Da Redação
Ataque israelense à base aérea de Abu al-Duhur expõe disputa pelo futuro estratégico da Síria; Ancara amplia cooperação com Damasco, Israel tenta impedir presença militar turca e Washington corre para criar mecanismo de emergência que evite uma colisão entre duas das maiores forças militares da região
A Síria está se transformando rapidamente no ponto de encontro de duas estratégias regionais incompatíveis. De um lado, a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan procura consolidar sua influência política, econômica e militar sobre a nova Síria governada pelo presidente Ahmed al-Sharaa. Do outro, Israel pretende impedir que a reorganização do Estado sírio produza em sua fronteira uma potência militar apoiada por Ancara e capaz de limitar a liberdade de ação que as Forças Armadas israelenses adquiriram no território sírio. O resultado é uma disputa que já ultrapassou o terreno diplomático e começa a adquirir características de uma guerra indireta entre turcos e israelenses.
O sinal mais perigoso apareceu nesta semana. Israel atacou a base aérea de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria, depois de afirmar que havia recebido informações sobre uma possível instalação de tropas turcas no local. A Turquia negou que houvesse militares seus na base, e o governo sírio afirmou que não existia plano para estabelecer ali uma base turca. Ainda assim, Israel confirmou que realizou o ataque precisamente para impedir uma eventual presença militar de Ancara.
A gravidade do episódio está justamente nisso: Israel atacou preventivamente uma instalação militar síria porque considerou intolerável a possibilidade de que forças de outro Estado soberano — a Turquia — viessem a utilizá-la mediante acordo com Damasco.
Abu al-Duhur fica perto de Idlib e relativamente próxima da fronteira turca. A instalação estava praticamente inoperante havia mais de uma década em consequência da guerra civil síria. Os ataques provocaram danos, mas não deixaram vítimas segundo as informações disponíveis. O significado militar imediato pode parecer limitado; o significado estratégico é enorme.
A questão deixou de ser apenas quem governa a Síria. Passou a ser quem terá o direito de determinar a arquitetura de segurança do país.
Israel sustenta que uma presença militar turca significativa constituiria ameaça à sua segurança. Ancara responde que Israel não possui autoridade para decidir com quais países um governo sírio soberano pode estabelecer cooperação militar. É exatamente nessa incompatibilidade que reside o perigo.
A tensão tornou-se tão séria que os Estados Unidos começaram a trabalhar na criação de um mecanismo formal de “deconfliction”, ou desconflito, envolvendo Israel, Turquia e Síria. O enviado norte-americano Tom Barrack classificou o ataque israelense como uma “escalada desnecessária” e afirmou que é necessário estabelecer canais permanentes de comunicação e compartilhamento de informações para evitar que movimentos militares sejam interpretados equivocadamente e provoquem uma resposta armada.
A necessidade desse mecanismo revela muito mais do que os discursos diplomáticos.
Washington está tentando impedir que Israel e Turquia entrem acidentalmente em guerra.
E isso representa uma transformação profunda do mapa estratégico do Oriente Médio.
O vazio deixado por Assad mudou o tabuleiro
A origem da disputa atual está na queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. Durante décadas, a Síria esteve inserida no eixo formado por Damasco, Teerã e Hezbollah, com apoio decisivo da Rússia a partir da intervenção militar de Moscou em 2015. Israel tratava a presença iraniana no território sírio como sua principal ameaça e realizou durante anos centenas de ataques destinados a destruir depósitos de armas, sistemas de defesa, centros logísticos e estruturas associadas ao Irã e ao Hezbollah.
A queda de Assad alterou radicalmente essa arquitetura.
A influência iraniana diminuiu. A presença russa perdeu parte de sua antiga capacidade de determinar os acontecimentos. E a Turquia emergiu como uma das potências estrangeiras com maior capacidade de influenciar a nova ordem síria.
Erdoğan rapidamente construiu uma relação estreita com Ahmed al-Sharaa. Ancara passou a apoiar a estabilização do novo governo e aprofundou relações econômicas, diplomáticas e de segurança com Damasco. O governo turco afirma que sua cooperação militar está concentrada em treinamento, assistência técnica e reconstrução das capacidades das forças sírias.
Para Israel, entretanto, a possibilidade de essa cooperação evoluir para presença militar permanente modifica completamente o cálculo estratégico.
O problema israelense é que a saída do Irã não necessariamente produzirá uma Síria militarmente fraca. Ela pode produzir uma Síria reconstruída com apoio da Turquia.
E isso, para Tel Aviv, cria outro tipo de ameaça.
Israel quer preservar sua liberdade militar sobre a Síria
Desde o enfraquecimento do Estado sírio, Israel conquistou extraordinária liberdade operacional sobre o território vizinho. Aviões israelenses realizaram sucessivas incursões e ataques sem enfrentar uma defesa aérea comparável àquela que encontrariam contra uma potência militar plenamente organizada.
Essa vantagem estratégica pode desaparecer caso a Turquia ajude a reconstruir as Forças Armadas sírias.
A Turquia não é um ator militar secundário. É membro da OTAN, possui uma das maiores forças armadas da Aliança Atlântica, desenvolveu uma poderosa indústria nacional de defesa e tornou-se particularmente avançada na utilização e produção de drones, mísseis, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle.
Uma Síria equipada e treinada por Ancara seria muito diferente da Síria militarmente fragmentada sobre a qual Israel possui hoje ampla capacidade de intervenção.
É por isso que a disputa por bases como Abu al-Duhur possui significado muito maior do que sua infraestrutura física.
Trata-se de determinar quem controlará o espaço aéreo, os sistemas de vigilância, as redes de defesa e as posições estratégicas da Síria futura.
Mossad já havia transmitido o recado diretamente a Damasco
Há outro elemento particularmente importante.
Poucos dias antes do ataque, o diretor do Mossad, Roman Gofman, conversou diretamente com o ministro das Relações Exteriores sírio, Asaad al-Shaibani. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a conversa de 14 de agosto tratou justamente das preocupações israelenses com a crescente presença militar turca, possíveis vendas de armamentos e fornecimento de drones às forças sírias.
Isso significa que o bombardeio não ocorreu no vazio.
Israel havia transmitido sua advertência. Dias depois, atacou.
Netanyahu posteriormente vinculou explicitamente a operação à possibilidade de presença turca. Ancara, por sua vez, acusou Israel de utilizar alegações insustentáveis para justificar ações ilegais contra a soberania territorial síria.
Estamos, portanto, diante de uma sequência extremamente clara: inteligência, advertência diplomática, ataque militar e ameaça pública.
É uma linguagem de poder.
A Síria pode se tornar palco de uma guerra por procuração
A reportagem da RT chama atenção para a possibilidade de a Síria se transformar no palco de uma proxy war, uma guerra por procuração entre Israel e Turquia.
A formulação exige alguma cautela porque ainda não existe uma guerra por procuração plenamente configurada. Turquia e Israel não comandam atualmente dois grandes exércitos sírios rivais combatendo sistematicamente um ao outro.
Mas os elementos estruturais necessários para essa dinâmica começam a aparecer.
A Turquia aposta na consolidação do governo de Ahmed al-Sharaa e na reconstrução de um Estado sírio capaz de controlar seu território. Israel, por sua vez, demonstra profunda desconfiança em relação a essa centralização e mantém interesses específicos no sul sírio, particularmente em áreas próximas às comunidades drusas e às Colinas de Golã ocupadas.
A divergência é estrutural.
Ancara quer uma Síria relativamente forte, unificada e integrada à sua esfera econômica e estratégica. Israel tem fortes incentivos para impedir o surgimento de uma Síria militarmente poderosa que possa representar novamente uma ameaça em sua fronteira.
É aí que a disputa deixa de ser episódica.
Erdoğan e Netanyahu disputam muito mais do que a Síria
A rivalidade também precisa ser entendida dentro da competição mais ampla pela reorganização do Oriente Médio.
A Turquia procura consolidar-se como potência autônoma entre Europa, Mediterrâneo, Cáucaso, Mar Negro, Ásia Central e Oriente Médio. Desenvolveu uma indústria militar própria, ampliou presença na África, fortaleceu relações com países árabes e busca construir corredores comerciais e energéticos capazes de transformar sua localização geográfica em poder geopolítico.
Israel também procura reorganizar a região em torno de sua superioridade militar e tecnológica, das relações estratégicas com os Estados Unidos e de alianças construídas com determinados Estados árabes.
As duas estratégias conseguem coexistir enquanto suas áreas de influência permanecem separadas.
Na Síria, elas se encontram fisicamente.
É por isso que o território sírio possui tamanho potencial explosivo.
Gaza adicionou outra camada à rivalidade
A guerra em Gaza deteriorou profundamente as relações entre Erdoğan e Netanyahu. A Turquia transformou-se numa das críticas mais contundentes às operações israelenses e passou a apoiar iniciativas internacionais destinadas a responsabilizar o governo israelense.
Nesta própria sexta-feira, Ancara anunciou que pretende solicitar à Interpol uma notificação vermelha contra Netanyahu no processo relacionado à interceptação da Flotilha Global Sumud. A Justiça turca já havia expedido mandados no caso, que envolve acusações gravíssimas formuladas pelas autoridades turcas contra integrantes da liderança israelense. Israel rejeita as acusações.
Portanto, a disputa possui agora diversas camadas simultâneas: Gaza, Síria, influência regional, segurança militar, direito internacional e liderança política no mundo muçulmano.
O problema é que a camada síria contém armas, aviões, drones e soldados.
É ela que pode transformar hostilidade política em confronto militar.
Um ataque contra soldados turcos mudaria tudo
O cenário mais perigoso seria relativamente simples.
Imagine uma futura instalação síria contendo assessores ou militares turcos sendo atacada por Israel.
Mesmo que os turcos não fossem o alvo principal, mortes de militares da Turquia criariam enorme pressão doméstica sobre Erdoğan para responder.
O inverso também é verdadeiro.
Uma defesa aérea síria operada ou apoiada por turcos poderia derrubar uma aeronave israelense. Um drone poderia ser confundido com outro. Um sistema de radar poderia travar um caça. Um comandante local poderia interpretar uma aproximação como ataque iminente.
É justamente para evitar esse tipo de cadeia de acontecimentos que Washington está tentando construir o mecanismo de desconflito. Tom Barrack reconheceu que a ausência de coordenação pode produzir incidentes extremamente caros.
A experiência internacional mostra como guerras podem começar dessa maneira: não necessariamente porque dois governos decidiram conscientemente iniciar um conflito total, mas porque uma sucessão de movimentos militares, erros de interpretação e obrigações políticas torna a desescalada progressivamente mais difícil.
E existe uma complicação gigantesca chamada OTAN
A Turquia é integrante da OTAN.
Isso não significa que um confronto turco-israelense na Síria automaticamente acionaria o Artigo 5º da Aliança. As circunstâncias, a localização e a natureza do incidente seriam determinantes, e os membros da organização teriam de avaliar politicamente qualquer pedido turco.
Mas a simples possibilidade de uma confrontação entre Israel e um integrante da OTAN produziria uma crise extraordinária para Washington.
Os Estados Unidos são o principal aliado estratégico de Israel e, simultaneamente, lideram uma aliança militar da qual a Turquia faz parte.
Washington poderia se encontrar diante de dois parceiros estratégicos apontando armas um para o outro.
Essa é uma das razões pelas quais os norte-americanos estão tentando impedir a escalada antes que ela ultrapasse o ponto de controle.
A disputa também interessa à Rússia
Há ainda um ator que não desapareceu completamente do tabuleiro: a Rússia.
Moscou perdeu parte considerável da influência que possuía durante o governo Assad, mas a Síria continua importante para a projeção russa no Mediterrâneo Oriental. Qualquer deterioração entre Turquia e Israel abre espaço para a diplomacia russa explorar contradições dentro do sistema de alianças norte-americano.
Uma crise entre Israel e Turquia seria particularmente interessante para Moscou justamente porque colocaria Washington numa posição desconfortável entre dois parceiros.
Ao mesmo tempo, a Rússia possui uma relação complexa com Erdoğan: coopera com Ancara em determinadas áreas e compete em outras. Síria, Cáucaso, Mar Negro, energia e Ucrânia fazem dessa relação uma combinação permanente de negociação e rivalidade.
Portanto, uma guerra turco-israelense não produziria simplesmente dois lados.
Ela reorganizaria múltiplos tabuleiros simultaneamente.
A questão curda permanece no centro da equação
Existe ainda a questão das forças curdas no nordeste da Síria.
Para a Turquia, organizações curdas armadas associadas ao PKK representam ameaça direta à segurança nacional. Ancara deseja uma estrutura síria capaz de integrar ou neutralizar militarmente essas forças.
Israel possui outro cálculo.
Uma Síria excessivamente centralizada e dominada por um governo fortemente associado à Turquia pode ser vista como desfavorável aos interesses israelenses. Minorias e estruturas autônomas dentro do território sírio tornam-se, nesse contexto, componentes potenciais da competição regional.
Isso cria terreno clássico para uma guerra indireta: potências externas apoiando diferentes grupos, comunidades ou estruturas locais para impedir que o adversário consolide domínio sobre todo o território.
A Síria conhece muito bem esse mecanismo. Durante mais de uma década, seu território foi palco simultâneo das estratégias de Estados Unidos, Rússia, Turquia, Irã, Israel, monarquias do Golfo e diferentes organizações armadas.
O risco é que o país simplesmente esteja entrando numa nova versão da mesma tragédia.
O povo sírio continua sendo a variável esquecida
Sob uma perspectiva do Sul Global, existe uma questão que precisa permanecer no centro dessa discussão: a soberania síria.
Durante anos, praticamente todas as grandes potências envolvidas no conflito justificaram sua presença em território sírio com argumentos relacionados à segurança, terrorismo, estabilidade regional ou proteção de populações.
O resultado foi um país fragmentado por intervenções externas.
Agora, a possibilidade de que Israel determine unilateralmente quais países podem ou não estabelecer cooperação militar com Damasco reproduz essa lógica de soberania limitada.
Isso não significa ignorar preocupações legítimas de segurança israelenses. Significa reconhecer que segurança não pode funcionar como autorização ilimitada para bombardear preventivamente países vizinhos sempre que sua política externa produza uma configuração considerada desfavorável.
A Turquia também possui interesses próprios e não atua na Síria por altruísmo. Ancara deseja influência econômica, segurança fronteiriça, controle sobre a questão curda e projeção regional.
A diferença fundamental é que a reconstrução da soberania síria deveria, em princípio, significar que Damasco — e não Tel Aviv, Ancara, Washington ou Moscou — determine quais relações internacionais pretende estabelecer.
Esse princípio continua sendo sistematicamente subordinado à política de poder.
Estamos diante de uma nova guerra?
Ainda não.
E é importante dizer isso claramente.
Não existe neste momento uma guerra direta entre Turquia e Israel. Também seria exagerado afirmar que uma guerra é inevitável. Washington está trabalhando justamente para impedir uma colisão, e nenhum dos dois governos parece possuir interesse racional numa confrontação militar aberta de grande escala.
Mas o grau de risco aumentou.
A Associated Press registrou que Israel atacou Abu al-Duhur declaradamente para impedir uma presença turca. A Reuters confirmou a escalada das advertências entre os dois governos, as conversas anteriores envolvendo o Mossad e a diplomacia síria e a intervenção norte-americana destinada a estabelecer um mecanismo de desconflito.
São fatos concretos.
E eles apontam para uma transformação importante: a principal competição estrangeira dentro da Síria pós-Assad pode deixar de ser Israel versus Irã e passar progressivamente a ser Israel versus Turquia.
Essa mudança altera todo o equilíbrio regional.
O Irã enfrentava Israel a partir de uma rede de aliados e organizações armadas. A Turquia é outra categoria de poder: Estado de quase 90 milhões de habitantes, integrante da OTAN, potência industrial e militar, produtor de armamentos avançados e país com profundidade estratégica diretamente conectada à Síria.
Israel possui superioridade aérea, inteligência extraordinariamente sofisticada, arsenal tecnológico de primeira linha, apoio norte-americano e capacidade nuclear não declarada oficialmente.
Colocar essas duas estruturas militares numa disputa territorial sem canais sólidos de coordenação seria extremamente perigoso.
A Síria, portanto, pode estar entrando numa nova fase de sua longa tragédia geopolítica.
Primeiro foi o terreno da disputa entre governo e insurgências. Depois, tornou-se palco da competição entre Rússia e Estados Unidos, Irã e Israel, Turquia e forças curdas, jihadistas e múltiplas potências regionais.
Agora, depois da queda de Assad e da redução da presença iraniana, um novo eixo começa a emergir.
Turquia e Israel estão disputando os limites estratégicos da Síria pós-guerra.
Abu al-Duhur foi até agora apenas uma base bombardeada.
Mas pode ser lembrada futuramente como o lugar onde ficou explícita uma questão muito maior: Israel não aceita uma Síria militarmente reconstruída sob influência turca; a Turquia não aceita que Israel tenha poder de veto sobre a reconstrução da Síria.
Enquanto essa contradição permanecer sem solução, cada base, cada drone, cada sistema de defesa aérea e cada destacamento militar poderá transformar-se numa peça de um tabuleiro cada vez mais perigoso.
E, desta vez, as duas potências que movimentam as peças possuem capacidade suficiente para transformar uma guerra por procuração em algo muito maior.


