagem também informa que o corregedor nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, cancelou R$ 4,7 bilhões em requisições de pagamento relacionad


