Em entrevista ao Café com Democracia, Daciane Barreto defende a ampliação das políticas públicas, afirma que a violência contra as mulheres tem raízes estruturais e destaca que nenhuma mulher atendida pela Casa da Mulher Brasileira foi vítima de feminicídio
Da Redação
Em entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, a coordenadora da Casa da Mulher Brasileira em Fortaleza, Daciane Barreto, fez um apelo para que mulheres em situação de violência não permaneçam em silêncio. Ao longo da conversa com o âncora Luiz Regadas, ela apresentou o funcionamento da rede de atendimento, discutiu os desafios para o enfrentamento da violência de gênero e defendeu a ampliação das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.
Militante do movimento feminista desde a década de 1980 e coordenadora da Casa da Mulher Brasileira desde sua implantação, em 2018, Daciane afirmou que romper o silêncio pode ser decisivo para interromper o ciclo da violência.
“Se você calar, fica mais difícil chegar à ajuda.”
Segundo ela, o equipamento integra o programa Mulher Viver sem Violência, criado em 2013 durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, e funciona ininterruptamente, 24 horas por dia, todos os dias da semana, recebendo mulheres por demanda espontânea.
Mais de 336 mil atendimentos
Durante a entrevista, Daciane apresentou números do trabalho desenvolvido pela unidade de Fortaleza.
Segundo ela, em quase oito anos de funcionamento, a Casa da Mulher Brasileira realizou *336 mil atendimentos, média de aproximadamente *117 atendimentos diários.
A coordenadora explicou que o principal diferencial do equipamento é reunir, em um único espaço, diversos serviços especializados, evitando que a vítima tenha de repetir sucessivamente o relato da violência sofrida.
“A Casa da Mulher Brasileira veio revolucionar o atendimento às mulheres em situação de violência.”
Entre os serviços disponíveis estão atendimento psicossocial, Delegacia de Defesa da Mulher, Juizado da Mulher, Ministério Público, Defensoria Pública, setor de autonomia econômica, posto da Perícia Forense, núcleo especializado da Polícia Militar e brinquedoteca para acolhimento das crianças durante os atendimentos.
Segundo Daciane, essa integração elimina dois problemas históricos enfrentados pelas vítimas: a revitimização e a peregrinação entre diferentes órgãos públicos.
Equipamentos espalhados pelo Ceará
Além da unidade de Fortaleza, o Ceará conta atualmente com cinco Casas da Mulher Cearense, mantidas pelo Governo do Estado, que seguem o mesmo modelo de atendimento integrado.
As unidades estão localizadas em Juazeiro do Norte, Quixadá, Sobral, Tauá e Crateús, atendendo suas respectivas regiões.
Somadas às casas municipais e outros equipamentos especializados, o estado possui cerca de cem estruturas voltadas ao acolhimento, orientação e encaminhamento de mulheres em situação de violência.
Autonomia financeira também salva vidas
Outro aspecto destacado pela coordenadora foi a independência econômica das mulheres.
Segundo dados apresentados durante a entrevista, 35% das mulheres atendidas não possuem renda própria e dependem financeiramente do agressor.
Para enfrentar essa realidade, as Casas da Mulher oferecem cursos profissionalizantes e mantêm parcerias com instituições públicas e privadas para facilitar a inserção das vítimas no mercado de trabalho.
“Nós sabemos que essa dependência financeira é um forte impedimento para romper o ciclo da violência.”
Além do atendimento presencial, Daciane lembrou que o serviço Ligue 180 funciona gratuitamente durante 24 horas em todo o país, oferecendo orientação, encaminhamento e recebimento de denúncias.
“A violência contra as mulheres é estrutural”
Ao responder perguntas sobre as causas da violência, Daciane rejeitou a ideia de que o problema seja apenas cultural.
“A violência contra nós mulheres não é uma questão cultural. É uma questão estrutural.”
Ela argumentou que o patriarcado antecede o próprio capitalismo e estrutura relações de dominação que se manifestam em diferentes dimensões da vida social.
Segundo a coordenadora, políticas públicas são fundamentais, mas não suficientes.
“Só as políticas públicas não vão resolver. É necessário que toda a sociedade participe dessa luta.”
Ela também chamou atenção para o crescimento de grupos misóginos organizados nas redes sociais, que, segundo sua avaliação, disseminam discursos de ódio especialmente voltados aos jovens.
Debate sobre educação e gênero
Durante a conversa, Luiz Regadas lembrou a influência de músicas, propagandas e outras manifestações culturais na naturalização da violência contra as mulheres.
Daciane concordou que esses elementos contribuem para perpetuar comportamentos violentos, mas ressaltou que fazem parte de uma estrutura social mais ampla.
Ela criticou ainda a retirada dos debates sobre gênero das escolas.
“Nenhuma criança nasce machista, misógina ou violenta.”
Segundo ela, discutir gênero significa compreender os mecanismos sociais que produzem desigualdades e violências, e não promover qualquer tipo de doutrinação, como frequentemente afirmam setores conservadores.
Investimento público é indispensável
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de ampliar os investimentos públicos destinados à proteção das mulheres.
Daciane afirmou que menos de 10% dos municípios brasileiros possuem delegacias especializadas de atendimento à mulher, o que dificulta a efetividade da Lei Maria da Penha.
Ela também citou a importância de aprovar legislações que fortaleçam o enfrentamento à misoginia e defendeu maior compromisso do Parlamento com políticas de proteção às mulheres.
“Da lei sair do papel para a prática exige investimento.”
Nenhuma mulher atendida foi vítima de feminicídio
Um dos dados mais expressivos apresentados durante a entrevista foi o resultado alcançado pela Casa da Mulher Brasileira.
Segundo Daciane, entre as 336 mil mulheres atendidas, nenhuma foi vítima de feminicídio após buscar auxílio no equipamento.
“A importância de procurar ajuda está exatamente nisso.”
Ela explicou que o atendimento pode incluir medidas protetivas, acolhimento em casas-abrigo, apoio psicológico, acompanhamento jurídico e encaminhamento para toda a rede de proteção existente.
Direitos conquistados exigem vigilância permanente
Ao encerrar a entrevista, Daciane destacou que praticamente todas as políticas públicas voltadas à proteção das mulheres foram resultado da mobilização histórica dos movimentos feministas.
Ela citou a filósofa francesa Simone de Beauvoir para lembrar que períodos de crise costumam representar riscos aos direitos das mulheres.
“Nos momentos de crise econômica, religiosa e política, os primeiros direitos ameaçados são os nossos.”
Em suas considerações finais, a coordenadora reforçou que o enfrentamento à violência exige participação coletiva.
“Quando existe um feminicídio, não é apenas uma mulher que é atingida. É toda uma família. É toda uma sociedade que sofre. Precisamos ampliar cada vez mais a proteção, a garantia de direitos e fortalecer as políticas públicas.”
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