Vanessa Rodrigues e Brenda Gomes discutem como escolhas de palavras, imagens e fontes podem ocultar o autor do crime e responsabilizar as vítimas de feminicídio
A maneira como a imprensa noticia o feminicídio pode contribuir para a compreensão da violência contra as mulheres ou reproduzir preconceitos, apagar responsabilidades e transferir parte da culpa para as próprias vítimas. A avaliação foi feita pelas jornalistas Vanessa Rodrigues e Brenda Gomes durante uma edição do programa Vozes pela Democracia dedicada à responsabilidade da imprensa na cobertura desses crimes.
Produzido pela Atitude Popular, o Vozes pela Democracia é uma iniciativa do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, o FNDC, sobre cidadania e direito à comunicação. Durante a entrevista, apresentada por Sousa Júnior, as convidadas analisaram títulos, imagens, fontes jornalísticas e critérios de seleção de casos, além de defenderem formação permanente nas redações e maior atenção às desigualdades raciais e sociais que atravessam a violência contra as mulheres.
Jornalista e ativista pelos direitos das mulheres, Vanessa Rodrigues é uma das autoras do livro Histórias de Morte Matada contadas feito Morte Morrida, finalista do Prêmio Jabuti de 2022, e do Voz Ativa: O Manual do Jornalismo Antifeminicídio. A partir das pesquisas que deram origem às duas publicações, ela afirmou que as estatísticas mais recentes mostram um cenário preocupante.
“O cenário é triste, desolador, preocupante e desesperador”, afirmou.
Segundo Vanessa, embora exista uma discussão sobre o aumento das denúncias e a maior visibilidade dos casos, as pesquisas indicam crescimento efetivo dos feminicídios. A jornalista também chamou atenção para crimes praticados com formas cada vez mais graves de tortura e violência.
Outro fenômeno mencionado foi o chamado feminicídio indireto, quando o agressor ataca familiares da mulher, especialmente os filhos, como forma de atingi-la ou puni-la.
A análise da cobertura jornalística desenvolvida por Vanessa e pela jornalista Daniara ao longo de 40 anos identificou padrões narrativos que atravessam décadas. Entre os principais problemas está a utilização recorrente da voz passiva nos títulos e textos.
Expressões como “mulher é morta”, “mulher foi morta” ou “mulher é encontrada morta” colocam a vítima no centro da frase e frequentemente retiram o agressor da narrativa.
Vanessa citou como exemplo uma manchete sobre uma mulher encontrada morta no banheiro. A formulação, segundo ela, permitia imaginar inicialmente um acidente ou um mal súbito. No entanto, tratava-se de um feminicídio cujo autor já havia confessado o crime.
“Quando você coloca na voz passiva, você invisibiliza a gravidade e o autor daquele crime”, explicou.
Para a jornalista, o título representa o primeiro contato do público com a informação e influencia a compreensão do acontecimento. Quando o autor desaparece da construção da frase, a violência parece ocorrer sem agente.
Vanessa afirmou que algumas redações começaram a modificar esse padrão, mas a mudança ainda é pequena diante da dimensão do problema.
“Pouca coisa mudou. Os títulos continuam sendo publicados na voz passiva”, avaliou.
A escolha das fotografias também foi criticada. Segundo a jornalista, é comum a utilização de imagens retiradas das redes sociais das vítimas, frequentemente em situações de lazer ou poses que, fora do contexto original, podem receber uma interpretação sexualizada.
Para Vanessa, essa escolha pode produzir um subtexto de responsabilização da mulher, especialmente em casos nos quais o agressor alega ciúmes ou inconformismo com o fim de um relacionamento.
“É como se ela tivesse feito alguma coisa que justificasse aquela ação do assassino”, afirmou.
O Voz Ativa: O Manual do Jornalismo Antifeminicídio surgiu, segundo Vanessa, da necessidade de oferecer alternativas práticas aos profissionais das redações. A proposta considera a pressão cotidiana por velocidade, audiência e produtividade, além da precarização do trabalho jornalístico.
O manual apresenta sugestões de formulação das notícias que preservam a memória da vítima e respeitam seus familiares sem ignorar princípios jurídicos como a presunção de inocência.
“Respeitar o processo jurídico não é ser condescendente com o criminoso nem desrespeitoso com a vítima e com a memória da vítima”, afirmou.
A jornalista Brenda Gomes, integrante do Programa de Comunicação do Instituto Odara e mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, ampliou a discussão ao abordar a desigualdade racial presente na seleção e no acompanhamento das notícias.
Segundo Brenda, o problema não está somente na maneira como um caso é narrado. Antes disso, existe uma decisão editorial sobre quais vítimas merecerão atenção.
“Quais são as fontes que merecem destaque? Quais são os casos que merecem destaque?”, questionou.
Para a jornalista, os feminicídios de mulheres negras recebem menos atenção, menor continuidade e menos contextualização. Em algumas reportagens, observou, a vítima sequer é identificada pelo nome.
Brenda chamou atenção para a situação de mulheres negras, quilombolas e moradoras de periferias. Segundo ela, quando esses casos chegam ao noticiário, frequentemente desaparecem depois das primeiras matérias sem que a cobertura acompanhe a investigação e o julgamento.
“A terceira matéria vai perdendo a força, a identidade, o território. Tudo isso é deixado de lado”, afirmou.
A jornalista relacionou a discussão ao contexto da Bahia e afirmou que existe uma distância considerável entre a dimensão da violência enfrentada pelas mulheres negras e a representação desse problema no noticiário.
Brenda também defendeu que a imprensa pode exercer influência no acompanhamento das investigações e processos judiciais. Para ela, manter um caso em evidência, informar sobre julgamentos e acompanhar a responsabilização dos autores pode ampliar a pressão social sobre as instituições.
A jornalista fez, no entanto, uma ressalva sobre o próprio conceito de justiça diante do feminicídio.
“Para nós, justiça seria que essas mulheres permanecessem vivas”, afirmou.
Vanessa Rodrigues reforçou a importância do recorte racial na análise da violência contra as mulheres. Segundo ela, os dados mostram uma redução dos feminicídios de mulheres brancas e um aumento dos casos entre mulheres negras.
“O retrato do feminicídio no Brasil é o da mulher negra e periférica. Não é este o retrato que aparece na cobertura de imprensa”, declarou.
De acordo com Vanessa, as vítimas mais frequentes são mulheres negras, moradoras de periferias, com baixa escolaridade e frequentemente mães de crianças e adolescentes. Essa realidade, porém, não ocupa espaço proporcional no noticiário.
A jornalista afirmou que a cobertura dos feminicídios reproduz diferentes dimensões de desigualdade.
“A gente trabalha com racismo estrutural e também com uma fetichização na cobertura”, explicou.
Para demonstrar a diferença de tratamento jornalístico, Vanessa recordou dois casos ocorridos no mesmo dia e com características semelhantes.
Uma juíza branca foi assassinada pelo marido, no Rio de Janeiro, na véspera do Natal, diante das filhas. O crime provocou ampla repercussão nacional e manifestações de autoridades.
No mesmo dia, Genilde, uma mulher negra do interior da Bahia, também foi assassinada pelo ex-companheiro diante das filhas. O caso teve circulação muito mais restrita.
Um mês depois, segundo Vanessa, uma prima de Genilde também foi assassinada pelo ex-companheiro. A família passou a enfrentar simultaneamente o luto por dois feminicídios.
Para a jornalista, a diferença de repercussão entre os casos revela como raça, território e classe social interferem na seleção das histórias consideradas relevantes pelas empresas jornalísticas.
A entrevista também discutiu o crescimento de crimes praticados com tortura e violência extrema. Vanessa afirmou que existe a percepção de um aumento dos processos de violência física e psicológica que antecedem o assassinato.
Segundo ela, pesquisadores ainda procuram compreender integralmente as novas manifestações do fenômeno, mas é necessário observar a circulação de discursos misóginos em comunidades digitais e grupos masculinistas.
“Estamos vivendo um contexto horrível de estetização da violência e de gamificação da violência”, afirmou.
Vanessa também manifestou preocupação com a influência desses grupos sobre adolescentes e jovens. Segundo ela, começam a aparecer crimes cometidos por meninos contra meninas em contextos que exigem novas pesquisas e políticas de prevenção.
Para a jornalista, uma cobertura adequada precisa ampliar as fontes consultadas. Reportagens sobre feminicídio não deveriam depender exclusivamente de boletins policiais, autoridades de segurança e documentos judiciais.
O manual elaborado por Vanessa e Daniara apresenta sugestões de pesquisadores, integrantes do Ministério Público e especialistas em violência contra as mulheres que podem contribuir para contextualizar os casos.
“O papel do jornalismo é a defesa dos direitos humanos. E a violência contra a mulher é uma das maiores violações de direitos humanos no mundo”, afirmou.
Brenda Gomes também relacionou o crescimento da violência ao contexto político brasileiro e à circulação de discursos extremistas.
“A gente tem visto um crescimento não só dos casos de feminicídio, mas dos casos de extremismo e de violência”, afirmou.
Segundo ela, a expansão de comunidades digitais misóginas tem alcançado homens adultos e também parcelas da juventude. Para Brenda, esse fenômeno não está separado do ambiente político dos últimos anos.
Na parte final do programa, a jornalista apresentou propostas para modificar a cobertura. Entre elas está a formação permanente dos profissionais de imprensa sobre a legislação relacionada ao feminicídio e sobre as diferenças entre feminicídio e outros tipos de homicídio.
Brenda reconheceu as dificuldades enfrentadas nas redações, onde equipes reduzidas acumulam produção de textos, vídeos e conteúdos para diferentes plataformas. Ainda assim, defendeu que a precarização não pode impedir uma reflexão sobre a maneira como as vítimas e suas famílias são abordadas.
“A gente precisa pensar em formação contínua para jornalistas”, afirmou.
Para ela, uma cobertura capaz de contribuir para transformações sociais precisa recuperar a história das vítimas e compreender que a mulher assassinada possuía relações familiares, projetos e uma trajetória anterior ao crime.
“Aquela mulher não é apenas uma mulher que foi morta por um homem. Ela tem uma história humana por trás daquilo”, destacou.
Brenda também defendeu atenção aos filhos e demais familiares que sobrevivem aos feminicídios e precisam conviver com as consequências da violência e com a exposição pública dos casos.
Ao longo da entrevista, as duas convidadas convergiram em um ponto central: a notícia não é neutra quando apaga o agressor, responsabiliza a vítima, seleciona imagens que estimulam julgamentos morais ou ignora a desigualdade racial presente nas estatísticas.
A transformação desse cenário, segundo Vanessa Rodrigues e Brenda Gomes, passa pela formação dos profissionais, pela diversificação das fontes e pela compreensão de que o jornalismo possui responsabilidade diante das violações de direitos humanos.
A pergunta formulada por Vanessa durante a entrevista sintetizou o desafio apresentado às redações:
“Se mulheres estão sendo mortas, quem está matando?”
Referências
Histórias de Morte Matada contadas feito Morte Morrida
Autoras: Vanessa Rodrigues e Daniara
Ano de publicação: 2021
Finalista do Prêmio Jabuti de 2022
Voz Ativa: O Manual do Jornalismo Antifeminicídio
Autoras: Vanessa Rodrigues e Daniara
Ano de publicação não informado no programa
Assista ao programa completo:
Vozes Pela Democracia sobre imprensa e feminicídio
📺 Programa Vozes Pela Democracia
📅 Toda sexta-feira
🕙 Das 12h às 13h
📺 Ao vivo em: TV Atitude Popular no YouTube
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
Canal Atitude Popular no WhatsApp

