Glaucíria Mota defende integração entre políticas públicas, valorização dos profissionais da segurança e investimento em educação para enfrentar a violência
No programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 30 de março, o apresentador Luiz Regadas recebeu Glaucíria Mota, professora emérita da UECE, ex-coordenadora do LabVida/UECE e pesquisadora de políticas de segurança pública, para debater o tema “Segurança pública: entre a ordem e a cidadania”.
A entrevista, transmitida pela Atitude Popular, discutiu os limites de um modelo de segurança centrado quase exclusivamente na repressão e apontou a necessidade de tratar a violência como fenômeno social complexo, ligado à educação, ao trabalho, à saúde, à moradia, à juventude, à desigualdade e também às condições de vida dos próprios profissionais da segurança.
Logo no início da conversa, Glaucíria Mota afirmou que o Brasil ainda prioriza a ordem em detrimento da cidadania. Para ela, desde a redemocratização, a segurança pública permanece como um dos temas mais difíceis para os governos democráticos, justamente porque costuma aparecer em períodos eleitorais acompanhada de “propostas milagrosas”.
“Segurança pública não é só ordem, ou seja, não é só polícia, não é só repressão. É fundamentalmente prevenção”, afirmou a pesquisadora. Segundo ela, a segurança deve ser pensada como política pública de curto, médio e longo prazo, integrada a outras áreas do Estado. “Segurança é cultura, é saúde, é educação, é lazer, é moradia, é habitação de qualidade”, completou.
A professora analisou a trajetória das políticas de segurança no Ceará, lembrando experiências como os distritos modelos, o Ronda do Quarteirão, o Ceará Pacífico e o PreVio. Para ela, algumas iniciativas buscaram combinar ordem e cidadania, mas ainda falta continuidade, ampliação e integração real entre Estado, municípios, universidades e comunidades.
Glaucíria destacou que a repressão ao crime organizado é necessária, mas não pode ser a única resposta. “Se só repressão resolvesse o problema da segurança pública no país, as prisões não estavam abarrotadas”, disse. A pesquisadora também lembrou que organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho nasceram dentro do sistema prisional, o que reforça a falência de uma política baseada apenas em encarceramento.
Ao tratar da juventude nas periferias, a professora foi direta: “Apostar massivamente em educação é a saída. A saída se chama educação, educação, educação e geração de empregos”. Ela afirmou que jovens pobres precisam ter acesso real à universidade, permanência estudantil e perspectivas de trabalho. “Os jovens da periferia têm o mesmo sonho que os nossos filhos da classe média e da classe alta, ou seja, ter um lugar ao sol”, declarou.
Outro ponto central da entrevista foi a saúde mental dos policiais. Glaucíria coordena, ao lado do professor João Barros, da UFC, um eixo de pesquisa sobre o tema dentro do programa Cientista Chefe da Segurança Pública no Ceará. Para ela, os profissionais da segurança não podem ser tratados como máquinas. “Os homens e as mulheres que fazem segurança pública são seres humanos, são seres biopsicossociais”, afirmou.
A pesquisadora também analisou a letalidade policial como um problema que atinge tanto a população quanto as próprias instituições de segurança. Segundo ela, a violência praticada no cotidiano do policiamento pode migrar para as relações de trabalho, para a família e para o próprio policial. “Essa letalidade policial usurpa e viola a cidadania do próprio policial como trabalhador da segurança pública”, disse.
Nas considerações finais, Glaucíria Mota elogiou a parceria entre Secretaria de Segurança Pública, UFC, UECE e Funcap no programa Cientista Chefe, por aproximar pesquisa acadêmica e formulação de políticas públicas. Para ela, diagnósticos qualificados podem ajudar tanto nas ações de repressão quanto, principalmente, nas políticas de prevenção.
A frase que sintetizou a entrevista veio no encerramento: “Segurança pública não se resolve com bravatas. Não se resolve com mais violência e com mais armamento. Segurança pública se resolve com prevenção e cuidado”.
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