“Sozinho na saúde você não cuida mais de ninguém”

Especialista em políticas públicas, Ana Paula Girão Lessa defende preceptores comprometidos com o trabalho colaborativo e com a formação de profissionais capazes de enxergar o usuário como ser humano integral no SUS

Formar profissionais de saúde que enxerguem o usuário como um ser humano complexo, com história, vínculos e contexto social, é um dos principais desafios do Sistema Único de Saúde. E, nesse processo, uma figura assume papel estratégico dentro das unidades: o preceptor. A avaliação é da especialista em políticas públicas e em educação na saúde para preceptoria no SUS, Ana Paula Girão Lessa, entrevistada por Luiz Regadas no programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, no dia 27 de novembro.

Ao longo da conversa, Ana Paula destacou que a formação em saúde não termina nos bancos da universidade, mas se aprofunda no cotidiano dos serviços, onde o profissional recém-formado aprende a cuidar de pessoas reais, em situações complexas. É nesse cenário que atua o preceptor. Em suas palavras, ele é “o professor da prática, da ação concreta, da execução do processo de trabalho” e, cada vez mais, precisa ser alguém preparado para construir cuidado interdisciplinar.

“Hoje, se a gente não formar profissionais com capacidade de se responsabilizar pelo seu usuário, nós não vamos avançar. Sozinho na saúde você não cuida mais de ninguém.”

Quem é o preceptor e o que ele faz

Ana Paula explicou que o preceptor é um profissional de saúde em atividade que, além de exercer suas funções assistenciais, assume o papel de facilitador do processo de ensino em serviço. Ele acompanha médicos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas e outros profissionais em formação, principalmente em programas de residência.

Esses residentes já concluíram a graduação, mas necessitam de uma etapa prática estruturada, em contato direto com usuários, famílias e equipes. É nesse momento que o preceptor atua:

orientando a prática cotidiana
mediando a relação entre teoria e realidade do serviço
incentivando o trabalho em equipe
ajudando a construir uma visão de cuidado que vá além do órgão doente

“Você conclui um curso de medicina, de enfermagem e precisa ir para dentro das instituições de saúde para aprender na prática como realizar um cuidado”, explicou. O preceptor, diz ela, não é apenas alguém que “sabe mais”, mas um profissional que domina a prática e desenvolveu capacidade didática para facilitar o aprendizado de colegas já adultos, com formação superior.

Da fragmentação ao cuidado integral

Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica ao modelo de atenção fragmentado, ainda hegemônico em grande parte do sistema de saúde. Ana Paula lembrou que o avanço tecnológico e a superespecialização trouxeram ganhos, mas também produziram consequências negativas.

“A especialização não é ruim por si só. O problema é quando o profissional olha e diz ‘eu cuido só do seu olho, o ouvido é com outro médico, não tenho nada a ver com isso’.”

Para ela, esse recorte por partes do corpo, desvinculado da história de vida do usuário, do seu modo de morar, trabalhar e se alimentar, impede que o cuidado seja efetivo, sobretudo em doenças crônicas. No caso do diabetes, exemplificou, não basta prescrever remédios. A pessoa precisa mudar alimentação, rotina, atividade física, e isso exige equipe multiprofissional engajada, com nutricionista, fisioterapeuta, médico, enfermeira, assistente social e outros, atuando de forma articulada.

Nesse contexto, o preceptor tem papel chave na formação de profissionais com uma “subjetividade colaborativa”, isto é, com capacidade real de trabalhar em equipe, dividir responsabilidades e construir projetos terapêuticos de forma compartilhada.

“Na saúde, nós estamos cuidando de pessoas, das necessidades humanas, não apenas do olho ou do ouvido. Quando eu faço uma cirurgia de catarata, o objeto do meu trabalho não é o olho doente. É o idoso que precisa melhorar sua qualidade de vida.”

O SUS como campo de inovação na formação

Embora a fragmentação ainda seja forte, Ana Paula ressaltou que o SUS tem sido, paradoxalmente, o lugar onde mais se avança na construção de modelos colaborativos de cuidado, especialmente por meio da atenção básica e das residências multiprofissionais.

A atenção básica, lembrou, já nasce pensada para o trabalho de equipe, com profissionais que acompanham famílias ao longo do tempo e se responsabilizam por um território. Porém, essa lógica só se consolida se a formação de médicos, enfermeiros e demais profissionais for ajustada a essa realidade.

“Como é que você muda o modelo se boa parte dos profissionais continua sendo formada de forma fragmentada, sem entender a necessidade do cuidado integral?”

Segundo ela, foi justamente para enfrentar esse desafio que o SUS passou a investir em residências multiprofissionais e programas de educação na saúde. Essas iniciativas buscam formar novos profissionais com outra visão, desde o início habituados a trabalhar em equipe, ouvir o usuário e articular diferentes níveis de atenção.

Humanização e participação do usuário

Outro eixo importante da entrevista foi a humanização do cuidado. Ana Paula destacou a Política Nacional de Humanização como um marco na tentativa de reorganizar o atendimento com base na escuta, na participação e na construção coletiva dos planos terapêuticos.

Ela citou como exemplo o Projeto Terapêutico Singular, elaborado em equipe e com a participação do usuário e de sua família quando necessário. Esse instrumento é essencial para conduzir casos complexos, que envolvem não apenas doença, mas condições de moradia, renda, vínculos familiares e outros determinantes sociais.

“O usuário no campo da saúde é copartícipe. Não adianta definir um tratamento se ele não vai aderir. Ele precisa ser inserido no processo de atenção, ser ouvido, participar da negociação do cuidado.”

A lógica vale para todos os níveis, da atenção básica às UTIs. Em cada contexto, há especificidades, mas o princípio permanece: o usuário não é “um número na fila”, é sujeito de direitos, alguém que deve ser informado, respeitado e envolvido nas decisões que dizem respeito ao próprio corpo.

SUS x setor privado e a prova da pandemia

Ao comparar o SUS com o setor privado, Ana Paula foi clara: os problemas existem em ambos, mas o sistema público avançou mais na concepção de cuidado integral e de trabalho em equipe. Ela lembrou que, na pandemia de Covid-19, quem sustentou a resposta sanitária foi a rede pública, mesmo sob um governo federal que “trabalhou contra” as medidas de prevenção.

A existência de uma estrutura de atenção básica, de vigilância em saúde e de serviços conectados foi decisiva para evitar uma tragédia ainda maior. Isso, segundo ela, é resultado de uma construção que vem desde os anos 1990 e se fortaleceu especialmente nos governos Lula, com expansão da rede e de políticas de formação.

Ainda assim, alerta, há um longo caminho a percorrer. Para que o usuário tenha de fato uma “porta de entrada estável” — por exemplo, um mesmo posto de saúde, com equipe que conheça seu histórico e o acompanhe ao longo dos anos —, é necessário não apenas ampliar serviços, mas garantir profissionais qualificados e com vínculos estáveis.

Precarização, sobrecarga e luta por concurso público

Se o preceptor é figura central na formação em serviço, ele também está imerso nas contradições do mundo do trabalho em saúde. Ana Paula não minimiza o problema:

boa parte dos profissionais é contratada de forma precária, por cooperativas ou vínculos temporários
muitos não têm férias, 13º, direitos trabalhistas básicos
a remuneração é frequentemente insuficiente para quem precisa estudar continuamente e se qualificar

“A preceptoria, grosso modo, não é remunerada. Você é profissional da unidade, faz seu trabalho e ainda se disponibiliza a ensinar. É acúmulo de funções, com sobrecarga de trabalho.”

Ela defende que a forma de contratação é hoje um dos principais obstáculos à consolidação de uma preceptoria forte no SUS. Sem estabilidade e sem perspectiva de carreira, torna-se mais difícil exigir formação permanente e dedicação ao ensino. A saída, na sua avaliação, passa por concursos públicos e políticas de valorização profissional.

Por que tantos querem ser preceptores, mesmo sem remuneração específica?

Apesar da sobrecarga, Ana Paula afirma que há grande interesse em atuar como preceptor. O motivo, diz ela, está na natureza do processo de ensino e aprendizagem em serviço:

“Quem ensina aprende. Depois de alguns anos como preceptora, eu aprendi imensamente. O estudante chega com olhar novo, com novidade, com visão mais ampla. Isso ajuda a abrir horizontes e melhora o processo de trabalho.”

Para muitos profissionais, ser preceptor é forma de qualificar a própria prática, escapar da rotina endurecida e repensar o modo de cuidar. A presença de residentes, segundo ela, provoca a equipe, traz perguntas incômodas, exige atualização e ajuda a romper automatismos.

Formar subjetividades colaborativas e um SUS democrático

Ao final da entrevista, Ana Paula sintetizou o desafio em duas frentes:

  1. Formar profissionais de saúde com subjetividade colaborativa, menos competitiva e mais voltada para o trabalho em equipe
  2. Construir um sistema de saúde realmente democrático, em que o usuário participe do dia a dia do cuidado, não apenas como “queixoso”, mas como sujeito ativo do processo terapêutico “Nós precisamos criar subjetividades de profissionais de saúde voltados para o trabalho colaborativo e construir um sistema de saúde realmente democrático. Democrático no sentido de incorporar o usuário no dia a dia do processo de cuidado.”

Entre lacunas, avanços e disputas, o papel do preceptor aparece, então, como peça estratégica desse projeto: é ele quem, na prática, ajuda a moldar o olhar de uma nova geração de profissionais, capaz de entender que, ali, não se trata de um olho, um rim ou um laudo, mas de gente de carne, osso e história.

https://www.youtube.com/watch?v=Tx6hIj-TdnM

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